O     Espelho     do     Arqueólogo

 

 

 

 

Alceri   Luiz   Schiavini

 

 

 

 

 

 

 

 

2009

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Apenas o silencio cercava a longa subida da montanha, olhando para baixo se via entre os últimos brilhos do dia, pequenas fogueiras distantes que marcavam  provavelmente a expectativa e o medo de dezenas de pessoas. Olhando para cima apenas a escuridão, mas esta escuridão não era a escuridão dos Homens, era a escuridão de um Futuro que existia apenas entre os corações de alguns poucos e na mente de um numero reduzido de homens que o Tempo irá tornar lembranças suas epopéias.

Subir, apenas subir era a missão. E cada passo montanha acima representava a possibilidade de continuar a epopeia dos Velhos, não havia como fugir deste destino. O ar tornava-se mais quente não como resultado do esforço, mas como a própria esperança de existir de dezenas de pessoas que estampavam em seus rostos a certeza que aquele encontro poderia ser, e como deveria ser a continuação da vida em comum.

Como todo momento que antecede as decisões o silêncio era por demais marcante. Tentar compreender porque algumas árvores permaneciam paradas, como que congeladas no tempo, era um presságio de que muitas coisas poderiam não ser compreendidas. A respiração de alguns tentava cortar este silêncio. Olhar para o chão e ou para o alto eram mecanismos repetitivos há algum tempo, e olhar para o alto representava a certeza que a distancia diminuía, mas olhar para o chão significava também que aquele chão poderia ser apenas um caminho temporário. Aquela Montanha não era visitado fazia muito tempo, talvez a algumas gerações e isso representava que muitas coisas foram esquecidas, ou, talvez, muitas coisas novas fizeram parte do cotidiano daquelas dezenas de pessoas.

Algo ainda não está bem claro para alguns que subiam aquela Montanha, onde o silêncio era a marca registrada.

 

 

 

O final da tarde sempre é barulhento, alguns pássaros e alguns animais sempre se mostravam vivos para os homens, mas não naquele dia. E aquele dia mostrava-se diferente, as pessoas não falavam alto, os risos eram poucos, as poucas crianças não corriam como era costume. As mulheres apenas ficavam quietas, faziam suas tarefas como que obrigadas pela tradição do grupo. Ninguém entendia porque o fogo não foi acesso durante o dia, e muito menos porque os velhos não saíram da cabana triangular.

Todo o grupo era composto por algumas famílias que ocuparam aquela região há algum tempo. Havia dezenas de pessoas entre velhos, adultos e crianças. A área que era ocupada não era muito grande, mas era distinta das outras, “os mais velhos” que não eram nativos desta região optaram por delimitar um espaço circular distante do rio que corria a poucos metros. E em torno do espaço circular havia uma área limpa, não havia como chegar à aldeia sem ser visto. Esta era a diferença deste grupo de humanos. Eles viviam entre as árvores, algumas pedras grandes, mas seu entorno mais próximo era limpo. Isto, diziam “os mais velhos”, foi o responsável pela segurança do grupo. Havia certa lógica neste raciocínio. Sabia-se que os humanos mais próximos viviam a vários dias de caminhada para o leste. No sul existia uma serra muito grande para ser vencida. O norte, onde o sol nascia todo o dia, era um lugar não muito atraente, suas terras eram pântanos e guardavam segredos que não poderiam ser descobertos e nem mesmo lembrados. Fora de lá que os mais antigos fugiram a muitas gerações, essa era a única lembrança que o grupo cultivava, mas para algumas pessoas o norte representava muito mais que essa única lembrança.

 

 

O Rio que ficava a poucos metros da aldeia era grande o suficiente para o sustento do grupo, porem fazia algumas luas que ele apresentava mudanças no seu cotidiano.

 

Tudo começou a três luas passadas quando Raz encontrou a Cobra Amarela do tamanho de três homens deitados no chão. Raz tentou acompanhar a cobra para ver aonde ela ia. Para a aldeia ou para outra direção qualquer. Ele não sabia dizer de onde saiu à cobra, apenas viu andando na beira do rio, por cima das pequenas pedras molhadas.  Sabia que seu machado não era suficiente para tentar uma aproximação maior e optou então seguir aquele animal. Afinal, todos no grupo sabiam que a Cobra Amarela fazia parte da própria existência do grupo. Foi ela que surgiu do fundo do Rio Iguruiu, há muito tempo, e jogou Itírui para fora de sua boca, dizendo que agora os homens iriam sobreviver de seus próprios esforços.

Há muito tempo atrás quando os homens entendiam os animais, estes eram quem indicavam o quê comer para os humanos. Os animais conseguiam se comunicar com os homens através de olhares, porém os animais eram enormes e muitos diferentes. Houve uma época que o dia ficou quente, muito quente, o sol parecia que não saia do céu, a noite era muito mais quente que o próprio dia. Os animais e os homens não sabiam o que estava acontecendo, a água dos rios começou a secar, e o calor ficou cada dia maior, o céu não mais era azul, passou a ser de uma cor que lembrava a pele do mamute seca, uma cor amarelada, tendendo para o marrom.

Os animais fizeram uma reunião, somente os animais podiam participar, pois os humanos não eram ágeis o suficiente para poderem andar rápidos. Esta reunião foi feita pelo grande urso. O grande urso era o líder dos animais, por que ele não só era forte, mas também por que sua pele mudava de cor a cada término da época e conseguia ficar em pé, olhando para longe. Os animais não sabiam, mas tinham todos a intuição muito desenvolvida, naquela época o Tempo estava mudando e mudando muito rápido.

 

 

A reunião dos animais foi feita junto ao Lago Etchuru. Todos os animais entraram na água deste lago para poderem conversar.

Esta reunião foi feita dentro da água porque nela os animais sabiam que todos eram iguais e também porque de lá que eles nasceram. Por mais que possa ser difícil entender, naquela época os animais sabiam que a origem de todos eles estava associada àquele lugar, as águas do Lago Etchuru. Os animais pensavam que todos reunidos naquela água, que era uma água escura, muito escura, mas muito gostosa de beber, eles poderiam descobrir o que estava acontecendo. E durante esta reunião com todos os animais presentes aconteceu um fato que marcou a vida de todos que estavam ali reunidos. A parte central do Lago Etchuru levantou de repente e as ondas da água que surgiram foram muito grande assustando todos os animais e destas ondas apareceram três imagens. Os animais nunca tinham visto tais imagens. Um animal enorme com olhos imensos e a cauda muito grande foi a primeira imagem a se formar. O segundo animal tinha asas muito grandes e os olhos pequenos. E o terceiro animal lembrava muito o homem, só que não tinha pêlo algum no seu corpo e os animais ficaram muito assustados.

Como que num encanto o primeiro animal olhou para os outros animais que estavam assustados e levantando o rabo que media a distancia de uma Cururuaru deitada, pensou e todos entenderam: “Haverá um tempo muito quente que começou em um lugar distante e que aquela região seria mudada, tudo iria modificar-se e que muitos daqueles que estavam naquele lugar não teriam tempo de fugir, pois a jornada seria muito longa, mas a vida continuaria diferente, mas continuaria”.

 

O segundo animal levantou suas asas e seu movimento esquentou a água do Lago Etchuru e pensou e todos entenderam também: “Neste Tempo muito quente as águas ficarão quente e quem beber dela em qualquer lugar passará muito mal, mas vocês devem levar galhos de todas as árvores nesta longa jornada e de noite farão um buraco e devem enterrar um galho de cada árvore, somente à noite. E no lugar onde vocês ficarem deverão fazer o mesmo, este lugar será enorme e a salvação de todos vocês. De todos os que conseguirem chegar lá”

E então aquilo que era de tamanho menor dos outros dois animais, que lembrava também um humano, só que sem pêlo, com os braços mais compridos, com a cabeça menor, levantou os braços e a cabeça e pensou e todos entenderam o que ele pensou: “Neste Tempo muito quente e este Tempo que vai durar muito, os humanos vão mudar também, para sobreviver eles deverão deixar de ser ajudados por vocês e vocês serão destruídos por eles. Não haverá mais o equilíbrio entre nós. Nossas forças serão para cada um, não mais iguais. O Tempo que mudou lá longe virá para cá e mudaremos nós também. O Grande Aviran disse para vocês que há uma mudança em andamento e o Grande Atriram falou da Jornada, e eu, o Grande Ecuran, digo que num Tempo muito grande nos voltaremos a ser todos iguais, mas até lá todos nós seremos desconhecidos. Muitas vezes seremos irmãos, mas mais vezes seremos não irmãos, estranhos. Poucas vezes seremos amigos, mas sempre seremos irmãos e isso será o nosso futuro”.

E para o espanto de todos os animais que estavam no Lago Etchuru, Aviran, Atriram e Ecuram se uniram todos num só e subiram, subiram, subiram para o céu e lá explodiram em milhares de pedacinhos e ficaram espalhados como água parada no céu da noite. O grande Urso foi correndo para onde estavam os animais e falou: “Agora vamos seguir o que eles falaram e vamos ter que nos cuidar dos homens, eles não mais vão ser nossos irmãos, precisamos ter cuidados com eles e vamos sair deste lugar. Cada um reúna seus grupos e vão para qualquer lugar, mas não se esqueçam de levar as árvores, elas serão a nossa sobrevivência”.

E então de repente o céu da noite se abriu e de lá onde estavam os três animais começou cair uma chuva fina, cada grupo de animal escolheu seu caminho e começou a Grande Jornada para o desconhecido.

 

 

Raz procurou não fazer muito barulho seguindo a Cobra Amarela. Ela olhou de repente para trás e viu Raz seguindo e então mergulhou no rio e apareceu no alto de uma pedra muito grande no meio do rio e gritou muito alto, assustando o humano e seu grito foi escutado na aldeia. Enquanto gritava a Cobra Amarela fez um gesto com seu corpo encima da pedra, Raz conseguiu ver esse movimento, assim como conseguiu ver também a enorme borboleta que saiu voando.

O eco do grito chegou à aldeia como uma lufada de vento forte, as crianças pararam de fazer o que faziam, as mulheres pegaram seus tacapes e os homens correram para a direção do rio e os velhos olharam para o céu a tempo de ver uma enorme borboleta azul e amarela levantar voou em direção ao norte. Esta direção norte fez que Igûru olhasse para o chão e ver as marcas do deslocamento da Anati, a Cobra Amarela.

Quando os homens chegaram ao rio, Raz voltava correndo, com um rosto misturado de medo e bravura, algo comum naquela aldeia. Sempre havia sido assim, desde o tempo em que  Itiruí foi jogado para fora de Anati, a Cobra Amarela.

 

 

 

 

Raz se reuniu com os homens e falou o que tinha visto. Logo os homens se lembraram do que isto representava e voltaram para a aldeia, mas antes foram todos para o rio tomarem banho. E lá ficaram muito tempo, brincando nas águas do rio.

Este rio que fica na margem da aldeia tinha o nome de Ti porque Ti significava para este grupo alimento bom e lá os homens brincaram até a hora que os velhos vieram e entraram na água e depois de um tempo, apareceram às mulheres e entraram na águas do Rio Ti e as crianças ficaram nas pedras gritando. Igûru, um dos mais velhos, falou para todos saírem porque era à hora das crianças entrarem na água.

Era prática deixar as crianças entrarem depois dos adultos na água do Rio Ti, porque quando elas entravam no rio, o rio já estava cansado do esforço de tentar tirar os adultos de suas águas.

A relação do grupo com o rio era que os homens e as mulheres, na água em busca de alimentos ou mesmo nas brincadeiras, cansavam muito o rio e desta forma quando as crianças entravam no rio, as águas não poderiam fazer nenhum mal, pois estavam muito cansadas e as crianças estavam salvas. O fato de o rio servir de base de alimentação para o grupo não significava que esta relação fosse amigável. O Rio tem sua vida própria, suas idéias, seus interesses e suas vaidades e de tempos em tempos a Aldeia fazia festas para o Rio. Estas festas duravam uma lua. Até o grupo descobrir que o Rio Ti precisava de oferendas muitas pessoas perderam a vida.

Aturu foi quem conseguiu conversar com o Rio Ti para descobrir que o tipo de oferendas o grupo poderia oferecer e o Rio Ti fosse um aliado e não um inimigo.

 

 

Como fazia muito Tempo, mas muito Tempo, o Lago Etchuru havia desaparecido e suas águas secaram por muito tempo, não havia chuva que conseguia encher aquela que tinha sido sua área. Porém, em muitos outros lugares apareceram locais com aquela água escura e boa de beber. Na época de Aturu havia poucos velhos e muitos já não se lembravam do Lago Etchuru, pois desde seu desaparecimento muitas coisas aconteceram e os ancestrais de Aturu eram muitos antigos, eles ainda conseguiam falar com os animais, e hoje, os mais antigos não conseguem.

Mas o Lago Etchuru era conhecido de vários grupos de humanos, às vezes, mudava o nome, mas a sua importância era sempre a mesma. Ataru descobriu que o Rio Ti queria que em cima das pedras que ficavam em frente à Aldeia fossem colocados fogos durante uma lua e pedaços de pedras amarelas. O grupo não sabia onde encontrar pedras amarelas e isso criou um momento de tensão. Num sonho, Aturu escutou uma voz de dentro de uma árvore dizendo que a cor que o Rio Ti queria somente Ela poderia dar, era a cor de seus frutos. Mas a árvore, que ficou sendo chamada de Azi, isto é, Arvore Amarela, pediu em troca que ela fosse cercada de água do rio.

A Árvore Azi gostava de água em seu redor, por que era a única forma de poder se livrar das cobras que andavam em seus galhos. Ela ficava com medo das cobras, pois elas ficavam escondidas na época de seus frutos e atacavam os pequenos animais e os pássaros. E a Arvore Azi tinha nojo de sangue e dos gritos dos animais que eram atacados pelas cobras.

Aturu acordou assustado com esta voz e quando falou o sonho para a aldeia as pessoas ficaram com receio de pedir para o Rio Ti uma ajuda. Etake, irmão de Aturu, foi procurar a arvore do sonho de seu irmão e descobriu que a distancia  entre o Rio Ti  e  a  arvore era grande, não haveria como resolver essa questão.     Foi quando teve a idéia de ir conversar com a Árvore Azi. Lá chegando falou para a Árvore Azi que precisava antes das frutas e lembrou que o Rio Ti queria pedras amarelas e não frutas amarelas.

A Árvore Azi falou então para Ekate, como é que você sabe que o Rio Ti sabe que vocês conhecem esta cor, o amarelo, se vocês não sabem que cor é o amarelo. Ekate e seu grupo não conheciam que cor era o amarelo, e pediu então para Árvore Azi dizer que cor era o amarelo. A Árvore Azi era uma árvore de uma guerreira muito forte que morou ali muito tempo antes do grupo do Ekate e conhecia muitas coisas que o grupo de Ekate não tinha conhecimento. Então a Árvore Azi falou para Etake que se ele dormisse um pouco junto dos seus pés, ele iria conhecer a dona da Arvore Azi e assim poderia saber que cor era o amarelo.

Etake era um jovem que ainda não tinha participado de nenhum Tuclan. Tuclan era a festa principal da Aldeia onde os homens faziam oferendas aos mais velhos. Essas oferendas não eram mais realizadas porque desde que o Grupo chegara nesta região não houve mais lutas contra outros grupos. E as lutas eram os momentos que os mais velhos podiam usar seus conhecimentos da vida para poderem orientar os homens e as mulheres para as lutas. Muitas vezes dava certo, muitas vezes dava como resultado o abandono do lugar como aconteceu na ultima vez. Etake não pensou muito, concordou com a Árvore Azi e falou: mas como vou dormir um pouco, se eu só durmo de noite?

A Árvore Azi falou, eu vou fazer a noite mais cedo e você irá dormir para conhecer minha Dona. E começou a balançar seus enormes galhos e o sol começou a correr mais rápido no céu e logo se fez noite. Etake logo ficou com medo e bravura no rosto, mas caiu num sono profundo.

Na aldeia as pessoas sentiram o vento da Arvore Azi e viram o sol andar mais rápido, mas não entenderam o que esta acontecendo. Somente Aturu ficou pensando e descobriu que Ekate não estava junto de todos quando o fogo foi acesso na aldeia. Iguru falou para as pessoas:  Etake está dormindo nos pés da Árvore Azi e não podemos fazer nada, temos que esperar voltar o dia, porque esta noite será mais longa das que conhecemos, ela será muito comprida.

Etake deitou nos pés da Arvore Azi e colocou seu machado no lado esquerdo do seu corpo, e isso lhe chamou a atenção, pois nunca havia feito isto. No sono Ekate  começou conhecendo lugares diferentes, viu lugares todo branco, sentiu muito frio e pensou que não conseguiria mais acordar. Andou correndo para não poder sentir frio e descobriu que não ficava cansado de tanto correr, viu animais estranhos, peludos e viu também pequenos animais que corriam ao seu lado, com dentes brilhantes, mas eles não atacaram, estavam ao seu lado como que orientando a corrida. Num trecho da corrida esses animais mudaram de forma e agora eram animais com dentes enormes, quase do tamanho de seu braço e olhou seu braço esquerdo que carregava seu machado.

A direção da corrida era rumo a uma floresta diferente, com árvores mais espalhadas e no meio destas árvores altas, algumas menores com frutos diferentes o chão era mais quente. Nos trechos onde sua corrida aumentava, do chão levantava uma poeira leve e o chão começava ficar vermelho, os animais não estavam mais ao seu redor. De repente parou de correr e sentiu pela primeira vez na sua vida um cheiro diferente.  Um cheiro que lembrava um pouco as caçadas, o cheiro do produto da morte, o cheiro do sangue misturado com a pele e o chão, mas ele tinha também um odor diferente, algo que não conseguia definir o que era.

 

 

 

 

 

 

Então escutou vários gritos fortes em sua direção e conseguiu ver três vultos correndo em seu rumo e num primeiro momento ficou paralisado e quando pensou reagir já era tarde. O golpe em sua cabeça foi forte, sentiu o impulso que jogou para trás e rolou na terra seca e viu um rosto pintado com uma cor que nunca tinha visto, apenas conseguiu se virar rapidamente para fugir da mordida que vinha na direção do seu pescoço, mas o arranhão o fez gritar, tentou levantar seu braço esquerdo e usar o machado que ainda estava na sua mão. Mas o medo paralisou o suficiente para descobrir que muitos outros vinham se aproximando e como que num desespero completo levantou a mão esquerda com o machado e tentou lutar, mas a mão esquerda não conseguia mais lhe obedecer, percebeu que alguma coisa não estava certa, olhou para o seu lado esquerdo e viu que sua mão e parte de seu braço estavam sendo disputado por várias pessoas pintadas com uma cor que nunca tinha visto. Não sentiu dor, apenas descobriu que o quê saia de sua parte esquerda não era sangue, era a mesma cor do rosto de seus atacantes. Recebeu outro golpe na cabeça e tudo se apagou.

 

 

A noite demorou a passar na aldeia, a sensação era de desconforto, Iguru não permitiu que os homens saíssem à procura de Ekate. Um silêncio começou a pairar sobre a Aldeia, o vento não veio, apenas o silencio. Os homens se olhavam e ficaram mudos, mas atentos.

Etake conseguiu acordar e viu a Arvore Azi quieta, levantou e acordou a Árvore, batendo no seu tronco, na segunda batida o tronco se abriu e Ekate caiu lá dentro. Não caiu em direção ao chão, mas para frente, sempre pra frente e a cor não era de escuridão, apenas tonalidades verdes escuras misturadas com marrom. Ekate sentiu uma pressão pra frente, o interior da árvore, agora sim, parecia que ia afundando e o caminho ficava mais estreito e maior era a pressão. De repente Ekate sentiu se numa bolha de água que estourou e uma pressão muito grande, lá embaixo uma cor clara anunciava uma saída e finalmente saiu, caindo. Mas um par de mãos desconhecida lhe segurou, tentou abrir os olhos, mas não conseguia, quando, então sentiu dedos limparem seus olhos e num esforço muito grande conseguiu abrir os olhos e conseguiu também respirar.

Viu uma área enorme de água azul com ondas e a primeira coisa que fez foi correr em sua direção e o chão ficava macio, mas frio, a corrida durou pouco, a água também vinha em sua direção e Etake apenas descobriu isto quando chegou perto da água, era enorme e o impacto jogou-o para trás e foi rolando para o chão.

Etake sentiu o chão formado por uma areia grosseira e a água, a água tinha um gosto que nunca tinha sentido na sua vida. Mas sentiu bater as pernas, os braços, o tronco na areia que era muito diferente da do Rio Ti. Quando conseguiu parar, Etake conseguiu levantar a cabeça para a direção de onde veio correndo e viu uma pequena cabana e a Árvore Azi com os frutos de uma cor diferente. A mesma cor do liquido que saiu de seu braço esquerdo.

Instintivamente olhou para seu lado esquerdo e viu seu braço no local e então levantou, foi andando em direção a Árvore Azi. A areia afundava com o peso de seu corpo, a Árvore Azi começou a balançar, quando escutou vozes. Eram vozes humanas, muito diferente das vozes que conhecia. Por motivo que  não  entendeu o  porquê  começou a  andar   mais rápido em direção a arvore, mas a curiosidade fez que olhasse na direção as vozes e viu alguns vultos correndo para sua posição.

 

 

 

 

 

Eram diferentes de tudo que conhecia apesar de não conhecer muito os diversos tipos de humanos que na Aldeia os mais velhos contavam que existiam. Eram menores, quase sem pelos, usavam alguma coisa pendurada no pescoço que balançavam na corrida. Junto aos pés também existia alguma coisa amarrada. O que chamou a atenção foi que dois deles trazia o peito todo pintado de vermelho com um circulo diferente na altura do coração. Este círculo parecia estar aberto, como que a pele não existisse neste local. E conseguiu ver os músculos dentro do corpo. Mas não teve nenhuma sensação de desconforto, apenas a curiosidade tirou-lhe qualquer cuidado à sua defesa e quando se deu conta estava cercado por seis indivíduos completamente diferente de si.  A Árvore Azi começou a balançar e abriu seu tronco, mas Ekate conseguiu olhar mais uma vez para os estranhos que ficaram parados olhando, também assustados, para ele.

Um deles se aproximou mais perto com as mãos baixas e falou uma frase que Ekate conseguiu entender como sendo “da onde você apareceu?”. Tentou responder, mas sua voz não saiu, apenas correu em direção a Árvore Azi e entrou no seu tronco.

Ekate novamente acordou e olhou para a Árvore Azi, perguntou como que se fosse uma criança, não vi sua dona, apenas vi coisas que eu não pensei existirem. A Árvore Azi falou: volte para a aldeia e conte tudo o que aconteceu para seu povo, eles saberão entender. Mas antes de qualquer coisa tome um banho no rio.

Ekate foi à Aldeia, caminhando e tentando colocar suas experiências oníricas em ordem. Sentia se fisicamente cansado, mas não era um cansaço mental. Parecia que tinha viajado muito. O dia começava a clarear e escutou vozes, desta vez, eram vozes conhecidas.

Seus pares foram chegando perto, havia uma espécie de curiosidade em todos. Ekate falou que tinha que tomar banho no rio antes de dizer qualquer coisa. E assim foram todos em direção ao rio que corria mansamente no seu leito. Todos da Aldeia estavam agora seguindo Ekate rumando para o rio. As crianças, as mulheres, os mais velhos e os homens estavam todos em silencio. Assim que a distancia diminuía a água do rio começou a ficar agitada, o silencio foi quebrado pelo estrondo das águas nas pedras. Todos entenderam que havia alguma coisa acontecendo, mas Ekate tinha que continuar em direção ao Rio Ti e a Aldeia toda que acompanhava entendeu que algo acontecera com Ele naquela noite longa demais, mas agora não tinha como querer mudar alguma coisa.

Era sempre assim, a Vida não tinha condição de ser pensada, era quase sempre tudo sem lógica, a capacidade da Aldeia entender o que acontecia nem sempre os mais velhos conseguiam explicar. E esse acontecimento era a prova que tudo acontecia sem o Humano poder interferir em nada. Era apenas um ator sem saber o que fazer, mas o principal era que fazia. Muitas vezes com medo, mas uma coragem que vinha de algum lugar desconhecido de dentro de cada um manifestava-se e solucionava a situação. Nem sempre deu certo, mas sempre foi encarado e resolvido o novo.

O barulho das águas lembrava o som dos trovões que às vezes acontecia no céu e quase sempre ao entardecer. Ekate não conseguia olhar para os lados e muito menos para trás para olhar para a Aldeia que o acompanhava, mas de repente percebeu uma criança que ficou bem próxima de si, do lado esquerdo de sua figura. A criança tinha um pequeno machado na sua mão direita e olhou para Ekate e sorriu.

Ekate chegou junto ao Rio Ti e tirou o machado de sua cintura e entrou nas águas barulhentas, mergulhou com os olhos abertos tentando ver algumas coisas, mas viu apenas uma pedra grande no meio do rio e subiu rapidamente nela. A Pedra parecia que estava esperando por ele, pois havia algumas marcas que facilitava a sua subida e a claridade da água indicava que logo conseguiria novamente respirar. E assim feito, Ekate conseguiu sair de dentro das águas do Rio Ti.

As pessoas estavam todas na margem do Rio esperando algo acontecer. Quando Ekate ficou em pé em cima da pedra, viu que aquela pedra não era daquele lugar, e junto dele ficou também em pé a grande cobra amarela.

O espanto da aldeia foi enorme, mas ninguém conseguia fazer nada. Apenas o silencio fazia parte daquele quadro. A água estava parada, as árvores pareciam que ficaram mudas na sua imobilidade, os pássaros e os animais também não fizeram barulho algum. O silencio, o silencio reinava como que não existisse nada naquela cena.

Ekate viu a grande cobra amarela ficar em pé ao seu lado, era muitas vezes maior, mas apenas percebeu que agora um cansaço mental também ganhava força em seu corpo. Conseguiu ver as pessoas na margem do Rio Ti, ficou olhando uma a uma. Algumas pessoas mudavam suas expressões faciais e não conseguia entender porque acontecia isto. Apenas sentia se cansado, muito cansado, porém, não sabendo de onde abriu a boca e começou a falar.

Enquanto falava Ekate sentia que seu corpo começava a entrar lentamente na grande cobra amarela, mas ainda assim conseguia ver as pessoas na beira do Rio Ti e sentia que sua voz ficava cada vez mais alta, como que gritasse. O corpo da grande cobra amarela era muito estranho por dentro, não havia músculos, órgãos, nada. Parecia um mundo diferente, a sensação que tinha era que o corpo da grande cobra amarela era o céu à noite, com inúmeras estrelas e num canto, lá longe, Ekate conseguia ver o sol, mas era impossível chegar lá e no outro extremo do que Ele imaginava ser o corpo da grande cobra amarela, havia um ponto muito claro, quase que branco, pensou ser a lua.

Ekate ainda escutava sua voz sair da boca, não mais sabia o que falava. Sabia sim o que falava, mas não tinha controle nenhum sobre as palavras, enquanto falava, andava pelo interior da grande cobra amarela procurando conhecer, quem sabe, seu novo mundo.  O lugar era imenso, não muito diferente do seu mundo, muitas coisas eram parecidas com o mundo da Aldeia, mas havia lugares diferentes e novos que Ele tentou memorizar. Quando deu por si, a sua voz ficou calma e sentiu uma grande pressão e foi jogado para o alto. Quando conseguiu abrir seus olhos viu novamente as pessoas da Aldeia na beira do rio. Não teve tempo para nada, a enorme pedra afundou no Rio Ti e ele apenas pulou na água e andou para beira do rio, onde as pessoas estavam paradas. Aturu, seu irmão, tomou a frente e caminhou em sua direção, Ekate apenas falou: quero dormir.

Seu sono durou o dia inteiro, a aldeia continuou seu cotidiano, o silencio agora não era absoluto, os gritos das crianças, as risadas dos adultos ganhavam corpo naquele espaço cheio de árvores.

Naquele mesmo dia, quando à noite chegou, Ekate acordou, o chão onde dormira ainda estava quente, escutou algumas vozes próximas e então resolver levantar. Por algum motivo que não sabia bem porque não dormiu dentro da cabana, mas na entrada. Sua cabana cabia bem quatro pessoas, mas ele não conseguiu entrar, dormiu na entrada.

A Aldeia era formada por diversas cabanas, situadas sem um plano definido. Iguru, num sonho que teve quando chegaram naquela região, disse para o povo que as cabanas deveriam ficar próximas, mas sempre perto das arvores, que neste lugar especifico possuía arvores juntas, três ou quatro na maioria das vezes. E assim as cabanas ficaram. Somente algumas cabanas não obedeciam este padrão, eram as cabanas dos jovens que ficavam um pouco mais afastadas e formavam um conjunto de três nos diversos cantos da Aldeia. Essas cabanas serviam de defesa  em caso de alguns imprevistos. A Aldeia possuía vários espaços livres, espaços estes que serviam para as atividades comuns e dois espaços menores que eram utilizados para fins específicos. Um espaço para a reunião dos ‘mais velhos’ e os adultos e um espaço para as mulheres. A organização do cotidiano deste grupo era tarefa para as mulheres, e elas eram obedientes a uma mulher mais velha, que segundos muitos já tinha visto duas gerações de seu povo. Por um motivo não bem explicado as mulheres viviam menos tempo que os homens. Era comum às mulheres morrerem em trabalho de parto, e a média de cada mulher era ter três filhos. O mistério da gravidez e seu processo natural de desenvolvimento eram cercados de vários cuidados. O pai da criança era, segundo as tradições, obrigado a raspar a cabeça, assim como a futura mãe.

Os cabelos de ambos eram queimados num ritual chamado Gunture, que se caracterizava pela dança do casal num lugar afastado da aldeia. Esta dança dependendo da origem dos pais era feita de manhã ou de noite. A Aldeia possuía num tempo remoto três origens, a origem aquática, a origem aérea e a origem animal.

Diziam os ‘mais antigos’ que a origem do grupo estava associada ao Homem Itírui, que era descendente direto de Ecuran, o pai de todos os homens. Porém num mesmo passado remoto, devido os sacrifícios e a morte de quase todos os homens numa longa jornada em busca de terras melhores, começou existir uma desavença entre os homens. Eles não achavam correto o povo sofrer o que estava sofrendo devidos fatores que acontecia muito longe de onde viviam. Esses fatores eram os causadores da longa jornada em busca de novas terras. E então começaram a procurar manter contatos com os pássaros e aves gigantes que apareciam no céu. Estas aves gigantes não tinham cores, apenas uma tonalidade cinzenta. Suas penas eram verdadeiras armas, muitas vezes elas apareciam do nada e mergulhavam em direção das pessoas e suas penas cortavam quem não conseguia se proteger a tempo. Elas não comiam os humanos, pois diziam que os humanos eram carne ruim e que eram os causadores de todos os males que reinava na Terra. Mas elas também serviam de guias aos homens, indicando os caminhos mais certos e menos perigosos. Estas aves gigantes eram descendentes de Atriram e depois de inúmeros sofrimentos, os homens que sobreviveram e eram bem poucos, tentaram conversar com Aviran.

Aviram era muito ocupado e mandou um filho seu ver o que aqueles humanos peludos queriam. O filho de Aviran era chamado de Aviranti pelo seu povo.  Os  homens peludos tentaram explicar a situação deles para Aviranti. Mas havia uma confusão muito grande entre os homens que não conseguiam se fazerem entender para Aviranti. O filho de Aviran era muito grande, lembrava seu pai, só que com uma cor diferente, mais escura e Aviranti começou a ficar nervoso vendo aqueles humanos que não conseguiam ficar em pé direito e nem sabiam falar, então deu um grito.

Um grito tão forte que as montanhas caíram e muitos humanos ficaram surdos. E os humanos que sobreviveram a este acontecimento fugiram correndo sem saber bem o rumo que tomavam.

Correram por muito tempo, quando pararam, contaram quem estava junto, era poucas pessoas. Porem eles estavam num lugar mais alto, lá em baixo dava para ver os humanos mais atrasados correndo, entretanto, o grito de Aviranti ainda continuava, nas montanhas que tinham neve  também começaram a quebrar e a neve virou água. Desceu as montanhas com uma velocidade muito rápida e os humanos que não conseguiram chegar onde estava o restante do grupo ficaram separados ou morreram. E assim os sobreviventes se reuniram e discutiram novamente, resolvendo seguir o rumo onde o sol caía.

 

Quando um casal possuía um filho, era realizado este ritual, Ogunture. A mãe da mulher cortava o cabelo do pai da criança e a mãe do pai da criança cortava o cabelo da futura mãe. Os pais do jovem casal acendiam uma fogueira e queimavam os cabelos reunidos. Na fumaça dos cabelos dançava o casal até o fim da queima. Se os pais da futura criança conseguissem dançar e aspirar à fumaça a criança nasceria perfeita, porém se alguém passasse mal, algo aconteceria.

 

 

Apenas os descendentes dos que tentaram manter contato com Aviran faziam este ritual de Manhã, pois eles volta e meia ficavam surdos por um tempo e assim faziam o  Ogunture para  que Aviram pedisse para Aviranti que não mais gritasse.

Durante o período de gravidez a mulher não era obrigada a fazer nada, ela poderia fazer tudo que lhe viesse à cabeça. Os pais e o futuro pai deviam fazer tudo e mais um pouco. Porém a mulher grávida não tinha motivo para ficar parada, era comum ela participar de todas as atividades. Nessa fase da vida era comum a grávida subir em árvores e ficar muito tempo lá encima, segundo o costume da Aldeia era a confirmação de que a criança seria descendente de Atriran. Se a mulher grávida procurasse as águas do Rio Ti então ela ganharia um descendente de Itírui. Se durante a estadia da mulher nas águas do rio, o rio ficasse agitado o filho seria descendente de Ecuran, o pai de todos os homens. E se a mulher grávida ficasse muito tempo dentro da cabana era à confirmação que o filho era descendente de Aviran.

O nascimento da criança era cercado de muitas expectativas e cuidados. Mesmo que os humanos comessem nesta época muitas raízes e flores, durante a gravidez, na mudança da lua, era necessário à mulher grávida comer carne e quase sempre esta carne era de um animal caçado longe da aldeia, assim, diziam os mais velhos, a mulher não saberia o tipo de carne que comia. Somente nas quatros ultimas luas, a mulher grávida comia peixe. E os peixes eram a comida que as grávidas mais gostavam. Elas diziam que a criança que estava dentro de suas barrigas pedia peixes e mais peixes.

Nos primeiros tempos a mulher grávida ia sozinha para a floresta, mas como muitas não voltavam mais alguém achou melhor a mulher grávida ir com a sua mãe e a mãe do pai da criança junto para ajudar. O nascimento da criança era uma festa, se a criança fosse mulher a mãe da mulher grávida vinha correndo, com a criança no colo, anunciar para a aldeia e se fosse um homem era a mãe do pai que fazia a anunciação.

A criança recém-nascida não fugia a  rotina das mães, logo passado uma lua a criança acompanhava a mãe nas tarefas básicas. Uma cerimônia era realizada após quatro luas do nascimento da criança. Esta cerimônia esteve quase para desaparecer numa determinada época, a época da grande jornada. Esta cerimônia marcava o reencontro da mulher mãe com as suas necessidades próprias e o reencontro da aldeia com a própria mãe.

A gravidez impunha determinadas limitações às mulheres e o próprio desconforto inerente da situação e nas ultimas luas a mulher não comia determinadas raízes por motivos que colocaria em risco sua própria vida. Não poderia manter relação sexual nas ultimas luas devido à suposição que a Terra poderia também penetrar na mulher e matar a criança.

As mulheres mais antigas, quando havia mulheres mais antigas, contavam que no período de gravidez a Terra ficava com ciúmes da grávida, pois em pouco tempo mais, Ela teria mais um para sujar seus espaços. Para a Terra os humanos eram os piores seres vivos, eles não respeitavam nada, não cuidavam de nada, apenas procuravam tirar proveito de tudo. Eram diferentes dos animais e das plantas e também das águas. Os animais sabiam o que comer e quanto comer; as árvores ficavam quase sempre nos mesmos lugares, as aves viviam muito mais tempo voando e as águas corriam quase sempre nos mesmos lugares. Os Homens não, além de não conseguirem andar em pé, suas caçadas eram uma sujeira muito grande e as brigas entre eles mesmos assustava a Terra. E Ela sabia que eles tornar-se-iam os donos da Terra e, portanto, precisava evitar que a procriação aumentasse, e para isto quando havia relação sexual entre os casais e a mulher estava grávida, Ela tentava de toda a maneira penetrar junto do homem na vagina da mulher. A Terra tinha pequenos grãos de areia que quando consiga penetrar na vagina da grávida, cortava o seu interior e provocava hemorragias e a mulher apavorada saía gritando, correndo, o que aumentava ainda mais o fluxo do sangue e onde sangue escorria a terra ficava com um cheiro muito ruim, obrigando os homens a tentar cavar esses locais para mudar a terra para terminar o cheiro ruim. Onde cavavam apareciam pequenos animais mortos, secos o que aumentava ainda mais o medo da mulher grávida.

Quando ocorria que a hemorragia não matasse a mulher grávida, o restante da gravidez era um risco muito grande, pois a mulher sentia alguma coisa tentando furar o seu interior. E muitas vezes os próprios cuidados tomados ocasionava a tragédia. Mas uma vez, não muito antigamente, num encontro com outro grupo de uma aldeia distante este assunto veio à baila nas conversas reservadas que acontecem entre as mulheres mais velhas. Descobriu-se que uma mulher do grupo que ficou separado do restante e que subiu a montanha tinha conseguido manter contato com a Terra e depois de vários esforços tinha conseguido um acordo com Ela para que as mulheres grávidas não sofressem durante a etapa final da gravidez. Este acordo marcou uma nova época na relação do grupo da aldeia distante com a Terra, mas nem todos os grupos humanos sabiam como fazer.

Nesta época, os grupos humanos eram poucos, não havia um conhecimento da existência de muitos humanos. Havia suposições que em lugares distantes existiam grupos diferentes, grupos que conseguiram andar em pé, fato que causava certo espanto entre quem ouvia tais informações. Durante a grande jornada que aconteceu segundo alguns homens mais velhos que não mais existiam há várias gerações e que no decurso da grande jornada alguns diziam também que esse acontecimento ocorreu quando não havia estrelas no céu à noite. Era comum os grupos andarem durante muitas luas sem encontrar ninguém, apenas algumas árvores que já mostravam suas folhas queimadas pelo calor. As águas quando encontradas serviam de ponto de referencia, alguns homens acompanhados de algumas mulheres seguiam adiante à procura de condições melhores. Nessa época, o homem e a mulher andavam sempre juntos, pois eles sabiam que não haveria possibilidade de separarem, muitas vezes quando isso acontecia era porque eles não mais sabiam como voltar.

Muitos grupos se extraviaram pelos caminhos cada vez mais secos e quentes. O sol não queria testemunhas de sua ação. Numa destas vezes que um grupo se perdeu, o grupo andou tanto em direção ao cair do sol que subiram uma pequena montanha que nunca terminava e durante uma noite o vento mudou de direção e trouxe um cheiro forte, diferente que acordou os cinco humanos. Quando havia a separação de um grupo menor do grupo maior, o primeiro não acendia o fogo durante a noite, pois ele sabia que a fogueira podia ser útil, mas podia trazer situações desagradáveis.

Como que acordados no susto, os cinco humanos levantaram do chão e começaram a andar no escuro em direção ao cheiro. A noite era muito escura, não havia como não fazer barulho e então resolveram esperar o dia aparecer. Deitaram novamente e dormiram. Não se sabe se o cheiro fez com que os humanos dormissem profundamente, ou se fora o cansaço, mas o que aconteceu que eles acordaram com o sol já alto e sem mais o cheiro. Procuraram o dia inteiro o cheiro, mas não encontraram nada e a quando a noite começava a cair sentiram-se observados por muitos olhos.

 

 

 

 

A primeira providencia foi encontrar árvores que pudessem abrigar os cinco humanos e ao mesmo tempo conseguir material para fazer fogo para tentar manter aqueles olhos longes. Achar as árvores não foi difícil, elas estavam mais à frente e logo os humanos se dividiram nas árvores. Mas antes fizeram duas grandes fogueiras para poderem se situar em relação daqueles olhos. Os humanos não conseguiam entender que olhos eram aqueles, ora estavam no chão, ora estavam na altura de seus peitos, eram muitos. Cada humano subiu em uma árvore e esperou a noite ficar mais escura, mas a fogueira mantinha uma claridade suficiente para os humanos. Um par daqueles olhos se aproximou correndo em direção aos humanos, quando ele passou pela fogueira dez olhos ficaram maiores, como resultado de um espanto combinado com o maior grau de medo. Naqueles dois olhos estava junto um animal do tamanho de dois humanos deitados, só que ele possuía dentes enormes que assustavam qualquer um. Sua cor misturada com a luz da fogueira criou um espetáculo mortal. Os humanos tentaram num movimento de puro reflexo recolher suas pernas, mas o animal era muito ágil e pulou na árvore agarrando com suas garras a cintura peluda do humano. O grito que ecoou na noite foi muito agudo, todos os outros humanos viram seu amigo cair com um animal maior por cima, assim como viram o machado bater com força na cabeça do animal, mas a força não foi suficiente e as duas patas dianteiras gravaram no peito do humano, que agora não mais reagia.  O rugido do animal rasgando a carne inerte do humano foi motivo suficiente para os outros animais aparecerem. Eram em numero de três e nesta aproximação os humanos subiram mais ainda nas suas árvores. Os animais restantes não se aproximaram do primeiro, procuraram cada um escolher as árvores e descobrir como saciar a fome.

Os humanos em cada árvore descobriram que somente um fato inusitado poderia mudar aquela tragédia, ver o amigo mostrar os ossos da coluna e ter sua cabeça arrancada como se fosse uma flor de um galho qualquer, foram motivos suficientes para dois humanos pularem em cima de um desses animais e começarem a bater com seus machados na enorme cabeça do animal. E tudo aconteceu num instante, o animal sentiu os golpes e caiu bem próximo da fogueira o suficiente para um dos humanos pegar duas tochas de fogo e começar queimar a cabeça do animal e os outros dois homens também pularam das árvores e continuaram abater no animal caído. Foi um erro, pois os outros animais lançaram se em direção aos humanos.

A luta desigual durou pouco, logo ficaram estirados cinco esqueletos de humanos, três deles com suas cabeças arrancadas, alguns braços soltos, separados no chão e um animal morto queimando lentamente sua cabeça.

 

 

Ekate sabia que tinha muito para falar e tinha muito também para não explicar o que vira nestes sonhos que tivera ao pé da Arvore Azi. A aldeia tinha mudado ou as pessoas estavam a par que algo ia acontecer. Caminhando para o centro da aldeia encontrou alguns homens andando para o espaço dos homens mais velhos e foi junto com eles.

Iguru estava sentado no chão com dois homens mais idosos, um pouco afastado estava o restante dos homens que possuíam filhos e também estava lá no chão Aturu. O Homem mais idoso, Egutu segurava um pedaço de madeira roliça com vários entalhes no seu redor, e jogou o Panture no chão e rodou o artefato.

 

 

 

O Panture era um artefato feito de uma árvore que não mais era fácil de ser encontrada. Ele tinha um caráter mágico de indicar orientações que somente os mais velhos conseguiam entender. O Panture tinha alguns artefatos em seu corpo, estes entalhes feitos com um machado feito especialmente para estes entalhes. Este machado era de tamanho menor, e com uma resistência muito pequena e depois de ser usado para produzir um entalhe era enterrado bem fundo para que ninguém o encontrasse. Os mais antigos sempre os mais antigos, diziam que este machado era feito de uma pedra difícil de ser encontrada, era uma pedra com inúmeros furinhos e quando usado era comum quebrar. Quando o machado pequeno quebrava era sinal de que muitas coisas iriam acontecer. E geralmente o homem mais idoso que usava o machado que quebrava tinha que abandonar o grupo, pois simbolizava que seus sonhos não foram bem compreendidos. O machado era chamado Mulu.

 

O Panture estava rodando quando Ekate chegou e sentou próximo a Iguru. O Panture ficou girando, girando e apontou para Aturu.

Aturu era considerado um humano especial, pois tinha a capacidade de escutar muito bem. Quando Aturu nasceu, sua mãe, não sabia explicar o porquê, colocou durante duas luas uma folha em cada ouvido durante a noite e dois pedaços de pele de animal nos ouvidos durante duas luas também durante a noite. No dia que parou com esta rotina era o dia da cerimônia chamada Turutabi, que era a festa de retorno da mulher mãe às atividades no grupo. A aldeia se preparava para a festa quando Aturu gritou como nenhum recém-nascido gritara antes, e apontou para um morro que situava se em frente onde o grupo estava acampado. Quem escutou os gritos de Aturu olhou para a direção que os braçinhos dele apontavam e viram vários outros humanos chegando.

Rapidamente os homens que estavam no local do acampamento foram ao encontro destes humanos que chegavam, e para o espanto deles conforme a distancia diminuía os outros humanos que chegavam desapareciam, mas ficou apenas um desses humanos. Ele era diferente, com uma cor diferente, seu pelo era mais claro, tendia a parecer com a cor da terra molhada. Ele levantou o braço direito e apontou para Aturu e falou algumas coisas que ninguém entendeu e desapareceu.

Aturu como num passe de mágica cresceu naquele dia muito, ninguém tinha visto isto antes. Cresceu a altura das pernas de um homem. Aturu escutava e ouvia coisas que ninguém conseguia ver ou escutar.

Aturu levantou e dirigiu para onde estava o Panture e segurando nas mãos, levantou-o em direção a boca e começou a falar: “tenho escutado muito barulho de dentro da Terra todas  as noites, escuto  barulhos que nunca ouvi e não sei o que é, e de manhã antes de ficar em pé escuto barulho de muita água batendo, muita água batendo. Não sei se esse barulho é a água do Rio Ti batendo nas pedras, ou se é uma água diferente. Hoje, quando o sol ainda não estava todo em pé, fui para o Rio Ti e vi a grande cobra amarela e fiquei acompanhando sua caminhada. Não sei como, mas tenho certeza que a cobra amarela Anati saiu de dentro da nossa aldeia. Foi quando vi Raz fazendo o mesmo, acompanhando a Anati, então fiquei mais distante. Acho que a Anati esta querendo dizer algumas coisas para nós, não sei o quê, mas Ela está dizendo algo.”

Os três homens idosos olharam para Aturu e Iguru levantou e disse: “A Anati está querendo dizer algo com certeza, mas não é só isso, eu vi a sua marca no chão da nossa aldeia. Isso representa que devemos sair deste lugar, em busca de outro lugar. Nosso destino sempre será esse. Não temos como fugir disso. É algo que nossos ancestrais sempre fizeram, nos teremos que fazer também, nosso grupo está bem acomodado aqui junto ao Rio Ti, mas talvez seja hora de recomeçar, não podemos mais ficar parado sempre aqui. Nosso grupo precisa achar novos grupos, precisamos encontrar nossos irmãos que ficaram separados. Isso faz muito tempo, assim como nos conseguimos sobreviver, eles também poderiam. Não haverá futuro para nós desta maneira. Talvez fosse melhor dividirmos e procurar novos grupos ou os nossos irmãos. Sabemos que até dez luas em qualquer direção não há ninguém, e sabemos que seguindo o Rio Ti por vinte luas teremos água e comida. Nós estamos aqui há muito pouco tempo, mas há alguma coisa que não está fazendo sentido para mim. Não sei se é a segurança do lugar ou se é a minha idade que quer que eu fique aqui, mas o nosso grupo não poderá ficar para sempre, temos que buscar nossos irmãos, senão iremos acabar de uma maneira que não saberemos, somos todos irmãos, somos todos iguais, somos”…

Nesse instante Ekate levantou e interrompendo Iguru falou: “Antes que você continue falando, preciso contar para vocês o que eu vi junto aos pés da Arvore Azi e devo dizer que não entendi muito bem. Mas antes de contar o que vi, devo dizer para vocês que esta na hora de pensarmos diferente, não podemos mais aceitar o que “os mais velhos” falam, há uma realidade diferente cada dia e nem temos mais respostas para essas coisas todas. Eu vi gente diferente que me atacaram e tiraram meu braço esquerdo e comeram, não vi sangue saindo do meu braço, vi apenas uma cor, a mesma cor que estava pintada no rosto daqueles que me atacaram. E eles eram fortes e mais altos que nós. Antes vi lugares que nunca vi, com árvores diferentes, frutas diferentes e vi um lugar enorme todo coberto por alguma coisa muito fria e meus pés ficaram rachados de tanto frio, eu corria, corria meus pés afundavam nesta coisa fria. Era um frio muito maior do que estamos acostumados. Quando eu corria e me encontrei com aqueles que me atacaram e comeram meu braço esquerdo, eu morri. Fiquei muito tempo no chão, e aqueles humanos não me atacaram mais quando eu estava no chão. Eles viram que saia do meu braço esquerdo a mesma coisa que eles tinham no rosto. Não sei o que acontecia comigo”.

“Eu conseguia entender algumas palavras que eles falaram, mas não tudo, apenas palavras. Um deles que tinha um dente pendurado no peito, chegou perto de mim e com o pé virou meu rosto para cima e disse uma coisa bem alta e tirou o dente pendurado do peito e se abaixou, fez um risco em redor do meu corpo caído com aquele dente, eu conseguia escutar e ver, mas não conseguia me mexer. Então um deles pegou o que sobrou do meu braço esquerdo e com um pedaço fino de pedra, parecia um pedacinho de um machado quebrado, tirou o que restava de dentro do meu braço, saia uma cor igual a da pintura deles no rosto, mas quando chegava ao chão era sangue e jogou o braço em cima de mim, então foram embora. Eu vi tudo, mas não conseguia fazer nada. Quando acordei fui ver onde estava, estava junto da Arvore Azi, Ela estava quieta, bati uma vez, bati de novo e então cai dentro do corpo dela e fui sair num lugar muito diferente, com uma água azul, muito azul e com um gosto diferente, muito diferente, não dava para beber. Quando vi aquela água toda não sei o que aconteceu comigo, saí correndo em sua direção e ela também veio na minha direção, só que ela ficou alta, maior que a minha altura e no nosso encontro, o impacto dela no meu corpo, eu consegui ver por um pequeno instante, um peixe preto muito grande, nunca vi aquilo e junto dele havia um monte de outras coisas com garras nos lugares dos braços, não poderiam ser peixes. Pareciam coisas redondas, mas eu recebi a água toda na minha cara e fiquei rolando pelo chão, a água muito gelada me levava. Quando a água sumiu, levantei a cabeça, vi uma cabana diferente da nossa, não vi humano nenhum, mas vi a Arvore Azi com muitos frutos, pequenos e grandes da mesma cor da pintura daqueles que me atacaram”.

“Quando fiquei olhando a Arvore Azi escutei vozes diferentes, novamente vozes diferentes. Eram diferentes, não tinham pêlos, eram menores, tinham algumas coisas pequenas penduradas em volta do pescoço. Pareciam pedrinhas e tinha algo amarrado, próximo aos pés. Em dois deles, que eram pintados de vermelho no peito, havia um circulo diferente na altura do coração e dava para ver dentro. Fui cercado por alguns deles, um deles avançou para mim e falou alguma coisa que eu achei que era parecido com “da onde você vem”, mas corri para a Árvore Azi”.

“Quando eu conversei com a Árvore Azi, ela me disse que Ela tinha uma Dona e se eu dormisse nos seus pés eu ia conhecê-la, pois Ela conhecia as pedras, as pedras amarelas que o Rio Ti quer. Só que eu não vi a dona da Arvore Azi e nos não sabemos que cor é o amarelo. Fiquei conversando com Ela: como poderemos levar as pedras amarelas pro Rio Ti se não sabemos que cor é essa”.

Ekate se abaixou rapidamente e pegou rapidamente o Panture e levantou até a sua cabeça e começou a girar, girar, girar muito rapidamente. Alguns homens que estavam próximos de Ekate foram atingidos pelo movimento rápido de Ekate e ficaram em pé. Ekate parou de girar e falou: “a cor amarela eu vi na Arvore Azi, é a cor dos que me atacaram e é a cor das frutas que tinha na Arvore Azi no ultimo sonho. O amarelo era a cor do inicio do dia, quando o sol está saindo. Esta é a cor amarela”.

Fez se um silêncio entre os homens mais idosos e os outros homens. Este silêncio foi quebrado pelo barulho das águas do Rio Ti que começaram a ficar agitadas como nunca a aldeia tinha visto. Os homens correram para o Rio Ti e viram as águas crescerem de tamanho, começando a transbordar, do meio do rio abriu se uma fenda, a beira do rio começou a ser tragada para dentro do rio. Os homens não sabiam o que fazer. Além do rio, do outro lado, lá longe uma montanha não muito alta explodiu, jogando suas rochas em todas as direções. A fumaça começou a se concentrar em cima daquilo que fora a montanha, formando uma nuvem clara com tonalidades vermelhas e cinza.

A noite ganhou um novo aspecto, lá longe, no local que havia a montanha parecia ser dia, aqui na aldeia, não. A noite era iluminada pelas fogueiras, algumas estavam sendo apagadas pelas águas do Rio Ti que rumava para a aldeia. Ninguém sabia o que fazer, e um novo estrondo aconteceu.   Parecia que o lado de lá do Rio Ti tinha afundado e ninguém sabia o que fazer.

Iguru num gesto não definido correu em direção ao Rio Ti, gritando palavras que o vento afastava e sumiu dentro das águas revoltas. Ninguém entendeu o que acontecia. Passado um pouco o tempo, tudo voltou ao normal, às águas do Rio Ti acalmaram e a fumaça da antiga montanha não era mais vista.

Aturu chamou todos os homens e as mulheres e disse: “precisamos saber o que aconteceu. Vamos nos organizar, fazer novas fogueiras e vamos ver o que aconteceu”. Rapidamente alguns homens fizeram novas fogueiras e as mulheres organizaram alguns pedaços de paus e fizeram tochas. Aturu falou que era muito importante tentar descobrir o que aconteceu antes do dia nascer. Iguru ainda podia estar vivo, mas Aturu sabia que não, mas não queria aceitar. Então, com as crianças sob os cuidados de algumas mulheres e de alguns outros homens, a maior parte da aldeia se espalhou e foram todos em direção ao Rio Ti. Enquanto andavam em direção ao rio que não ficava longe, muitos perceberam que a terra ficara muito mole e era perigosa, pois a havia a possibilidade de se afundar. Uma área da aldeia estava condenada, era muito difícil andar nela.

O outro lado por sua vez parecia que aumentava de altura, o chão não mais estava firme. A procura de alguma coisa na noite não adiantou nada, pois a área que afundava parecia que aumentava todo o instante e a outra parte parecia que ficava cheia de pedras também. Mas o Rio Ti não era mais o mesmo, mesmo no escuro, sua água não mais corria no mesmo sentido, parecia que ele mudará de rumo, sua trajetória não era mais a mesma, no outro lado não havia mais nada, ou o rio aumentara de largura e a luz fraca das tochas não permitia esta certeza ou então seria melhor esperar o dia aparecer para saber o que realmente acontecera, este era o raciocínio de Aturu. Antes dele falar, Raz falou: “Não estão em lugar nenhum Ituru e Ivutu”, que eram os outros mais idosos.

Uma nova preocupação surgiu. Aturu entendeu num piscar de olhos que na realidade da aldeia agora não havia mais “os mais idosos”, o Grupo teria que ter novas atitudes ou então continuar a Tradição. A Tradição estava abalada já há muito tempo, desde a Grande Jornada. Aturu desde muito cedo tinha um pressentimento que a vida do Grupo estava a não ter futuro. Descobrira isso ainda quando era criança, mesmo sabendo, mas não entendendo, seu crescimento repentino e sua capacidade de escutar e ver coisas que ninguém via ou então ninguém tinha coragem de dizer, sua intuição apontava para medidas que não iam de encontro com as idéias dos mais idosos e esses dilemas eram escondidos a muito custo. Agora, talvez fosse o momento de colocar em prática tudo aquilo que fazia parte da sua visão de vida. Porem Aturu sabia que uma coisa é pensar, outra era pensar individualmente e outra mais complexa, era pensar o Grupo. Como agir, numa noite cheia de diferentes fatos, como explicar para algumas dezenas de humanos que a Vida agora precisava mudar. O Grupo não poderia continuar o mesmo, não tinha mais os “mais idosos” e com isso, não teria mais suas tradições, suas repetições de comportamentos e mesmos os cuidados que os mais velhos costumavam executar ou falar. Agora, tudo poderia ser diferente, mas, mais sério que a própria realidade do Grupo, seria propor estas mudanças. Como as pessoas reagiriam e como elas aceitariam “novos líderes”?

Esses pensamentos de Aturu foram cortados por um grito de uma mulher. Algumas pessoas correram em direção ao grito e lá estava uma mulher, Otu, que mostrava um vulto no chão. Quando Aturu chegou ao local encontrou Ituru apoiado nas pernas de Otu.

Ituru chamou todos e quando viu que havia um número suficiente, começou a falar, disse: “Vocês agora terão uma nova vida pela frente, será muito mais difícil que a Grande Jornada que sabemos apenas vagas idéias, vocês terão que escolher novos líderes que irão cuidar das tradições ou então fazer novas tradições. Isto é muito, muito difícil e de qualquer forma precisa ser feito. O nosso Tempo, dos mais velhos, já esta acabando, não só neste grupo, mas em todos os grupos. Iguru sabia isso e falou para nós, para Ivutu e para mim. Nós não sabíamos quando começar esta mudança. Mas ela veio sem aviso, como tudo vem sem aviso. Mas antes de tudo vocês precisam escolher alguns para uma jornada que nos três tivemos conhecimento em sonhos. Primeiro foi com Ivutu, depois comigo e por fim, com Iguru. Haverá uma reunião daqui seis luas atrás das Montanhas Óluta, todos os grupos estarão lá, ou pelo mínimo este foi o sonho. Não sabemos o que será falado ou discutido, apenas vocês deverão estar lá. Não será preciso levar nada, apenas ir, escutar e resolver o que será melhor para o Grupo. Todos estes últimos acontecimentos vieram confirmar os nossos sonhos. Não precisam procurar Iguru e Ivutu, eles foram levados pelas águas do Rio Ti, eu fiquei para avisar vocês, já fiz isso. Agora, é a minha hora de ir para às águas do Rio Ti. Elas voltarão a ficar agitadas, elas querem meu corpo. Mas não esqueçam que agora será diferente, vocês terão que escolherem novos lideres e tentarem permanecer juntos…

E começando a levantar, completou baixinho

…. o que será muito difícil.

 

 

 

Ituru começou andar em direção as águas calmas do Rio Ti e conforme ia se aproximando às águas começaram a ficar agitadas. Ituru não olhou para a aldeia, muito menos para as pessoas, apenas levantou as mãos e fez um estranho movimento em cima de sua cabeça e correu para o seu desaparecimento, às águas agitadas do Rio Ti.

Ao mesmo tempo em que Ituru desapareceu, uma voz de criança falou: “vamos descansar todos, que amanhã a nossa vida mudará”

Todos escutaram a frase, mas ninguém sabia da onde vinha a voz e para espanto de todos, apareceu o garoto da frase de trás da arvore. Era Evule, o mesmo que acompanhou Ekate junto ao Rio Ti, quando Ele voltou do sonho nos pés da Arvore. Como que aquela frase fosse uma ordem, todos concordaram e foram dormir.

 

Pensar entender a evolução do Homem sem ter todos os elementos que possibilitem esta compreensão é uma tarefa muito difícil, além de ser quase impossível, muitas vezes pequenos detalhes passam despercebidos e mais adiante eles serão fundamentais para podermos ter uma visão mais completa. A mulher na história da evolução sempre foi à principal vítima, sempre colocada de lado, ela cumpria a própria evolução da vida. Não pelo seu papel de mantenedora da espécie, mas, fundamentalmente, por ser Ela a principal figurante da História. A Terra que em um determinado momento passou abrigar os humanos, é a Mulher principal e as mulheres são as herdeiras diretas da Terra.

Porém nesta época em poucos grupos a mulher tinha um papel de destaque e nos grupos que ela ocupava o papel de destaque esses grupos conseguiram avançar, adaptar-se melhor nas condições mais adversas possíveis, enquanto nos outros grupos a adaptação era mais sofrida, mais difícil e em muitos casos esta adaptação nem mais existiu, o grupo terminou sem deixar vestígios.

 

 

Quando aconteceu a reunião de todos os animais no Lago Etchuru por esquecimento ou por motivos outros as mulheres não foram convidadas. Elas foram consideradas semelhantes aos humanos. E até hoje o animal fêmea é muito atraída pelo homem, mas naquela época este detalhe não foi considerado. Porém, sempre há um porém, as fêmeas conseguiram fazer uma reunião, quase que às escondidas, e todas prometeram que manteriam contatos entre todas, independentes de serem animais e ou humanas.

Esses contatos foram mantidos por inúmeras gerações e sempre os contatos mudavam de forma ou de maneiras, afinal o Homem ou o Macho sempre foram fáceis de serem ludibriados. E nesta reunião, quase às escondidas, as fêmeas decidiram que iriam no decurso do Tempo criarem indivíduos que pudessem ser líderes, independente da espécie.  A fêmea seria a herdeira do Mundo, independente que o Mundo fosse esse e em que época isso aconteceria. Para isso teriam grandes aliadas que o macho ou o homem não sabiam e não saberiam, pois faltava neles à capacidade da abstração e até agora, nos humanos, todos os que ganharam destaque ou importância tiveram na figura da mãe ou da mulher a figura que incutiram ou desenvolveram a capacidade da abstração.

Tudo o que os “mais velhos” sabiam as mulheres já sabiam, pois eram informadas antes pelas grandes aliadas.

 

 

 

 

Durante a Grande Jornada a principal aliada da mulher foi a própria Terra. Ela transmitia através dos sonhos o que ia acontecer e como iria acontecer. E isso era retransmitido para as outras fêmeas. Porem estas transmissões foi sendo re-elaboradas e muitas vezes nem todas conseguiam saber. Quando aconteceu a reunião no Lago Etchuru e logo depois da grande explosão de  Aviran,  Atriran e  de  Ecuran  os animais  e  os   homens ficaram encantados com as estrelas e as partes brancas que ficaram paradas no céu à noite. Ninguém percebeu ou não comentou, mas apareceu também a Lua. E o que é a Lua? A Lua é a projeção dos avisos para todas as fêmeas e mulheres que a Terra reflete no espaço. Este era um segredo que somente a fêmea e ou a mulher sabem e muitas vezes a Lua mostrou sua importância para as fêmeas.

Mesmo que o Tempo é sempre igual, quente e as noites são mais quente que o próprio dia, é neste período que a Terra transmite para algumas fêmeas o que acontecerá.

E as mulheres sabiam que haveria esta reunião, além das Montanhas Óluta, muito antes dos “mais velhos” e elas sabiam também que eles tinham tido seu tempo esgotado, pois eles não obedeceram ao Rio Ti. O que elas não sabiam era que Evule tomaria à frente quando mandou todos dormirem.

 

E assim que se processa a historia da evolução, sempre há novos atores, muitas vezes da onde menos se espera. Mas a evolução não poderia ficar apenas na relação vivos e a natureza viva, mas fixa. Por mais que as fêmeas e as mulheres tentaram arrancar da Terra o motivo das plantas não poderem sair de lugar, a Terra mudava de assunto. Muitas vezes a Terra dava entender que a vida no claro, isto é, acima do solo era muito enfadonha e que as árvores viviam sim suas vidas escondidas no subsolo, por que lá em baixo havia coisas mais importantes e ninguém que vivia aqui em cima poderia compreender e também poder viver, por que na Terra lá em baixo não havia ar e que o ar era que terminava a vida de quem vivia aqui em cima.

 

As mulheres foram dormir, porém quatro delas ficaram andando mais devagar, andando bem devagar elas começaram a falar com a voz bem baixa, apenas o suficiente para serem entendidas.  Dotu começou a conversa dizendo que: “ amanhã  precisamos  tomar  nossas decisões já  que  tudo tenderá  a  ser novo, vamos tentar criar também nossas tradições,ou mesmo mudar nossos comportamentos”. Dulate explicou: “acho mais importante é irmos nesta reunião, lá encontraremos novos grupos e quem sabe novos conhecimentos”. Famu disse que o mais importante seria deixar claro que as mulheres também têm que participar de todas as reuniões e decisões do Grupo. Datotê apenas concordou com todas, mas avisou que era preciso saber quem irá falar ou propor-se como líder. E complementou: “Eles estavam em luta já algum Tempo, precisamos escutar o que Aturu, Ekate e mais quem falar vão dizer. Depois é que veremos como agir, só depois é que saberemos como agir. Para eu isto é o mais correto neste momento não sabemos nem como ficou a aldeia”.

Todas ficaram quietas e concordaram e cada uma foi para sua cabana. Pois todas pensavam no amanhã. Pois todas pensavam que amanhã seria um dia diferente.

Quando o dia amanheceu, muitos já estavam acordados, muitos estavam conversando dentro das suas cabanas e como que se todos tivessem combinados, saíram para ver o que acontecera na noite anterior. E para surpresa de todos Egutu estava em pé no centro da aldeia, apoiada na maior árvore, segurando o Panture.

 

 

 

 

Ninguém se lembrava de Egutu, mas Ele era importante, era quem cuidava do Panture. Antes da Grande Jornada quem cuidasse do Panture tinha liberdade para andar por onde quisesse, Ele não poderia ser atacado e muito menos proibido. Era uma pessoa especial e naquele dia e noite anterior Ele ficara sumido.

Ninguém se atreveu a perguntar nada, mesmo que sua presença ou ausência não fosse considerada, todos sabiam que a figura de Egutu apoiado na maior árvore da aldeia tinha um significado. Como se fosse um humano diferente, as pessoas caminhavam em sua direção sem saber bem por que. Apenas caminhavam porque assim a ocasião determinava.

Lá longe alguns pássaros cantavam suas musicas com um som não muito usual, algumas aves sobrevoavam o Rio Ti como que curiosas ou com interesses em descobrir o que acontecera na noite anterior. Egutu esperou as pessoas chegarem próximas e então começou a falar, “Tenho aqui em minhas mãos o Passado e o Futuro do Grupo, mas não tenho o Presente. Este é o castigo que existe em todos os Grupos de humanos. Vivemos preocupados com o Passado e curiosos com o Amanhã. Assim será por muito, muito tempo. Poucos sabem, mas o importante é o Presente, pois é Ele que fará o Amanha e este Grupo terá um Futuro muito difícil pela frente”. “As mulheres irão falar e falarão muito, não estarão erradas e os homens terão que aprender a escutar o que elas dizem, pois são elas que conseguiram povoar este local e qualquer outro local, seja com os homens daqui, seja com os homens de fora. Mas eu quero apenas dizer que o Panture não será importante agora para vocês, Ele será importante para o filho do filho que ficará responsável por Ele a partir de Hoje, e quem será o responsável por Ele será Evule. Evule será responsável pelo Panture, mas não será preciso cuidados maiores, o Panture sabe como se cuidar. Daqui um tempo quando Evule for adulto, lutará com um animal maior do que três cabanas juntas e Ele será guardado com a pele da cabeça deste animal. Vocês conhecerão esses animais, alguns de vocês. Era isso que eu tinha que dizer para vocês”.

Egutu chamou Evule para entregar o Panture, mas antes que Avule pegasse o artefato, Eguru esfregou o Panture no peito e desapareceu. Evule correu para que o Panture não caísse no chão.

As pessoas da aldeia não tiveram tempo para fazer nada, apenas Evule pegou o Panture e levantou para o céu e falou: Não posso cuidar de algo que não me pertence, de algo que não conheço, assim como não conheço as tradições do meu povo, não posso ficar responsável por algo que não sei se é bom ou ruim, mas que pelo que parece não tem mais serventia. Hoje é um novo dia, o dia que irá mudar nosso mundo, e isto é o mais importante, como disse Egutu, não vamos viver do Passado e muito menos do Futuro, vamos viver Hoje, o começo de uma nova etapa.

Ninguém pensou no que aquilo representava apenas escutou e ninguém se mexeu. Como a Vida mudara. Algo que ontem representava tudo, agora ninguém queria, ou melhor, quem deveria cuidar não aceitava. Assim era a Vida, sempre, sempre algo inesperado surgia.

Evule perguntou quem queria ficar com o Panture, o silencio foi  a resposta. Ninguém se mexeu, então Evule caminhou para a fogueira com a idéia de jogar as tradições no fogo, quando outra voz de criança falou: “Evule eu fico com o Panture”.

 

 

 

 

E uma menina caminhou firmemente em direção a Evule e pegou o artefato para si, segurando pela primeira vez, disse: “Agora a Tradição está entregue para nós, mulheres, e nunca mais será entregue ao homem”.

Se a Vida do Grupo nos últimos dias tinha sido difícil, agora então, naquele momento exato, tudo virará de cabeça para baixo. Ninguém conseguia raciocinar ou pensar, o mundo do Grupo não era mais dos adultos, era ou estava nas mãos de uma menina, pois um menino não aceitara. E assim começara o novo dia. Agulan era quem completou a primeira parte da manhã do dia que o Grupo começaria viver novos tempos.

 

 

Se passou pouco ou muito tempo ninguém sabia dizer, porém aquele torpor, aquele estado de letargia acabou quando dois homens correram rumo ao Rio Ti para ver o que acontecera.

O Rio Ti estava quieto, mas não havia mais o outro lado, não se via mais o lado de lá do Rio Ti, havia um vazio do outro lado e o barulho da água caindo aumentava a sensação do vazio. O espaço que era ocupado por algumas pedras que muitos usavam para pular no rio não mais existia, a água do Rio Ti mudara de direção e as pessoas que foram até a beira do rio viram também que algo acontecera. A Aldeia, ou melhor, o local onde ficava a aldeia tinha subido ou então a outra parte que era limpa afundara. O trecho que á noite parecia molhado e não era seguro andar, agora estava claro e todos viram, tinha tornado se um pântano, algumas pequenas árvores tinham afundadas, seus galhos estavam rente ao chão. A aldeia tinha subido, não era mais plano como o seu entorno mais próximo.

Em momentos como esses onde os acontecimentos ocorrem independente da vontade de quem quer que seja sempre trazem consigo um estado de torpor, não é fácil racionar e muito menos agir.  Porem, alguém ou alguns, independentemente de tudo, fazem qualquer coisa, se para o mínimo mudar algo ou não ficar parado, ninguém sabe bem conceituar, mas é feito.

Ekate aumentando um pouco a voz disse: “vamos ter que fazer algo, não podemos ficar aqui, teremos que procurar um lugar mais seguro, onde possamos nos preparar melhor. Aqui, nesta aldeia, as coisas estão sem controle” E parando um pouco, como que estivesse pensando um pouco mais ou quem sabe escondendo o medo ou o desanimo, continuou: “vamos andar em direção às águas do Rio Ti, elas mudaram de direção e nós não podemos ficar longe delas”.

Um breve silencio tomou conta do ambiente e as pessoas começaram a conversar entre si, como que avaliando as palavras de Ekate, Aturu, então falou: “Devemos pensar também que se sairmos todos não será a melhor escolha, teremos que nos dividir e procurar novos lugares, mas precisaremos marcar um Tempo para voltarmos aqui e resolvermos o que fazer”

Datotê falou: “Seguir à direção das águas do Rio Ti é uma medida certa, já que precisamos dela, mas também é possível seguirmos a antiga direção dela, lá longe sabemos o que encontraremos. Porém, nos separar também é bom, pois saberemos o que aconteceu em outros lugares. Mas penso também que devemos saber o que aconteceu com o outro lado do Rio Ti, só assim poderemos compreender o que está acontecendo e desta forma, tomar uma posição”.

Raz levantou a perna direita e coçou os dedos e falou: “O melhor é separarmos e marcar tempo não muito grande e retornar para cá e tomarmos as decisões e não a decisão. Turue falou que o mais importante agora era saber quem iria sair e quem ia ficar na aldeia, quem ficaria o que deveria fazer e quem sairia com quem saíria, afinal todos agora teriam que pensar, além disto, tudo que estava acontecendo, teriam que pensar também que haveria uma nova reunião lá atrás das Montanhas Óluta e ninguém sabia que reunião seria esta.

Novamente o silencio se faz presente, por pouco tempo é verdade. Dulate falou: “vamos escolher quem quer ficar aqui na Aldeia e quem quer sair. A reunião atrás das Montanhas Óluta será a seis luas, o que permitirá que a gente se prepare e ao mesmo tempo tenhamos como descobrir o que está acontecendo. Acho que cinco grupos podem ser formados, Um que vai para o outro lado do Rio Ti ver o que aconteceu, Outro segue a direção das águas e Outro segue a antiga direção. Um grupo continua na aldeia e o Outro segue esta direção e descobre o que aconteceu. A direção que Dulate apontou era à direção das Cabanas dos Jovens que não tinham participado de nenhum Tuclan. Agora temos que agir. Penso que duas luas será um tempo bom, o que vocês acham?”

Turue falou novamente, “duas luas será um bom tempo, mesmo que aconteça alguma coisa teremos como voltar, o importante será voltarmos para irmos à reunião que acontecera lá nas Montanhas Óluta. Iremos sair da Aldeia para as Montanhas Óluta daqui quatro luas, teremos tempo para descobrir o que está acontecendo e caso alguém não consiga voltar a tempo, sempre terá alguém aqui. Isto é importante não esquecermos, sempre terá alguém aqui.

Todos concordaram e então foram feitos os Grupos.

Dulate iria em direção ao antigo leito do Rio Ti, Turue tentaria descobrir o que aconteceu do outro lado do Rio. Datotê iria para a direção das Cabanas dos Jovens. Ekate falou que iria rumo à nova direção do Rio Ti e finalmente Aturu ficaria na Aldeia, pois disse que ali ficaria um numero maior de pessoas e Ele se sentia mais responsável. Agulan falou que iria também com Ekate.

Antigamente todos iriam para as águas do rio Ti, mas agora não, todos foram para pertos das arvores, e a Arvore escolhida foi a Buteturuazi, a árvore que sempre tinha frutos.

Como se todos soubessem o que deveria ser feito, cada um dos escolhidos chegou junto da Arvore Buteturuazi e encostou a cabeça no seu tronco e lá ficando tempos variados, depois foram para suas cabanas e pegaram o que dispunham.

Esse período do processo evolutivo da historia da humanidade é completamente ambíguo, seja pela ausência de informações precisas ou quem sabe coerentes e também por um simples fato, os achados são difíceis e muitas vezes, para não dizer, quase sempre, seus interessados não conseguem fugir a determinados modelos interpretativos, mas não é o nosso interesse aqui discutir estas questões.

Se existir na história da humanidade uma evidencia da consciência de grupo, esta evidencia não será resgatada através de situações concretas encontradas nos sítios arqueológicos, ela poderá ser evidenciada no seu aspecto total da própria experiência arqueológica. Ou seja, na interpretação holística de todos os seus componentes e mesmo assim, parece ser a triste sina contemporânea, a ausência completa do momento criador ou estimulador da ação do próprio pré-humano. Porque seria muita vaidade considerarmos na atual contemporaneidade a titularidade do titulo a nos.

 

 

Os Grupos foram formados intuitivamente, não houve preferência para este ou para aquele, cada indivíduo optou, sabe se lá por que motivo, em ficar no grupo que melhor desempenharia suas habilidades. Esta era a impressão mais razoável para podermos situar-nos neste momento. Não havia na consciência de cada um a plena certeza que Dulate, Ekate, Turue e Datotê eram os lideres, apenas eles foram que resolveram a falar primeiro.

 

Cada grupo tinha um número suficiente de indivíduos, mas em todos havia uma consciência que ali estava em jogo se não plenamente a própria vida em quanto individuo, mas aquilo que eles tinham apreendido a conviver. Isto é, o cotidiano, não os indivíduos, mas aquilo que os definiam como indivíduos. E era bem provável que eles só poderiam ser considerados indivíduos se houvessem alguém para servir de referência. E a referência agora seria a própria aventura que não era senso comum a ninguém em cada grupo e talvez, nem mesmo naqueles que falaram em primeiro lugar.

Como num gesto simbólico todos voltaram para o centro da Aldeia, se reuniram e despediram se todos. Os que iam e os que ficavam. Não havia mais a possibilidade de retornar ao amanhecer do dia. O Futuro era apenas um referencial quem sabe impossível, o Passado não poderia mais voltar, mas o Presente, este ameaçador, seria construído sabe lá como, mas seria.

 

 

Cada Grupo tomou o rumo combinado, assim como combinado estava que em duas luas, Eles voltariam.

Turue e seu Grupo acompanharam durante muito tempo o Grupo de Dulate, pois muito lá em cima era que o Rio Ti ficava pequeno e, antes do acontecido, lá era mais fácil de tentar passar para o outro lado. Mesmo subindo as pequenas elevações que margeavam o Rio Ti, no lado de lá não era possível ver nada, a sensação era que havia um abismo e não havia barulho nenhum da água do Rio caindo e isto intrigava ainda mais os dois Grupos. Depois de duas noites de viagem, Turue conseguiu ver o lugar em que o Rio Ti era mais estreito. Era mais estreito, os grandes blocos de pedras ainda estavam lá, mas a força da água aumentara e muito.

Turue e seu Grupo formado por oito pessoas, seis homens e duas mulheres, separaram do Grupo de Dulate que seguia em frente, tendo o Rio Ti sempre a sua direita.

Turue e seu Grupo entraram nas águas do Rio Ti que não mudou apenas a correnteza era forte. As grandes pedras, que na verdade eram cinco blocos que cobriam a extensão do Rio estavam muito lisas, alem de serem altos, não havia a possibilidade de escalar estes blocos. Até o meio do Rio foi possível andar com a água na cintura, porem num determinado ponto, o rio parecia não ter mais fundo, parecia que o chão também afundará. Havia no Grupo Kuru que era um excelente nadador, um dos poucos que conseguia nadar, ou seja, alem do equilíbrio na água conseguia movimentar os braços e as pernas de maneira que esta atividade não levava para o fundo das águas.

Kuru propôs mergulhar para poder ver como era o interior do Rio Ti e ver se haveria possibilidades deles chegarem ao ultimo bloco de pedra que ficava na antiga margem do lado de lá. O mesmo bloco ainda estava lá, isto significava que naquele trecho da margem do outro lado haveria de ter um sustentáculo para o bloco de pedra. A distancia não era muito grande, talvez a mesma da Aldeia até o Rio Ti. Kuru amarrou seu machado na cintura e começou a nadar, para mais adiante mergulhar nas águas do Rio Ti. Kuru mergulhou e sentiu que a correnteza nesse trecho do rio era muito mais forte, parecia que havia uma força maior neste ponto e por mais que tentasse ultrapassar sentiu neste ponto, por mais que tentasse ultrapassar, sentiu que era impotente para vencer e a correnteza levou-o. Kuru conseguiu subir a superfície e quando saiu da água estava com a boca aberta, o oxigênio precisava ser reposto. Após alguns segundos olhou em volta e não viu mais ninguém, não havia mais os imensos blocos de pedra e nem mesmo a margem do Rio Ti. Parecia que estava num lugar que não havia mais terra, somente água. Tentou achar o chão e achou, só que sua altura não era suficiente para ficar em pé. Tentou ver se a água tinha um rumo qualquer, mas, nada. A água parecia estar parada. Ficou de costa para o sol que ainda estava no alto e fechou um pouco as pálpebras para enxergar mais longe e viu uma quantidade enorme de arvores enterradas na água, não pensou mais, iria para lá, mesmo que fosse longe, quem sabe encontraria uma situação melhor. E Kuru nadou em direção as árvores que agora estavam enterradas no meio da água.

Quando Kuru mergulhou Turue sentiu que Ele ficaria separado do Grupo por muito tempo. Turue e seu Grupo viu que Kuru não voltou mais para a superfície. Turue voltou para a margem do Rio Ti e tentou subir no primeiro bloco e não conseguiu, foi quando Fekuli, uma das mulheres, falou: “se nos cortássemos uma árvore e trouxéssemos para cá, poderíamos subir na pedra pela árvore”.   Não foi difícil achar uma árvore para esta experiência, difícil foi cortar, os machados batiam no tronco e pareciam que voltavam sem resultados. Mas quando o sol estava quase no alto a árvore caiu. Todos começaram a arrastá-la para próximo do Rio Ti e colocaram-na junto da pedra. Esse esforço criou fome no Grupo. E saíram à procura de comida.

 

 

Kuru nadou, nadou e sentiu que o sol estava subindo e as árvores, às vezes, pareciam que estavam próximas, mas, também, pareciam que estavam longe. Kuru começou sentir que sua cabeça estava ficando estranha, as coisas começavam a rodar, rodar e seu corpo começou a ficar com frio, muito frio, além de seus braços ficarem pesados, seu estomago começou a fazer muito barulho. E isso assustou Kuru que sentiu que suas forças estavam chegando ao fim. Num gesto supremo abriu a boca e aquilo que estava revoltando seu estomago saiu. Para susto de Kuru, saiu à cabeça inteira de um peixe que havia comido antes de ir dormir. Quando a cabeça do peixe caiu na água, ela começou a nadar novamente e quando ficou inteira com o restante do corpo, a cabeça do peixe virou para Kuru e disse: “agora você será meu, você ira ver como é bom ficar preso dentro da barriga de alguém”.

Kuru já tinha ouvido “os mais velhos” falarem que os animais conversavam com os humanos, mas isto tinha sido a muito tempo, no inicio, antes da Grande Jornada, e, agora, estava ouvindo um peixe falar com ele.

Enquanto o peixe falava com Kuru aumentava de tamanho então Kuru pegou o machado e quebrou a cabeça do peixe, não sabendo por que quebrou os dentes também e entrou nele. O tamanho do   peixe era um pouco pequeno, mas Kuru ficou   com as pernas encolhidas e quando

ficava cansava desta posição, esticava as pernas e andava grandes distancias nas águas. E assim Kuru ficou dentro do peixe, mas Ele sentiu também que seu corpo parecia que tinha ficado muito unido com o corpo do peixe. Mas no momento esta era a sua situação.

 

 

O restante do Grupo comeu algumas raízes e flores. As flores eram brancas com pontos vermelhos, era de uma árvore bastante comum, era encontrada em quase todos os lugares. Os “mais velhos” chamavam de Futuou, por que diziam eles que esta árvore foi à primeira casa dos ancestrais. Não era muito alta, mas seus galhos eram espaçosos e grossos, completamente diferentes do tronco, que normalmente era a metade de seus galhos. “Os mais idosos” também contavam que muito antes da Grande Jornada, Atriran voou muito, ficou cansado e quando passou por uma área cheia de nuvens começou a chover forte, muito forte e a sua visão ficou difícil, então resolveu descer. Achou uma

 

 

floresta com árvores muito altas, continuou voando por cima das árvores altas, sentiu suas asas pesadas, foi quando começou olhar para baixo e viu a Futuou, foi nela pousar.

Lá ficou muito tempo e descobriu que nela a chuva não batia muito, começou a ficar com suas asas secas, mas o galho que estava balançava muito devido seu peso enorme. Como Atriram estava muito cansado, resolveu dormir um pouco. Com um pouco de receio que caísse da árvore, ele pegou duas penas da suas asas, uma de cada asa, e espetou no galho. Quando espetou suas penas na árvore, ela gritou de dor e saiu um liquido vermelho da arvore. Atriran pediu desculpa para Futuou e prometeu que iria dormir só um pouco e que daria um presente para consolar a árvore da sua dor. Ele então tirou um olho da sua vista e deu para a árvore, falando que nas próximas vezes ele iria ver melhor cada árvore.

Futuou ficou feliz com o presente e falou: “Você, Atriran, pode dormir, eu vou deixar você dormir e vou cuidar para que nada aconteça com você”.

Atriram dormiu um sono muito leve, quando acordou, na árvore toda havia muitas flores. Atriran ficou impressionado como estas flores cresceram rápidas. Ele resolveu perguntar para a Árvore Futuou como as flores cresceram rápidas. A Árvore falou que aquelas flores eram as flores da amizade. Por que foram feitas da dor dela e do olho de Atriran. Só então que Ele percebeu que ainda estava com os dois olhos. Futuou disse que Ele, como prova de amizade, deveria levar todas as flores e enquanto voava espalhasse pelos caminhos que passava.

Atriran pegou todas as flores. Colocando nas duas grandes asas, juntinhas das penas e levantou voou. E espalhou por onde passou. É por isso que em todos os lugares têm essa árvore.

Mas como a árvore que o Grupo derrubou não resolvia o problema, Turu falou que eles deveriam tentar levantar novamente a árvore e colocá-la junto da pedra. E assim fizeram e conseguiram subir na pedra e atravessaram o Rio Ti.

Lá do outro lado viram que havia uma queda muito grande e às vezes as águas do Rio Ti caiam numa queda que não dava para saber onde ia parar.

Turue e o Grupo ficaram falando como iriam saber o que aconteceu com o outro lado do Rio Ti, se agora só havia um precipício. Mas a água não caia toda, era só em trechos. Fekuli propôs que fossem andando na beirada e ver o que poderiam fazer, seguiram para a direção contrária do leito do rio.  Turu falou que o grupo de Dulati estava fazendo o mesmo só do outro lado do rio e que isso seria perda de tempo. Raz, que tinha caminhado mais na frente um pouco, gritou: “Venham ver, há uma descida ali na frente” E todos foram lá, ver a descida. A descida era muito grande, mas eles resolveram seguir em frente e começaram a descer.

Conforme iam descendo a terra ficava mais gelada. Havia trechos que vinha uma brisa úmida que era o vendo que passava por uma queda da água. O chão era formado por pequenas pedras e nem todas estavam firmes, havia trechos pequenos que o chão era muito liso, mas com Raz na frente, eles continuavam descendo. Nesta descida eles não perceberam que não havia nenhuma árvore por menor que fosse e logo chegaria a noite.

E também não perceberam que não havia como deitar no chão para dormir. Num determinado ponto da descida Erutiran falou: “olhem, parece que há um caminho ali.”

Todos olharam na direção apontada e viram uma descida marcada e que parecia ser segura. Levaram um tempo para chegar naquela descida, pois tiveram que mudar o caminho em que estavam. Eles andaram na direção que lá em cima deveria estar correndo as águas do Rio Ti. Nesta direção do caminho, na parede parecia que havia buraquinhos onde dava para colocar as mãos para firmar o corpo. Em muitos destes buraquinhos havia um calor, mas o grupo não deu valor para isto. Finalmente chegaram no caminho que Erutiran descobrira. E realmente era um caminho que descia, ele parecia que acabava ali, não subia mais nada. O grupo parou para descansar um pouco. Fekuli tentou descobrir se o caminho subia, mas não havia caminho para cima.

Turue olhou para baixo, mas não via nada. Ali onde estavam dava para esticar um pouco as pernas, mas não era um lugar seguro para passar a noite. Não havia na encosta do morro nenhuma árvore. O grupo resolveu descer mais rapidamente, pois a noite não iria demorar muito para chegar. O caminho facilitou muito a descida, eles podiam descer agora não tão preocupados, o caminho era estreito, tinha algumas pedras que serviam de apoio. Desceram bastante, naquele momento Fekuli estava na frente, logo fez uma parada forçada e fez um sinal para o grupo que vinha atrás. Todos pararam. Fekuli fez um gesto e todos ficaram mais próximos e então ela falou: “há um barulho muito forte vindo lá da frente, não sei o que é”.

Andaram morro abaixo, às vezes o barulho ficava mais forte e às vezes não existia mais. O caminho não era reto, fazia curvas e em alguns pontos a parte inferior era muito perto, mas não era seguro tentar pular.

Erutiram que fechava a fila do grupo, olhando em volta acreditou ter visto alguns vultos andando também, só que bem longe, e então falou um pouco mais alto: “pessoal, tem alguém lá” e apontou para o seu lado direito. Todos pararam, olharam para Ele e depois olharam para a direção do braço. Ficaram olhando para a direção e depois de algum tempo também tiveram a sensação que havia algumas pessoas andando também um atrás do outro. Só que eles não subiam e nem desciam, era um movimento diferente.

 

 

 

Eles não sabiam o quê fazer, não havia como andar para aquela direção, mas também não poderiam deixar de saber o que era aquele movimento que não parecia normal. Turue falou: “vamos continuar descendo, logo vai escurecer e não podemos ficar como estamos aqui. A noite pode ser longa e nem podemos fazer fogueira e nem sabemos se acender fogo nesta situação nossa seria a melhor coisa a ser feita.”

Raz levantou a cabeça e disse: “eu acho que nos devemos nos separar, a noite vai chegar, mas podemos fazer o seguinte, uns continuam descendo e outros vão em direção aqueles vultos. Não temos como subir, só podemos descer e então indo naquela direção vamos descobrir o que é aquilo e depois descemos, vai chegar um momento que essa descida vai acabar. E vamos nos encontrar novamente.

Enquanto Raz falava a noite chegou muito mais rápida que o previsto, o céu ficou escuro de repente, com a noite veio também um barulho ensurdecedor, muitas aves começaram a voar. Todos do grupo viram muitas aves voando em direção a eles, eram pequenas aves, todas eram escuras, afinal não havia luz para saber se eram de outras cores. Somente pontinhos claros eram vistos, possivelmente seus olhos, passaram em vôos rápidos e o grupo se abaixou instintivamente.

O bater das asas e os sons que as aves faziam assustaram todos, mas elas ficaram pouco tempo voando sob as cabeças dos humanos e seguiram em frente. Tekuli cheirou suas mãos e disse: “esses bichos estavam naqueles buracos que nos apoiamos. O cheiro deles é igual ao da minha mão.”

Parece que todos concordaram, pois ninguém falou mais nada. Raz disse; “ não há condições de seguirmos em frente, vamos tentar dormir aqui mesmo”

E assim o grupo tentou dormir num lugar onde qualquer movimento poderia ser fatal, não havia mais nada a fazer, apenas esperar o dia voltar e a noite foi uma longa noite. Todos esperavam que o dia chegasse novamente, só que mais rápido.

 

 

Por mais que o ser humano possa pensar que a sua coragem levará resolver seus problemas, a escuridão é a prova cabal que há uma limitação muito grande na adaptação do homem em seu contexto ambiental. Se há certas acomodações no processo adaptativo, na falta de uma palavra mais abrangente, isto não invalida a existência de uma limitação prática na própria concepção deste processo.

Compreender o que acontecia no Grupo de Raz que saíra da aldeia com intenção descobrir ou quem sabe, poder interpretar os últimos acontecimentos que o grupo estava vivendo, não pode ser compreendido pelas interpretações elementares e rasteiras da sobrevivência do grupo enquanto conceito antropológico. Pensarmos que a vida em comum que o Grupo desenvolvia na beira do Rio Ti estimulava este conceito era estar enganado no tocante a eficácia. A Vida até então girava em torno das vivências, experiências e lendas que “os mais velhos” ofereciam como respostas para o que estava acontecendo, mas o grande diferencial que existia para contrapor a estas explicações que o passado tentava justificar era que não havia nada que justificasse plenamente o cotidiano, ou seja, o conceito antropológico era vago não somente pela sua dinâmica, mas, primordialmente, pela simbiose que o entorno, seja o paisagístico e suas nuances vegetais e animais, seja pela própria dinâmica interna do grupo, isto é, a eliminação dos mais antigos e o que eles representavam. E isto era talvez inconscientemente o que se passava na cabeça de todos os personagens que tentavam jogar fora de seus corpos o esforço efetuado durante o tempo que estavam afastados da aldeia.

Ali, estirados na encosta de um morro que eles não conheciam, que até pouquíssimo tempo não fazia parte do seu cotidiano, estimulava e ao mesmo tempo, como que dialeticamente, impedia que cada um chegasse a alguma conclusão.

Não era o ‘espírito de Grupo’ que impedia de dormir, era algo que transcendia, que pesava nas cabeças destes personagens e que não tinha correspondência até então. Não era também o medo, pois o medo só se torna realidade quando você tem sua origem em frente e se pode ver, observar e enfrentar. Era sim a vaga idéia da ínfima importância de ser, de existir que impedia realmente estes oito personagens   de   dormir. A certeza ainda que não consciente que eles estavam desenvolvendo uma epopéia, uma tragédia, plasmou em suas mentes algo que não se definia como concreto, mas como uma sensação, uma tênue excitação que afastava qualquer possibilidade de descanso.

Agora sim a noite seria longa, pois se na Aldeia quando chegava à noite havia ainda uma atividade, neste exato momento não, a única alternativa era dormir. Esta foi uma das muitas idéias que passava bela e fogosamente nas cabeças destes primeiros primatas que vieram fornecer, ainda que sujeito a descoberta, os humanos.

Sabiam muitas coisas, mas desconheciam muito mais e ficar ali parados, estirados como um capricho e ser a companheira fiel daquela noite. E companheira fiel para quem há pouco tempo largou tudo não era uma escolha coerente.

Lá longe, quem sabe, trazido pelo vento, vinha um barulho estranho e este sim era o que o local oferecia. Mas o tempo, ou melhor, a noite passou.

 

 

Aturu viu os grupos saírem cada um no seu rumo e ficou pensando, seria uma nova Grande Jornada? O que levou qualquer um largar tudo e sair em busca de algo que ninguém pode saber se existe realmente, ou se tudo isso era apenas a vontade de largar aquele lugar e procurar realmente algo novo?

 

 

 

Dalotê quando saiu da aldeia pensou que sua tarefa seria a mais perigosa, pois iria ultrapassar as cabanas dos jovens e rumaria para as terras do norte. Dalotê era uma mulher que sempre usava dois machados, dizia que tinha duas mãos. O Norte era um lugar que volta e meia era relembrado nas conversas. “Os mais idosos” diziam que lá era o lugar onde ficava o Lago Etchuru que depois da reunião dos animais, afundou e mais nada crescera lá. Mas o Norte que “os mais velhos” falavam era além do lago e todos diziam que lá era impossível à vida. Havia uma área muito grande formada por uma areia muito fina, mais fina que o fundo do Rio Ti, e não nascia nada lá e nem viver lá era possível. Quem mais avançou nesta região dizia que se andava muitas luas e a paisagem sempre era igual. As pedras que lá existiam eram de dois tipos, uma pedra avermelhada e uma retorcida, às vezes preta, às vezes vermelha, com pequenos furos e que elas eram muito quentes. À noite o calor não existia, mas a temperatura mudava tanto que fazia frio. Não havia água e lá nunca chovia e nem “os mais antigos” conseguiam explicar porque havia um lugar assim.

Eram estas ausências de explicações que fez com que Dalotê começasse a prestar mais atenção no mundo que lhe cercava e começou também se perguntar por que os responsáveis  pela Grande Jornada não conseguiram vencer, afinal, o que “os mais antigos” contavam era que estava acontecendo uma grande mudança lá longe que mudaria também o restante de tudo.

Como uma mudança lá muito longe podia alterar outras regiões, e como “os mais velhos” não conseguiam explicar estas coisas, talvez esta reunião dos animais nunca tenha existido, talvez fosse apenas mais uma explicação que “os mais velhos” usavam para poderem ser o centro de atenção. Mas que centro de atenção era esse se a própria vida era o preço final. Havia muitas dúvidas, muitas respostas e talvez o primordial, faltava uma pergunta, quem eram eles? Podia se perceber que os humanos não faziam parte do contexto onde passavam ou viviam. Ficar em pé nem sempre era possível, o corpo doía e correr então era só em casos de perigo e mesmo assim dependendo do perigo nem tentar correr resolvia.

As perguntas, as explicações, as visões, os fatos, os atos, enfim, a vida não tinha lógica nenhuma, ou talvez tivesse, eles eram quem ainda não tinham a capacidade de perceber que a simples existência já era a própria lógica. Mas seria apenas só isso ou haveria alguma coisa mais que ainda não havia sido encontrada ou descoberta. Dalotê sempre teve um cuidado maior em escutar, mesmo que a primeira reação fosse agir para resolver logo a situação qualquer que fosse. Parecia que estava sempre atrasada em todas as situações que se envolvera. Porem como que isto fosse um resultado a todos, nos últimos dias sentia que precisava mudar ou parar de pensar rápido, tinham acontecido inúmeras situações que mostravam que algo maior estava acontecendo e isto não poderia negar e nem pensava. Mas como agir se não há nada para começar, se tudo é inicio agora.

Se antes havia a explicação “dos mais velhos”, agora a explicação sairia de sua voz e de seus sete companheiros, eles seriam ‘os mais antigos’ e os que ouviriam suas próprias vozes. Nunca passara na sua cabeça que eles eram quem fariam as explicações dos acontecidos e daquilo que ainda não acontecera. Como seria pensar, agir, ver, observar, opinar para si mesma e como seria tudo isso para com os outros. Cada um era diferente. Será que eles, as pessoas do seu grupo, pensavam também as mesmas coisas que não saiam de sua cabeça?

Já estavam no caminho há quatro dias e a sensação que possuía era que o chão ficara mais úmido, mais macio. Isso era tudo o que o sol negava, pois o calor era muito maior. Não havia mais as grandes árvores, apenas e esparsamente pequenas árvores que não possuíam alimentos suficientes para os oito indivíduos. Parecia que esses quatro dias foram muito mais, pois eles caminhavam muito. E havia, na frente, não muito longe, inúmeras árvores juntas, elas pareciam estar numa subida não muito grande.

Mas quando chegaram mais perto das arvores descobriram que havia uma vegetação diferente, pequenas árvores, se aquilo poderia ser chamado de pequenas árvores. Seus troncos eram mais finos que seus dedos, muito deles dava para ser quebrados sem muito esforço e havia em muitos destes troncos, flores de cores diferentes, mais a maioria era de cor branca. Tinha um cheiro diferente, seu cheiro não era conhecido. Dentro de cada flor havia inúmeros filamentos pretos em pé, delicadíssimos e como não poderia deixar de ser o grupo experimentou essas flores diferentes.

Seu gostou forneceu uma sensação de amargo na boca de cada um, como a vontade de comer estas flores era maior o paladar foi esquecido, ou quem sabe, se acostumaram.

Inataluô comeu muitas flores, mas foi em frente e logo percebeu que essa vegetação acabava e na sua frente apareceu um pequeno rio com pouca água. A cor da água era da cor das nuvens e Inataluô correu na direção da água. Entrou muito rápido para molhar se e beber, mas seu espanto foi muito grande, a água era muito quente, muito quente, não aguentou muito tempo, saiu.

Voltou para onde estava o Grupo e não encontrou ninguém. Não havia ninguém e isso deixou Inataluô assustado, procurou seus companheiros no meio daquelas arvores diferentes e não encontrou ninguém e andou, andou. Resolveu seguir na direção contraria, ou seja, voltar pelo caminho que o Grupo fizera até então. Caminhou e nada de seu Grupo. Não gritou para chamar ninguém, não poderia fazer esse barulho. E andando de volta resolveu mudar novamente a direção, retornaria para a água quente e então olhando para seu lado direito, viu, lá longe, seu Grupo fazendo sinal para ele. Não entendeu como conseguiu se separar tanto assim e foi andando para o seu Grupo.

Quando chegou lá viu as pessoas rindo, falando coisas altas, correndo um atrás dos outros, estavam todos alegres e mais alegres ficaram quando avisou que tinha encontrado um rio de águas quentes. Todos foram correndo e lá chegando pularam dentro da água e assim ficaram até a noite.

 

 

O grupo andou muito tempo, descansou pouco e ia sempre do lado direito do Rio Ti, não tinha como se perder, não era apenas seguir o rio, bastava olhar ao redor, estava tudo igual. Estava tudo igual, mas o fundamental era as águas do Rio Ti que mudaram de lado. Ekate tentou nestes últimos dias colocar sua cabeça para compreender o que acontecia desde o inicio, mas o pior era que não mais lembrava como tudo começou. Porem, algo não tinha mudado o dia e a noite. Ninguém sabia quem começou, se o inicio foi dia ou noite, apenas era comum saber que ambos estavam em todos os lugares e assim deveria ser para sempre, mesmo quando os humanos acabassem o dia e a noite estaria lá para alguém. A noite começou a cair, lá longe parecia que iria chover, era possível ver os raios correndo no céu.

“Ekate, vou lhe dizer algo que preciso da sua opinião, eu não consigo lembrar os fatos que aconteceram nestes dias, você consegue? Você consegue lembrar o que aconteceu antes do Raz encontrar a Anati?” Perguntou Okale.

Ekate escutou, pensou, pensou e disse: “não lembro muito do que aconteceu nestes últimos dias, tento me lembrar, mas as coisas veem a minha cabeça muito esparsamente, às vezes parece que não tem mais nada. O que  lembro é que tudo começou para mim quando Iguru entrou no Rio Ti e desapareceu, isto é para mim o começo e mesmo assim não está mais nítido não”

“Será que aconteceu algo com a nossa memória após ‘os mais velhos’ desaparecerem?” continuou a perguntar Okale

“Pode ser que há algumas correlações entre o desaparecimento Deles e o que estamos fazendo. Não consigo pensar que isto tenha haver com a nossa memória. Vamos acender algumas fogueiras para podermos passar a noite” falou Ekate.

Este Grupo acendia fogueira para poder dormir, havia confiança que nada aconteceria que fugisse da rotina, andar, andar, descansar, andar, andar, comer, dormir, assim tinha sido nos últimos dias. Mas esta noite seria diferente. O Grupo ficou cercado pelas fogueiras, cada um dos cincos indivíduos procurava um lugar para deitar quando Agulan começou a falar e todos prestaram atenção, pois não havia mais nada a fazer. “eu quero perguntar para vocês o que será este encontro marcado para lá das Montanhas Óluta. Ninguém sabia que Ele aconteceria, não é mesmo? Eram só “os mais idosos” que sabiam, não era?  E como alguém da nossa Aldeia poderia ir nesta reunião se não sabemos o que será discutido lá e quem será o escolhido para ir. Eu tenho que ir porque o Panture está sob a minha responsabilidade e eu não posso ficar sem ir”

Karue levantou o braço e começou a falar: “alguém ou alguns deverá ir nesta reunião, agora essa reunião será com quem? “Os mais idosos” diziam que em vinte luas não havia nenhum grupo próximo e esta é uma distancia muito grande, significa que se haverá esta reunião alguns grupos já estão indo para lá. Será que nem um destes grupos não passara por onde passamos ou vamos passar? Como poderiam passar também lá na Aldeia…

Okale falou interrompendo, “isto significa que estamos numa região que serve como rota para irmos além das Montanhas Óluta, ou então, existem grupos que conhecem o local da reunião, mas não passaram por esta nossa região, vivem em outros lugares, talvez mais próximos ou num lugar diferente do nosso. Nos nunca fomos em direção ao sol, nunca fomos conhecer às terras onde nasce o sol. “Os mais antigos” diziam que lá foi o inicio da Grande Jornada, onde fica o Lago Etchuru”. E apontando o seu braço direito, continuou: “o sol nasce lá na minha costa e lá, apontando com a mão, existe uma montanha enorme que ninguém conseguiu atravessar, são várias luas para conseguir atravessar. Nós não conhecemos nada, apenas estes dois lados, mostrando a direção que o sol caia e o outro lado que agora poderia não mais existir, o lado de lá do Rio Ti”.

Agulan novamente falou: “nos vamos saber o que acontecerá nas próximas luas” e levantou e começou andar rumo a fogueira que fora acessa mais tarde, pegou um toco com fogo e voltou com o toco em direção ao Grupo. Chegando perto do Grupo que estava sentado, levantou a tocha em direção a sua cabeça e segurando com as duas mãos o fogo em cima de sua cabeça, olhou para cada um dos cinco integrantes do Grupo e começou a falar: “amanhã, deveremos tentar atravessar o Rio Ti para descobrir algumas coisas que precisamos descobrir” e para espantou de todos jogou o fogo para trás e caiu, dormindo até o dia amanhecer. O restante do grupo achou melhor dormir também.

 

 

 

O dia amanheceu e todos os indivíduos do Grupo, mesmo afastados um dos outros, puderam ver a imensa bola de fogo que cruzou o céu correndo como nunca ninguém tinha visto, não houve tempo de ninguém falar nada. A bola vermelha mergulhou em direção ao chão. Lá longe onde a bola vermelha caiu o barulho foi imenso. O chão tremeu. Todos escutaram o barulho e passado muito tempo um vento muito quente passou pela região onde os Grupos estavam. O fogo queimou quase todas as árvores, as aves voaram sem rumo no céu, os animais de inúmeros tamanhos também corriam sem rumo. As águas do rio Ti ficaram quentes e em muitos lugares só era possível ver a fumaça. E não demorou muito que a fumaça chegou onde o Rio Ti ficava. Tinha um cheiro forte e ardia os olhos. Muitos humanos não agüentaram. Lá na aldeia a tragédia foi muito grande, cinco mulheres não tiveram como resistir e morreram, cinco crianças também morreram, assim como quatro homens e oito jovens. Enfim a Aldeia sofreu com a fumaça que apareceu com a bola de fogo que cortou o céu da manha deste dia.

Aturu saiu correndo, sem saber bem pra onde ia, corria como todos os seres vivos que podem sair do lugar e via o desespero, susto e medo estampados nos rostos das pessoas. Além do vento quente, estava chegando uma fumaça escura, com pontos vermelhos que sufocavam todos, os gritos eram altos. Todos corriam, alguns para o Rio Ti, outros corriam para o lado contrário da fumaça. As árvores já começavam a pegar fogo nos galhos mais altos, a grama estava quente, o ar além de ser quente, era muito forte seu cheiro, ardia às narinas. Aturu viu alguns caírem, se contorcendo, se encolhendo todo e aspirando. Alguém gritou para ir rumo ao Morro que ficava em direção contrária ao Rio Ti. Enfim, era impossível ter noção, qualquer que fosse para saber o que acontecia. Mas algo estava acontecendo, não podia ser apenas as forças da natureza, a Terra não podia ser tão dura com este Lugar. Não teve reação quando viu uma grande árvore cair em sua direção.

 

Há momentos em que o ser humano ou até o animal percebe que chegou o momento da estupefactação, aquele instante que não há reação, não há nada. O cérebro para de agir e espera o golpe final, não há nestes segundos, por menor que tenham sido movimentos de reação. Há um momento que a visão não manda mais estímulos para serem processados pelo cérebro, apenas contempla, olha e bestifica como as árvores que queimavam sem poder sair do local onde estão presas pelo destino cruel da imobilidade. Assim estava Aturu quando foi empurrado violentamente por Arumi, uma mulher que presenciou toda a cena.

Aturi sentiu o impacto no seu peito e caiu rolando, Arumi conseguiu saltar por cima e caiu mais a frente. A árvore bateu no chão e subiu novamente um pouco  e caiu novamente, escorrendo para o lado. Arumi levantou e foi em direção a Aturu que estava levantando-se.

“Vamos sair daqui” falou Arumi.

Aturu levantou, olhou para a Aldeia e correu para o morro que parecia o novo ponto de reunião da Aldeia. Quem foi para o Rio Ti voltava correndo também, gritando que a água do rio estava muito quente. Foi mais um dia, assim como os últimos dias, em que acontecimentos mudavam a vida da Aldeia. Este foi o mais trágico, muitos morreram e poucos quiseram continuar neste local.

Não há possibilidades variadas para se compreender o que acontece com cada um e as explicações são as mais variadas possíveis, mas em todas possíveis explicações, independentes de suas origens, a Aldeia, ou melhor, o que sobrava dela, respirava nem uma explicação, apenas o medo. O medo não tem explicação, tem tentativas de compreensão, e como não poderia deixar de ser, há a ausência do momento inicial do medo, este instante é fundamental para não existir a explicação. Há momentos particularizados que explodem na atitude individual que ai sim se transforma na compreensão, é a origem do medo. Todos na Aldeia estavam com medo, não havia como tentar compreender o que acontecia, apenas estava acontecendo. Suas consequências marcariam não mais a existência da Aldeia, marcaria para todo o sempre a sobrevivência dos que não morreram.

Certos comportamentos, certas atitudes não podem ser considerados quando o denominador comum, o padrão comportamental está fora de conhecimento das pessoas envolvidas e isto pode ser a compreensão daquela manhã na aldeia, o abandono das forças de sobrevivência que não mais existiam nos sobreviventes, apenas aquela fumaça que ardia no peito e que escurecia o amanhã. E todos da aldeia caíram no chão na esperança muda de poderem continuar de alguma forma viva. Mesmo que fosse apenas um pequeno tempo a mais.

 

Ekate viu algo no céu correndo como nunca tinha visto, no seu deslocamento deixava cair alguns pedaços de seu corpo em chamas, não havia palavras para poder explicar, apenas o susto era a sensação presente. E um dos pedaços da imensa bola caiu no meio daquele trecho do Rio Ti, levantando a água muito alto, e aquele corpo não afundou, saiu abrindo um espaço muito grande do Rio Ti, como que desviando seu leito.  O Rio abrira um novo leito, talvez mais profundo, mas um leito muito grande, e a vazão da água foi pequena, pois a sensação que  todos tiveram foi que a água do rio sumira. Se a água sumira, um calor imensurável acontecia, os corpos dos homens sentiram o golpe e a sensação de queima ganhava o corpo e não havia como fugir daquele calor insuportável. A reação de Ekate foi correr em direção contrária àquele pedaço enorme que caíra no rio. Alguém gritou, “vamos para lá”. Talvez ninguém tenha entendido qual era esta direção, mas correram. Mas a sensação de um calor fenomenal no corpo era muito mais rápido do que o aumento da velocidade do corpo, alguém caíra no chão gritando.

O que gritava não dava mais para entender, seu grito ficou como uma vaga lembrança do desconhecido na memória daqueles que ainda corriam. Corriam e viram uma imensa pedra e num instinto básico de sobrevivência correram para a imensa pedra e chegando lá esconderam se atrás dela a tempo de não verem a imensa fumaça que vinha chegando. Não demorou muito a respiração foi ficando difícil. Karue, falou: “vamos tentar chegar ao rio” e novamente os quatros humanos correram.

Chegaram ao rio e pularam na água que estava bem mais baixa e quente. O choque do corpo com a água arrancou gritos de dor de todos. Mas havia uma sensação que a fumaça escura era mais fraca no Rio, e essa esperança animou os quatros humanos, três homens e uma criança.

Logo perceberam que o Rio Ti estava muito diferente, às vezes passavam por eles peixes boiando mortos. Talvez tivesse sido o repentino aumento da temperatura das águas, conforme a correnteza da água aumentava maior era à quantidade de peixes boiando, alguns, como que mostrassem a dramática realidade abriam e fechavam a boca, tentando respirar sabe-se lá o quê; seus olhos pareciam querer saltar do corpo.

 

 

 

 

Além do corpo queimado, o ar começava a ficar mais pesado, Okate começou a tossir fortemente e começou a sair uma espuma amarelada de sua boca, tentou ficar em pé para talvez reagir a algo que somente Ele sabia o que era, mas não conseguiu, caiu de cara para o chão, seu corpo espalhou a água do rio e lá ficou parado, imóvel. Agulan levantou do leito do rio e tentou ir em direção a Okate, mas assim que ficou em pé, seu corpo parecia que tinha virado uma tocha de fogo, aquela mesma que na noite anterior usara em cima da sua cabeça. Não conseguiu conter o grito de dor.

Seu grito cortou aquela cena dramática, assim como qualquer grito de dor serve de aviso a alguém próximo, e caiu novamente na água. Sua queda serviu apenas para lembrar que era talvez por um ato puramente de fêmea a responsável pelo Panture. E pensando nele sentiu as águas quentes cobrirem seu corpo todo queimado, não sentiu mais nada, antes de sumir qualquer vestígio da sua consciência, percebeu que ainda respirava, mas isso era uma única sensação que possuía, não mais sentia seu corpo, apenas respirava.

Karue e Ekate viram tudo e não puderam fazer nada, apenas sentiram que seus corpos queimavam como aquelas poucas árvores que existiam no lugar. A escuridão que surgiu na mente dos dois humanos não era a escuridão que estavam acostumados, era muito diferente, era uma sensação pesada, seus corpos ardiam, queimavam de dentro para fora. Karue tinha a sensação que seu interior estava derretendo, o ar faltou, seu cérebro ficou com a impressão que tudo ao seu redor virara cinza e de repente tudo acabou, sem dor, sem poder gritar ou reagir, tudo ficava cinzento e nesta cor final seu cérebro começou sair pela cabeça queimada e quebrada. A pressão em seu cérebro parecia à mesma da queda de uma árvore imensa e não conseguiu mais pensar.

Ekate tentou se mexer e conforme virou de lado, viu num breve relance sua pele ficar no chão e por curiosidade apenas, não por coragem, olhou para seu corpo, a sensação foi chocante. Seu pêlo preto em muitas partes era apenas vermelho. A dor da descoberta é muito maior que a própria dor real. Não há possibilidade de sabermos o que dói mais, a própria dor ou a dor da descoberta.

E Ekate, como que num ato de heroísmo ou de qualquer coisa que o cérebro determina sem coerência alguma, começou a se arrastar em direção a Agulan. Conforme a distancia diminuía, aumentava a sensação que seu corpo perdia mais pele, mas chegou onde estava o corpo de Agulam que se movia conforme a correnteza.

E ainda neste ato de heroísmo ou de qualquer outra coisa, agarrou o corpo também queimado de Agulan e começou a ficar excitado e penetrou varias vezes em Agulan.

Agulan sentia se penetrada, mas não tinha forças para reagir, quando sentiu se molhada por um liquido morno, então conseguiu abrir os olhos e viu Ekate em cima de si. Não teve medo, não teve nenhuma reação, apenas viu Ekate como nunca vira ninguém.

E ainda confusa ou sem entender nada, conseguiu escutar Ekate dizer: “tomara que de certo, tomara que você consiga sobreviver e eu consiga viver dentro de ti, para você lembrar hoje como apenas o inicio da nova vida do nosso Grupo”.

Se Ekate falou mais Agulan não lembra, apenas que novamente lembrou-se do Panture, mas desta vez era diferente, o Panture está dentro do seu corpo.

Ekate tentou levantar, mas seu ato fora o último de sua vida, caiu com o rosto dentro da água e lá ficou imóvel.

 

 

Finalmente as luzes de um novo dia começavam mostrar os contôrnos da imensa descida que o grupo fizera. Como que todos tivessem combinados acordaram e começaram a esticar os braços e as pernas. Alguns tiveram que bater as pernas para o sangue começar circular. A noite toda soprara um vento frio, mas, agora, na matina o ar era bem mais fresco. A sensação era agradável.

Raz foi o primeiro a sugerir quais seriam as tarefas: “vamos nos separar, vamos nos encontrar lá em baixo, se é que há um ‘lá em baixo’, vamos ver o que eram aqueles vultos”.

Turue concordou e junto com Raz foi Erutiran e Fekuli. O restante continuou a seguir aquelas pedras como se fosse um caminho, para onde ia ninguém sabia.

Fekuli foi à frente e logo descobriu que iriam enfrentar uma distancia muito mais longa, seria uma distancia no qual o maior perigo seria o próprio peso do corpo. Existia uma pressão muito grande que parecia querer jogar os três para baixo, não era ninguém, apenas seus próprios corpos que facilitavam esta vontade estranha.

Mas como a curiosidade anda junto com a vontade de seguir adiante, eles foram. E não demoraram a chegar onde no dia anterior parecia estar passando vultos. Não eram vultos que passavam, eram apenas uns riscos da própria rocha que pareciam ser vultos. Erutiran foi o primeiro a perceber esta ilusão quando parou para pegar uma pedra que brilhava no chão.

Turue escutou um barulho muito diferente, como estava no final da pequena fila, olhou para trás e gritou espantado: “olhem”.

Erutiram virou-se lentamente, pois não havia outro jeito, seu espaço era pequeno e viu o que Turue apontava. Lá no céu uma imensa bola em chamas corria velozmente encima de suas cabeças. Aquela bola imensa soltava também algumas coisas de seu interior. Os três viram uma imensa bola, ou quem sabe qualquer outra coisa imensa, com fogo em seu redor correr velozmente na direção deles.

Conforme era vencida a distancia, Erutiran, Turue e Fekuli descobriram que não tinham como escapar, a montanha seria destruída e eles seriam os primeiros a sentir o que era aquela enorme bola que vinha em suas direções.

Turu deu um grito quando escutou o barulho e viu no céu um pedaço de bola em fogo descer na direção do morro. A bola não o atingiria e os outros quatro companheiros, mas ela atingiria a montanha e provavelmente os outros que haviam se separados. Não havia nada que pudesse ser feito, apenas esperar, ver o que aconteceria e esperar o que seria feito.

Turu viu uma bola muito maior seguir em frente, sem parar e ninguém conseguiria parar aquilo, mas viu também uma bola menor correndo em direção ao morro que estavam descendo.

O impacto foi muito grande, o barulho então fazia tremer o próprio ar e o que aconteceu ninguém soube falar. O desfiladeiro veio descendo rapidamente, arrastando tudo que encontrava pela descida, Turu recebeu um bloco de pedra no peito e desceu numa velocidade que não conseguiu entender. Percebeu que faltava alguma coisa na sua parte inferior e sentiu que seu sangue escapava muito rapidamente e num instante mais rápido que sua imaginação tudo ficou quieto na sua cabeça.

Seus companheiros foram enrolados naquela avalanche de terra e caíram rolando, batendo, rolando numa descida que não parecia mais acabar. Os corpos iam deixando também nesta descida o liquido precioso, o sangue, como que fosse uma tentativa de lubrificar a velocidade da queda.

 

 

Finalmente pararam, Uvitu conseguiu apenas olhar para cima para ver que agora, lá no meio da descida vinha água, possivelmente do Rio Ti, mas antes vinha mais terra, tentou gritar para poder colocar o medo para fora, mas a terra quente entrou pela sua boca.

Apenas o barulho do chão descendo, a água regando aquela imensa planície lá embaixo mostravam que a Terra nem sempre é previsível. E aquele Grupo seria talvez lembranças. Talvez nem isso.

 

 

Dalote acordou muito diferente, como nunca tinha acontecido antes, estava muito cansada, sua cabeça estava num ritmo diferente, às coisas eram mais fortes, suas cores mais vivas, parecia haver uma forma de vida diferente daquela que estava acostumada a ver todos os dias. Olhou para os lados e viu seus companheiros ainda deitados, todos espalhados. Acordou todos e começaram novamente a caminhada, rumo talvez a lugar nenhum. Os oitos humanos andavam cada um dentro de seus pensamentos quando Ivituti que estava mais a frente, falou: “olhem lá no céu”.  E todos, como que ao mesmo tempo, olharam para o céu para verem o que nunca tinha sido visto por ninguém, uma imensa bola de fogo que cortava o azul infinito.

O Grupo ficou olhando o céu e então um pedaço daquela imensa bola se separou e veio caindo em direção ao chão.

A distância daquela bola era muito grande em relação a onde eles estavam, mas mesmo assim a velocidade daquela enorme bola provocou ansiedade e quando ela parecia sumir no limite da visão daqueles dezesseis olhos paralisados, todos se jogaram no chão. Era o tal do movimento reflexo.

O estrondo que aconteceu foi enorme. O chão vibrava como pequenos galhos numa ventania, o tremor do chão sacudia os oitos indivíduos e logo começaram acontecer os eventos que ficaram registrados naqueles sujeitos no chão.

Iviture levantou a cabeça e viu como se fosse uma pequena cobra cortar o chão, o chão se separou muito rapidamente e abriu uma fenda do tamanho de três cururuarus que era a maior árvore que conhecia, deitadas. E quem estava próximo a esta fenda gritou, mas ninguém caiu.  O barulho da separação era um barulho muito diferente, ninguém tinha escutado. Ivituti ficou em pé preparando para correr quando olhou para Dalote que começara a gritar: “vamos sair, vamos sair” e todos começaram a correr, sem saber bem para onde. O chão tinha muitas pedrinhas, não eram pedrinhas, eram pedaços de uma pedra que ficava não muito longe da Aldeia que refletia um brilho, uma luz fraca, mas dependendo do tamanho, às vezes, à noite, poderia servir de referencia.

Esses pedacinhos esquentavam muito rapidamente no chão, arrancando gritos das pessoas que estavam correndo sem saber para onde ir. Sabiam talvez pela própria consciência que tinham que se afastar daquela parte do chão que se abria e como corriam, pois o barulho parecia que estava quase os pegando.

Lá na frente, do lado direito, havia um bloco de pedra escura e foram para lá sem saber bem o motivo. Chegando lá subiram na pedra e olharam. O chão tinha sido cortado, havia um calor muito forte, algumas árvores tinham desaparecidas, talvez, elas tivessem caídas na fenda que havia no chão. Inataluê olhou para o infinito e falou: “olhem” e todos viram.

Na frente deles, lá longe, na direção da Aldeia, havia uma imensa fumaça negra dançando no céu, lá para o lado do Rio Ti, naquele lado que sumiu também havia uma nuvem escura, só que esta era muito maior, ocupava o lado esquerdo todo deles em cima da pedra. Bem mais longe, muito além da Aldeia havia uma imensa fumaça vermelha.

Talvez tivesse sido lá que caiu aquela bola maior que cortara o céu algum tempo antes, pensou Inatuluô.

 

 

 

Passado um tempo, todos começaram a falar qualquer coisa, pois nessas ocasiões a fala brota independente da vontade da pessoa. Servia como uma válvula de escape.

Dalote olhou para seus companheiros e pensou, estamos vivendo uma nova etapa, “os mais velhos” tinham dito isso.

Ivituri falou: “vamos ver o que aconteceu lá onde estávamos, vamos para ver se descobrimos algo”. Falando Ivituri pulou da pedra e foi em direção a fenda. Guviu, que era a outra mulher, também acompanhou e mais três seguiram.

E como havia uma pressa sem justificativa foram correndo em direção à fenda. Lá chegaram e olharam para baixo, não era um buraco enorme, mas não seria fácil ultrapassa-lo, sua largura era muito grande. Ivituri descobriu que era muito maior que as três cururuarus que tinha pensado. Lá no fundo parecia que corria água. Guviu falou para Tavitu: “vamos descer, precisamos saber o que tem lá”.

Tavitu disse: “não, temos que nos reunir e descobrir o que vamos fazer. Temos que decidir o que vamos fazer. Se vamos seguir o Rio Ti que não sabemos mais nada ou se vamos voltar ou o que vamos fazer”.

Ruliri acrescentou: “devemos reunir sim, pois até agora tudo não fica mais de um dia. Sempre tem algo acontecendo, não podemos esquecer que o nosso objetivo era ir além das Terras do Norte. Agora, não sei mais se é esse o objetivo. Como devemos conhecer essa separação. Eu por mim iria lá em baixo ver isso, mas também poderíamos seguir uma das direções sem descer e ver até onde vai. Elas vão ter que ir em algum lugar, mas não sei o que é o melhor para ser feito”.

Enquanto falavam Dalote olhou para o céu e viu as fumaças se encontrarem e deste encontro saíram raios, muitos raios que não caiam na terra, mas pareciam que estavam correndo em todas as direções. E alguns vieram na direção onde o Grupo estava. Eram raios apenas como um recurso semântico, pareciam enormes cobras, da largura de um corpo dos “mais velhos”, que corria em direção aquela pedra onde Dalote, Vurutu e Tuloka estavam. Apenas teve tempo de gritar qualquer coisa e pular, Vurutu e Tuloka não tiveram a mesma sorte, foram pegos em cima da pedra que explodiu, lançando centenas de pedaços menores no espaço.

O Grupo que estava na fenda apenas escutou o estrondo e viraram rapidamente para trás e olharam dois companheiros além do morro transformados em chamas explodirem em centenas de pedaços.

Guviu rapidamente falou: “vamos descer, se esconder”.

Ruliri ia falar algo, mas viu Dalote correndo em direção deles. Nem bem tinha chegado, Dalote começou a explicar: “lá onde tem as nuvens escuras, que agora é uma só, têm raios que saem para todos os lugares. Precisamos nos esconder, é muito longe onde está a nuvem, mas parece que ela enxerga”

Enquanto falava foi indo para a direção da fenda e lá chegando, fez um sinal de silencio e apontou para baixo. E todos viram um enorme animal se arrastando muito devagar, lentamente. O Grupo ficou olhando o esforço do animal em andar. Foram acompanhando o animal de cima, ele não dera sinal que tinha visto ninguém, apenas seguia se arrastando pela terra, quando parou, cheirou o ar e levantou-se. Seu tamanho era enorme. Talvez todos os oito do Grupo não chegava a sua altura. Sua cabeça era enorme, seus braços, estes sim, eram maiores de cada um do Grupo. Quando estava em pé, talvez não todo esticado, o chão afundou e ele foi junto, mas antes olhou para cima e abriu à boca, seu grito foi assustador. Guviu conseguiu mirar os olhos do animal e viu seus olhos. Eram brancos, mas no seu interior eram claros da cor da areia. Seu pêlo não dava para descobrir de que cor era, mas, todos nunca tinham visto algo parecido.

Quando o chão afundou, Dalote e Ruliri viram sair do fundo algo muito grande, de cor vermelha, como que já tivesse as pernas daquele animal dentro da sua boca e estivesse puxando o restante do animal.

Ivituri falou, quase gritando: “É Tunitu, vamos sair daqui”.

E saíram da beira da fenda.

Tunitu era o inimigo da grande cobra amarela Anati. “Os mais antigos” diziam que Anati conseguiu enganar Tunitu quando eles resolveram seguir os humanos na Grande jornada. Tunitu era muito maior que Anati, mas sua capacidade de agir era um pouco mais demorada que Anati. Quando houve a reunião dos animais no Lago Etchuru e depois todos resolveram fugir, Tunitu disse que queria acompanhar os humanos, pois ele gostava da cor preta dos humanos, mas Anati falou para ele: “Tunitu, você deve ficar esperando o aviso da Terra, Ela gosta muito de você e você deve ficar enterrado no chão até Ela chegar. Você sabe que a Terra quer levar os humanos para dentro do chão, é a única maneira de salva-los agora. Você entra aqui e fica esperando, a Terra vai reunir todas as fêmeas daqui a pouco. Espere aqui”.

Tunitu ficou esperando, pois viu que estavam chegando algumas fêmeas.

Foi quando o Lago Etchuru afundou e levou Tunitu junto e ninguém mais falou ou tinha noticias dele.

Todos olharam para Ivituri e Guviu falou: “não, vamos falar com Tunitu, quem sabe Ele irá nos ajudar”.

Dalote concordou dizendo: “já que estamos mesmo vivendo uma nova realidade e   Tunitu

“os mais velhos” sempre diziam que gostava muito dos humanos, devemos procurá-lo e conversar, para sabermos o que está acontecendo e ver se Ele pode nos ajudar. Porque com tudo o que está acontecendo, talvez nem mais exista a Aldeia e assim, teremos que pensar o que fazer.

Nas enquanto tudo isso acontecia à noite foi chegando e ficou escuro.

Guviu falou: “vamos acender as fogueiras, pois não podemos ficar no escuro”.

Todos concordaram, porem, como viviam uma nova realidade resolveram fazer as fogueiras longe da fenda e fizeram seis. Mas não ficaram próximos as fogueiras, ficaram mais afastados só assim saberiam se tinha mais alguém mas redondezas.

O Grupo era agora formado por Guviu, Dalote que eram as mulheres, Ivituri, Ruliri, Tavitu e Vituluau e foram dormir

Não houve tempo para pensar em dormir, as fogueiras mesmo afastadas foram andando em direção ao Grupo que ficou em pé. E todos os seis viram Tunitu puxando as fogueiras em seu imenso corpo vermelho. Puxando não era o certo, Ele estava empurrando.

Os seis ficaram em pé, não tiveram reação nenhuma, a boca de Tunitu parecia feliz, chegando próximo do Grupo começou a falar: “sei o que está acontecendo, o que aconteceu, mas não posso falar o que irá acontecer. Não posso falar o que acontecerá para vocês por que não quero. Muitos de vocês, ‘os mais velhos’, contaram muitas coisas para vocês e agora que não mais existem eles, eu quero encontrar a minha inimiga, a Anati. Foi Ela que enganou os humanos a muito tempo, vocês são os frutos deste engano, vocês sabem o que aconteceu com aquela Reunião no Lago Etchuru? Vocês sabem uma parte da História, a História errada. Não estavam todos reunidos lá, faltavam muitos animais e não tinha nenhuma fêmea e nem um humano. Aquela Reunião foi apenas para tentar mudar o que estava sendo feito certo…

O Grupo ficou escutando Tunitu.

 

 

 

Ele continuou:…aquilo que eles falaram que estava acontecendo lá longe e ia acontecer aqui era um pouco só de verdade. Eles sabiam que a Terra estava mudando como sempre mudará. A Terra está preocupada com tudo que está acontecendo nela, não há mais controle. Existe uma região muito grande onde a água é diferente, ela esta ficando fria, muito fria, por isso que aqui esta fazendo muito calor. E este calor esta matando o que a Terra mais gosta as árvores. É por isso que houve a Reunião no Lago Etchuru, é para acertar com a Terra todas essas coisas, mas Aviran, Atriran e Ecuran apareceram antes e falaram o que não sabiam direito, quando a Terra soube que não tinham esperado por Ela, ficou muito aborrecida e jogou os três no céu. Fez Eles ficarem em pedacinhos para não poderem mais juntarem se novamente e colocou a Lua próxima deles para vigiar. Aviran, Atriran e Ecuran não podem fazer mais nada, a Lua conta tudo para a Terra. E a Terra começou a terminar com todos que prejudicaram esta reunião. E agora o que está acontecendo é que a maior parte da terra está ficando fria, são poucas as partes quentes. Haverá em breve um período muito frio, muitos iram desaparecer, inclusive vocês, muitos morreram. Eu vou levá-los para onde vocês viveram dentro das montanhas nesta época. Vocês ficaram muito tempo sozinhos, mas conseguirão através dos filhos dos filhos de vocês continuarem nesta Terra. Mas vocês conhecerão lugares, animais e humanos diferentes.

Vutuluau perguntou: “por que você apareceu agora?

Tunitu respondeu: “por que Anati me enganou e fugiu pra longe. Tive que sair procurando por Ela, pois onde Ela estava tinha vocês. E por isso que eu procurei por Ela todo esse tempo. Mas eu corria perigo também, todos ficaram perturbados e sem rumo com o que aconteceu no Lago Etchuru. A Vida Teria sido completamente diferente se…

Ruliri interrompeu Tunitu, falando e perguntando: “como seria diferente, por que faltavam alguns animais e a Terra não foi avisada a tempo ou Ela e os outros animais atrasaram?”

Tunitu explicou: “vocês precisam entender que quando se marca uma Reunião com todos é preciso saber esperar, esta é uma condição básica, afinal todos estão envolvidos. É só vocês lembrarem e já vou avisando, talvez vocês nem notaram, mas a memória de vocês está desaparecendo. Cada dia que passa vocês esquecem do Passado, vocês estão mudando e não perceberam isto ainda. Chegará um dia que vocês não lembraram de mais nada, por que vocês viveram experiências novas e elas levaram mais tempo para serem compreendidas. Mas como ia dizendo, é só vocês lembrarem que quando ouviam as conversas “dos mais antigos” ninguém perguntava o porque. Pelo simples fatos que acreditavam naquilo que ouviam, mas, como por exemplo, Dalote nunca acreditou, apenas ouvia e depois ficava pensando, não é mesmo Dalote?

Dalote levou um susto, primeiro pelo fato de Tunitu saber seu nome, segundo por que ninguém sabia o que passava em sua cabeça. Mas querendo fugir desta pergunta, respondeu perguntando: Por que a nossa memória esta sumindo?

Por que, respondeu Tunitu, tudo muda no decurso da Vida, tem coisas que acabamos deixando de lado. Você carrega dois machados, não é porque você conseguira usá-los ao mesmo tempo, seu receio é que um deles quebre e você não quer que isso aconteça…

Tavitu entrou na conversa perguntando: “você está falando tudo isso por quê? Você mesmo falou que nós estamos esquecendo o Passado, nos estamos vivendo uma nova experiência todos os dias. Por que você está aqui falando tudo isto”?

“Falo tudo isto porque é minha obrigação, Anati ocupou meu lugar e enganou ‘os mais velhos’, que enganaram ‘os mais idosos’ que enganaram vocês. É por isso que estou falando isto tudo e vocês podem não lembrar agora, mas o Panture está sob os cuidados de uma criança. Isso é o maior significado do que vocês estão vivendo. Em minha opinião é melhor vocês voltarem para a antiga Aldeia e recomeçarem, por que daqui uma lua este local ficará impossível de viver. É melhor vocês passarem para o lado de lá e voltarem, se vocês querem realmente continuar como estavam. Se continuarem em frente nunca mais vocês se encontrarão os seus velhos conhecidos. Não haverá mais somente boas noticias, muitos dos que se separaram não mais existem. Mas por um Tempo estarei próximos de vocês, eu quero a Anati e logo nos encontraremos.

As fogueiras iam se apagando, a cobra vermelha Tunitu falou: “vão dormir que amanhã vocês irão decidir o Futuro de vocês”.

E os seis humanos foram dormir cada um com seus pensamentos próprios, cada um pensava com sua própria capacidade. Guviu, antes de deitar para dormir, olhou para Tunitu e falou: “que animal você pegou antes de falar com a gente?

Tunitu falou: amanhã lhe conto.

Quando o dia amanheceu, todos ficaram tensos, pois Tunitu não estava ali como um guardião. Vituluau falou: “o que vamos fazer? Se Tunitu estiver certo, deixaremos de conhecer as coisas que devemos conhecer para seguir novamente o Passado.

Guviu falou: “acho que devemos pensar um pouco, até ontem nos tínhamos como objetivo, que era chegar o quanto mais longe em direção do sol nascente, eu não me lembro porque paramos aqui. Se eu entendo de alguma coisa, e penso que sim, o sol nasce naquele outro ponto”. E mostrou com a mão direita onde o sol deveria nascer não era muito distante, mas estavam na direção errada. E continuando Guviu acrescentou: “se daqui um pouco a gente encontrar uma nova situação, vamos mudar de novo?”

Ivituri falou: acho que devemos nos separar e procurar um caminho mais seguro temos que ir naquela direção, as montanhas não são altas, podemos chegar lá em dois dias de caminhada rápida e lá poderemos ver o que há do outro lado e também o que aconteceu neste lado de cá. Não temos como saber o que aconteceu deste lado, a gente só vê o que a nossa visão alcança. Lá de cima da pedra que Datole estava se via mais além daqui, no chão isto não é possível.

Todos concordaram, mas Ivituri continuou: “uma parte de nós vai por este lado, o outro continua em frente”

Dalote levantou e disse: “eu ficaria aqui parada, pensando. O que devemos fazer é pensar, não estamos sendo lógicos, temos que pensar o que queremos realmente fazer, o que estamos procurando. Se dividirmo-nos o que estaremos procurando, apenas a possibilidade de nunca mais nos encontrarmos. Acho que deve ter acontecido algo na Aldeia, não sabemos o que aconteceu com os outros Grupos. Talvez, e isso me dói dizer, somos só nós mesmos, é possível que não mais exista ninguém mais na Aldeia. Olhem, ainda há fumaça lá longe, ela parece que aumenta de tamanho. Não sei o cheiro dela, mas lembro agora quando era pequena minha mãe e meu pai morrendo por causa da fumaça, é muito difícil respirar e ontem ela estava lá e hoje também. Talvez devemos sim ir para as montanhas, mas todos juntos, não temos mais condições de nos separar.

O silencio foi à resposta de todos. Parecia então que agora iriam para as montanhas como Ivituri comentou.

Mas Tavitu perguntou: “mesmo que Tunitu tenha contado seja verdade, acho melhor esperar mais um pouco, afinal Ele deve aparecer novamente, não é mesmo? Afinal, Ele falou que sempre procurou por nós, mesmo procurando Anati, Ele queria falar com a gente, precisamos esperar um pouco mais, Ele falou que ia ficar aqui e que de manhã iria falar para Guviu que animal era aquele, hoje quando acordamos, Ele não estava mais, se Ele saiu é por que teve motivos”.  Novamente o silencio foi a resposta de todos.

 

 

Como todos, através do silencio, pareciam concordar, ficaram deitados esperando apenas as palavras de alguém que não desaparecera da memória de muitos durante um tempo que poderia ser estimada em muitas gerações.

Cada um dos seis indivíduos pensava em realidades particulares quando um grande barulho aconteceu.

Parecia que o barulho era longe, mas logo estava na frente dos seis humanos que já estavam em pé. Um pouco antes do barulho, como se estivesse na frente do barulho, uma poeira não muito alta chegava em direção aos humanos. E eles não sabiam o que estava acontecendo, mas saíram da frente, abrindo espaço para a poeira passar e ela não foi muito mais além. E dentro da poeira vinham brigando Anati e Tunitu.

Era uma luta que marcava simbolicamente um Presente com origem no Passado. Até onde alcançava a memória dos que estavam vendo esta luta, muito pouco havia para se identificar. Pois estava ali na frente deles, testemunhas mudas, uma Vida que lhe fora imposta sem questionamentos, apenas a obediência se assim poderia ser enunciada, e do outro lado, ou melhor, junto, Outra Vida que não pode ser vivida, mas que esperará um tempo além da capacidade humana.

Algo esquecido e Algo Lembrado somente em algumas ocasiões estavam numa luta de vida ou morte, ou como o instante dizia, numa luta da Vida contra o Esquecimento, numa luta entre o Velho e o Esquecido Mundo que o Tempo ainda não conseguira esquecer.

As duas cobras escorregavam seus longos corpos no chão levantando poeira. Ambas estavam lutando com o que mais forte possuíam em seu interior, o ódio e a palavra que era a História. Num movimento de ataque Anati errou o bote, mas mesmo assim conseguira arrancar parte do corpo de Tunitu, porem não foi o suficiente. Tunitu conseguiu afastar sua cabeça da boca de Anati e numa velocidade fantástica grudou seus inúmeros dentes na nuca da Anati, que gemeu. Tunitu quando sentiu que a nuca de sua inimiga mortal estava enterrada em seus dentes e começava a fechar a boca no golpe final, aconteceu o que ninguém poderia esperar, pulou para fora da boca de Anati um vulto enorme, forte e gritou uma língua que ninguém entendeu, mas Tunitu pareceu entender. Era Itiruí.

Os seis humanos que estavam olhando a luta não entenderam, mas Itirui levantou os braços e Tunitu tirou lentamente os dentes da cabeça de Anati.

Itirui falou: “agora não haverá mais esta procura, Anati você perdeu, acabou seu Tempo, agora será o Tempo de Tunitu”. E virando se para os seis humanos, foi em direção a cada um e falou: vocês agora não são mais filhos meus, eu não posso mais cuidar de vocês, pois vocês não estão mais sobre minha influência. Mas devo avisar vocês irão descobrir muitas coisas e descobrirão também que o Tempo de vocês é diferente do meu. Nunca mais voltarei para cá, estarei em todos os lugares, mas não escutarei ninguém. Vocês foram os únicos filhos que eu dirijo a palavra, mas não adiantará para nada. O Meu Tempo acabou, mas continuarei sempre, pois fui o Primeiro Humano. Nasci da poeira, do fogo e do calor e meu corpo foi feito na água e de lá todos começaram. Tunitu será um amigo leal, mas a vida de vocês será diferente da dos pais de vocês.

Itiruí olhou novamente para cada um e entrou na boca de Anati e desapareceram.

Tunitu chegou perto deles e falou: estarei sempre por perto, mas não irei mais parecer, meu Tempo também acabou, o que tinha que fazer, fiz. Voltarei em sonhos para vocês. O animal que me alimentou vocês conhecerão mais em frente, daqui um Tempo. Saibam que o nosso Tempo é diferente do de vocês.

 

 

Tunitu posso fazer uma pergunta para você, acho que todos nos queremos fazer, perguntou Tavitu,

Tunitu olhou demoradamente para cada, e quando fixou seu olhar em Tavitu disse: “não adianta agora vocês quererem saber como tudo começou, é impossível saberem, sabe por quê? Por que vocês e todos os que vivem acima do chão esquecem-se das coisas. Os animais, os pássaros e os humanos. Todos esquecem com o passar do Tempo, isto é um processo que vocês não conhecem, a vida de vocês é apenas para colorir este mundo, o mundo da Terra. Ela precisa de vocês para poder passar o Tempo de Dela. Ela já viu quase tudo que poderia ver, não só aqui, mas lá fora, no espaço onde ninguém daqui consegue ir. È por isso que não adianta vocês quererem saber como tudo começou. Vocês não conseguiram memorizar tudo, ninguém consegue. Mas para vocês terem uma idéia do que estou falando, se vocês andarem lá na fenda durante uma lua a partir de hoje, em direção às montanhas, vocês encontrarão no fundo da fenda, animais, ou melhor, esqueletos de animais que vocês nunca ouviram ninguém falar. Mas eles existiram e ninguém sabe. É esse o negocio, não adianta querer saber como tudo aconteceu, vocês ficarão a vida de vocês parados e sempre faltaria informações ou talvez o pior, sobraria informações para compreenderem tudo. A vida aqui em cima é assim e não poderia ser diferente. Não esqueçam, vocês não podem compreender como tudo aconteceu, por que além de  esquecerem, vocês estão fazendo parte disto. Quando encontrarem os restos dos animais que viveram aqui, vocês entenderão que a vida é apenas para alegrar a Terra. Tudo passará e ninguém compreendera o que aconteceu, é assim e sempre será desta forma. Quando vocês saírem de vocês começaram a entender”.

E como seu Tempo também tinha acabado Tunitu olhou para todos e sumiu.

Cada um olhou para si e para os companheiros e Ivituri falou: “vamos descansar um pouco, não sei como, estou muito cansado”.  E todos concordaram.

 

 

Kuru tentou ir onde estavam às árvores para ver se havia alguma coisa para comer. Dentro do peixe ele descobriu que tinha uma fome que antes nunca tivera. Era uma fome muito diferente, não era a fome que estava acostumado a ter. Mesmo quando tentou dormir, Kuru ficava abrindo e fechando a boca e isso começou a assustá-lo.  Como já era Kuru tentou ficar fora da água, mas não se sentia bem, tinha que entrar na água e assim ficou a noite inteira. Kuru ficou com muito medo não queria se transformar num peixe. Sentia saudade da Aldeia, descobriu também que agora estava sozinho, não tinha com quem conversar e isso foi deixando-o muito triste. Quando descia para dentro da água os outros peixes olhavam para Ele e corriam assustados.

Conforme passava a noite Kuru descobria, ou melhor, sentia que seu corpo ficava mais diferente, seu braço esquerdo estava transformando numa coisa que nunca vira, parecia uma abertura onde entrava água conforme seu movimento, mesmo no escuro sentia que estava se transformando, assustado subiu na superfície e viu que o dia esta clareando e assim resolveu ficar com o braço direito fora da água.

Com o dia aparecendo conseguiu ver que as arvores estavam bem perto dele. E então foi para lá. Algumas árvores, que eram menores, já estavam quase todas de baixo da água, apenas alguns galhos ficavam de fora. E foi num desses galhos que Kuru viu algumas frutas e nadou em direção as frutas.

 

 

 

 

Assim que diminuía a distancia conseguiu ver que junto as frutas havia um animal, um animal muito estranho, nunca tinha visto antes. Era um animal comprido, com alguma coisa pontiaguda no lombo, começava do pescoço até o seu final, tinha quatro patas e em cada pata tinha três garras que apreciam dentes grandes, seus olhos eram num formato diferente, parecia que estavam em pé. Kuru não ficou com medo, apenas foi na direção das frutas.

Quando Kuru estava bem próximo das frutas sentiu alguma coisa puxando aquilo que fora suas pernas, como o puxão foi forte e não esperava, entrou novamente na água. Abriu os olhos e sentiu uma dificuldade enorme em conseguir enxergar, seus olhos estavam vendo tudo embaçado, não conseguia ver direito, mas sentiu que seus olhos estavam ficando mais pertos e mais para frente. Quando conseguiu ver direito, estava na frente de um peixe todo vermelho com algumas manchas cinza espalhadas no corpo.

Ficou olhando para aquilo sem fazer nada, foi quando o outro peixe abriu a boca e de lá saíram muitas bolhas, em cada bolha havia um pequeno desenho ou algo parecido com lembranças da vida de Kuru.

Kuru não conseguia acreditar no que estava vendo. Aquelas bolhas com suas lembranças penetravam em seu corpo, ao mesmo tempo em que isto acontecia sentia que o peixe que estava nele estava caindo em pedaços.

Sentia uma alegria como nunca acontecera antes enquanto isto acontecia. E ficou lá em baixo o tempo suficiente para ser salvo por aquele enorme peixe. Enquanto sentia esta alegria escutou o Peixe Grande falar: “Agora você não é mais peixe, nunca mais você irá comer ou matar nada que exista na água. Você está livre, mas não esqueça mais isto”.

Quando O Peixe Grande vermelho com manchas cinza parou de falar, Kuru foi jogado com muita força para fora da água. Seu susto foi grande, sentiu voando, quando entendeu isto, caiu. Sua queda foi aparada por enormes galhos de árvores. Estava não sabia como novamente no chão. Seu corpo voltara a ser normal, tinha duas pernas e seus dois braços, Seus olhos eram iguais e o seu machado estava pendurado na sua cintura. Procurou se orientar para descobrir onde estava, mas não conhecia aquele lugar, sua fome desaparecera.

As arvores eram enormes, os galhos estavam todos apontados para cima, não eram grandes, mas eram diferentes daqueles que conheciam. Em alguns galhos havia uma pequena bola com inúmeras frutas penduradas. Não eram frutas que estava acostumado conhecer ou comer.

Tentou subir na árvore mais próxima, mas seu corpo ficou todo machucado com pequenos pontos que saiam do tronco desta árvore. Andou muito dentro desta floresta, o chão era coberto por pedaços finos de gravetos que caiam ou caíram destas arvores. Um pouco mais na frente viu algumas árvores diferentes e não sabendo por que começou a correr em direção a elas.

Enquanto corria escutou um barulho que nunca escutara antes, olhou para o céu e viu uma imensa fogueira que corria no céu. Parou vendo aquilo e ficou olhando, quando viu pedaços daquela imensa fogueira se separar e rumar em direção ao chão.

Aquelas fogueiras que caiam do céu eram muito grande, Kuru viu que elas não estavam vindo em sua direção, mas mesmo assim ficou olhando, afinal nunca vira nada iguale não demorou muito para sentir o chão tremer. Nunca tivera aquela sensação, o chão tremia, parecia que estava vivo.

 

 

 

 

Enquanto pensava Kuru sentiu uma onda de calor muito forte, viu algumas árvores começarem a pegar fogo. Começou a correr sem saber o que fazia. Correu em direção a uma montanha que não estava distante, quando sentiu novamente o chão tremer, só que desta vez foi maior e olhando na sua frente sentiu que algo estava cortando o chão e para não cair naquele buraco se atirou no chão que estava na sua direita. O barulho era muito grande, viu arvores inteiras, e não eram poucas, afundarem. A montanha que estava na sua frente começou a cair e afundou também. Kuru conseguiu ver algumas aves maiores que ele levantarem vôo gritando muito.

Tudo aconteceu numa faixa de tempo que Kuru não sabia qual era, mas também escutou um barulho maior e olhou para cima para ver uma esteira negra que ainda estava no céu. Pensou ser a queda da fogueira maior. Passou um pouco mais o tempo e Kuru viu três grandes nuvens escuras se juntarem lá longe.

Kuru não sabia precisar que distancia tinha acontecido tudo isto, apenas sabia que não fora perto, mas olhando aquelas três fumaças escuras imaginou que tudo pegaria fogo.

Não sabia o que fazer, na sua frente à montanha caíra, a sua esquerda havia um imenso rasgo no chão. Não tinha para onde correr ou mesmo ir. Pela primeira vez na sua vida Kuru descobriu que não era nada naquele palco de atuação, a vida. Mas resolveu a andar, seguir em frente, só que não era em direção à montanha. Andar era tudo que lhe restava fazer, não tinha mais opções.

Andar, andar até o dia sair e entrar a noite, assim era o círculo normal da sua existência. Para não sentir-se sozinho tentou lembrar o que passara nos últimos dias, descobriu que não era possível lembrar-se de tudo, apenas ligeiros flash de tudo que fizera vinha a sua memória. Estranhou, mas tentou forçar sua memória, ela não ajudava mais, lembrou vagamente da Aldeia, do mergulho e do Peixe Grande Vermelho com manchas cinza e lembrou mais do próprio dia de hoje que começava ceder lugar à noite. Resolveu deitar, procurou uma árvore para deitar próximo dele e encontrou.

 

 

Otu foi a primeira a gritar como se aquele grito pudesse alertar todos: “olhem, olhem”

As pessoas que estavam no morro olharam na direção apontada por Otu e viram uma nuvem escura avançando rapidamente na direção dos sobreviventes da Aldeia. Aturu procure Evule e não achou, procurou Arumi e a viu ajoelhada junto de alguém que não conseguiu identificar.

Aturu olhou novamente em direção onde o sol se esconde e viu uma imensa nuvem escura vindo em direção da Aldeia, não mais conseguia entender nada. Mas as vezes as coisas acontecem sem ninguém entender direito, virando rapidamente viu Evule e mais três correndo em dizendo ao morro fazendo gestos.

Olhou novamente para as pessoas que estavam com ele em cima do morro e disse: “olhem, Evule está fazendo sinal”. Alguns que estavam pertos que escutaram olharam em direção para onde Evule mostrava. E viram Evule chamando com seus gestos, Otu desceu o morro e foi ao seu encontro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Evule falou: “Ali na frente tem uma gruta, da para nós passarmos a noite lá. Vamos, talvez seja a melhor coisa a fazer”

Otu voltou correndo e avisou quase todos, alguns foram com ela para o local descoberto.

Aturu foi encontrar Arumi e viu uma pessoa deitada, era Tilevu com o peito furado por alguma coisa, saia muito sangue.

Aruni respondeu: “foi uma ponta de pedra lá no Rio Ti, ele não tem mais força”.

Tilevu apenas falou: “vão, eu não vou mais sair daqui, não consigo e fechou os olhos”.

Arumi e Aturu perceberam que a nuvem escura estava mais perto e saíram correndo rumo à gruta que Evule achará.

Correram e encontraram mais alguém que corriam rumo à gruta. Entraram num espaço grande e profundo, a iluminação era boa, mas a medida que entrevam ela ficava mais reduzida. Talvez, sem a consciência estar plenamente cristalizada, alguns entraram nos corredores da gruta e seguiram em frente. Aturu entrou num corredor juntamente com mais seis pessoas e seguiu em frente. O corredor não era largo, mas o suficiente para poder andar rapidamente, o chão era formado por blocos de pedras, alguns em pé, outros inclinados e muitos deitados formando enormes trechos planos. Conforme o Grupo ia entrando no corredor, maior era o silencio, as vozes daqueles que ficaram na entrada da gruta diminuíram.

Arumi estava no Grupo e conseguindo adiantar o passo chegou onde estava Aturu e Evule. A iluminação agora não mais existia, Evule falou: “vamos continuar andando ou vamos parar?” Arumi pensando rapidamente respondeu: “vamos continuar andando, vamos andar mais devagar, nos apoiando nas pedras, aquela fumaça preta acho que vai nos fazer mal, talvez seja uma grande fogueira, penso que devemos seguir”. Aturu virou para trás e perguntou: “vamos continuar ou vamos voltar?”

O Grupo parou e Rutumi disse: não adianta ficar, lá na entrada já deve estar escuro como está aqui, mas aqui ainda não chegou a fumaça. Ela deve ter um cheiro forte, então vamos continuando em frente. Como ninguém mais falou, todos continuaram em frente, devagar, afinal não havia mais necessidade alguma de correr. A escuridão era absoluta, assim como o silencio. Evule ficou pensando como poderiam estar andando numa situação daquela, não enxergando nada e o que era pior, nem sabiam onde Ele e o Grupo estavam indo. Era provável que Aturu estivesse na frente, pois foi ele que quebrou o silencio com um pequeno e baixo barulho com a boca. “Há alguma coisa ali na frente, escutei um barulho”. Todos pararam e tentaram escutar o barulho que Aturu ouvirá.

Vurutu ficou olhando a nuvem escura se aproximar, olhou em direção a Aldeia e viu que eram poucas as pessoas que ainda estavam lá, pensou em correr, mas alguma coisa impediu. Poderia ser o medo, mas não era, algo dizia que aquela gruta não era segura. A nuvem chegou muito rapidamente na Aldeia, já estava no meio do Rio Ti quando Vurutu teve a idéia de subir na maior árvore da Aldeia. Não escutava barulho de fogo, apenas a nuvem negra que avançava, e num ato de curiosidade correu em direção á arvore mais alta e subiu. Enquanto subia viu a nuvem escura já entrando pela Aldeia, não escutou o barulho do fogo, apenas alguns gritos ali, acolá e de repente apenas o silêncio. Vurutu subiu até o ultimo galho e viu lá em cima tudo escuro, parecia que era tudo noite, até onde seus olhos viam tudo era escuro, negro. Bem lá longe conseguia ver o céu vermelho, já não sabia se era o sol caindo ou se era onde caira a grande bola de fogo.

Apenas sabia, seus olhos confirmavam que na altura onde estava, ainda havia uma claridade, havia luz por menor que fosse. No topo daquela árvore conseguia ver que aquela nuvem escura não era tão alta, mas Vurutu não tinha coragem para olhar para baixo, não sabia por que, mas a sensação que tinha era que lá embaixo muitas coisas estavam acontecendo, não sabia bem o que era, mas tinha certeza disso. Sua maior preocupação era em tentar descobrir se havia fogo junto desta fumaça negra. Até agora não escutara nada.

Otu percebeu que aquela fumaça era perigosa, pois assim que Ela chegou à Aldeia algumas pessoas começaram a gritar e caíram quietas no chão. Não sabia o que fazer e muito menos pensar sobre o que fazer. Olhou para dentro da gruta e viu alguns assustados, outros curiosos com o que estava acontecendo e viu também Tiguravi se perder dentro de um corredor. Pensou em seguir a mesma direção quando escutou uma criança chamar seu nome.

“Otu, o que vai acontecer agora?” era Aituro que lhe perguntava.

“Não sei o que vai acontecer, mas acho que não vai ser bom ficarmos aqui” respondeu.

Os gritos pararam lá fora, Otu não sabia precisar quantos ficaram na Aldeia, mas agora sabia que o silencio era absoluto, e num ato que misturava medo, instinto de fêmea pegou Aituro pelas mãos e começou a correr na direção que vira desaparecer Tiguravi. Ainda havia uma claridade suficiente para poder ver e entrando naquele corredor começou a correr, suas pernas ainda estavam em forma. Correu muito, logo a escuridão chegou e com ela o silêncio.

Quando a fumaça escura começou a entrar na gruta as pessoas não sabiam o que fazer, mas logo descobriram que não poderiam permanecer ali, o cheiro era insuportável, ardia os olhos, as narinas queimavam e forte dor de cabeça começou atingir a todos. Era um cheiro diferente, as pessoas nunca tinham sentido aquele odor, quem caiu e não foram poucos, não mais conseguiu levantar. A escuridão era completa, não havia mais saída, apenas a certeza que quem entrou e permaneceu naquela gruta nunca mais saiu. A fumaça foi invadindo todas as brechas e entrou também pelos corredores.

Ivituri acordou próximo de Vituluau que já estava sentado. Ambos olharam para Dalote que olhava para a fenda aberta no chão. Ivituri olhou para Vituluau e foram para perto de Dalote. Ficaram em silencio os três olhando para a fenda como que pensando o que poderia acontecer dali para frente.

Nem sempre é possível descobrir o que já aconteceu na Terra. Sua longa existência em termos de sua variada população será sempre uma incógnita, centenas de espécies, tanto animal como vegetal, aqui viveram, mas não deixaram evidencias ou talvez não tenham sido ainda encontradas. A Terra com seu processo adaptativo de milhões de anos nem sempre quis mostrar a sua peculiar história. Áreas que hoje são ocupadas pelas águas salgadas dos oceanos a milhares de anos serviram de palco de atuação para um numero inimaginável de espécies. Assim como o contrário, a dois milhões de anos também ocorreu.

O Grupo todo estava em pé, não havia vontade de sair do lugar, apenas existia uma vontade individual de permanecer parado, deixar o dia seguir seu fluxo normal. O esgotamento mental que estava estampado em cada um era evidente, mas não consciente. Olhar a fenda, olhar o restante do quadro cênico representava a mesma realidade existencial, eles representavam absolutamente nada, não tinham como produzir nada com a grandeza que viram ontem. Talvez, e isso sempre será uma

 

interrogação, a força conjunta do Grupo pudesse derrubar algumas árvores, mas nunca eventos como os que eles presenciaram nestes últimos dias.

 

 

Era esta sensação de impotência, de meros atores coadjuvantes, que ganhava personificação em todos e mesmo que não fosse comentado abertamente, todos descobriram cada um a seu modo que algo estava acontecendo com a memória. Os fatos já não eram mais recordados na mesma seqüência dos acontecido. Havia algumas lacunas, alguns acontecimentos eram confusos, outros, apenas estranhas reminiscências que logo, logo seriam perdidos para sempre.

O dia já estava claro quando Ruliri falou: “o que vamos fazer?”

Guviu olhou para o restante do Grupo, pensou em falar, mas não falou nada, apenas ficou olhando como se estivesse bem longe naquele exato momento.

Tavitu olhou para Ruliri e falou: “vamos nós dois ver o que Tunitu disse. Não temos mais razão para ficarmos sempre juntos. Mesmo que venhamos ficar juntos, o que isto vai representar? Nada. Não consigo mais pensar como pensava a algum tempo atrás, existem coisas acontecendo e não vejo mais razão alguma para ficar esperando que concordem ou não comigo. O que passamos nestes últimos dias mostram que não há mais lógica alguma nesta vida que estamos levando, se há quem nos ajudem melhor, mas isso não significa que devemos continuar juntos. Precisamos seguir nossos rumos, o seu, o meu, o da Guviu. O que vamos ganhar ficando juntos, apenas a ilusão que estamos fazendo alguma coisa. E se estamos fazendo isso será para quem?

Ruliri olhou para Tavitu em silencio, pegou o seu machado e falou: “então vamos ver o que Tunitu disse e olhando para Guviu perguntou: “Vamos?”

Muitas vezes o ser humano toma determinadas atitudes sem saber realmente as conseqüências e mesmo o porquê. Às vezes, num futuro que pode ser longo ou mesmo curto, as conseqüências aparecem. Se certas atitudes são impensadas não há como defini-las, haverá em ultima instancia a idéia da experiência, afinal para que serve a vida, apenas para vivenciá-la e isto é, a própria experiência em si. E os três, talvez o próprio Grupo também, estava a fim de levar esta possibilidade às ultimas conseqüências.  Não que a vida no Grupo era monótona, apenas fosse a própria vontade de sair, de procurar novos horizontes era a necessidade individual dos três. A vida é assim, não há motivos para permanecer no grupo e mesmo que ninguém falasse, havia individualmente em todos da Aldeia esta chama acessa de sair, sair para poder viver, para poder conhecer algo que saísse daquela rotina que “os mais idosos” pacientemente explicavam. Há uma determinada época da existência individual que o controle imposto pela sociedade, seja ela qual for, torna-se não mais importante, torna-se apenas um peso que custa muito carregar.

Ruliri começou andar na frente, Tavitu permaneceu um pouco mais recuado e Guviu ficou no meio deste quadro. Foram andando em direção a fenda, apenas olharam para o restante do Grupo e andaram em direção a uma das frases que Tunitu disse.

A fenda não era um espaço pequeno, o antigo solo cedeu e passou existir uma depressão relativamente larga, atravessá-la levaria um tempo que corresponderia até o Rio Ti e voltar ao centro da Aldeia.

A encosta, como que num capricho, facilitava a descida, o solo era agradável de percorrer, existiam pequenos trechos em que os três ensaiavam uma corrida, mesmo que isso acarretasse pequena dor lombar. Mas havia uma alegria, ou talvez uma sensação de bem estar, algo que os humanos não sentiam mais a muito tempo.

 

 

 

Conforme o Grupo descia, uma brisa agradável envolvia o ambiente. Algumas árvores estavam tombadas, outras mesmo caídas mostravam enormes raízes ainda enterradas como que tentassem mostrar uma fatalidade que não dizia respeito a sua própria existência. Tavitu parou um instante e olhou para trás e viu a distancia que haviam percorrido, tinham andado muito para dentro, o céu estava lá em cima. O ponto que eles tinham iniciado a descida estava lá, longe. Tavitu falou: “olhem como já andamos”.

Guviu começou a falar: “olhem como a descida tem cores diferentes”

Ruliri disse: “isso é algo que nunca vi, o chão parece que foi feito de terras diferentes, havia camadas distintas que formavam a encosta”.

Guviu falou: “vamos ver de mais perto isto, é muito diferente do que estamos acostumados a ver”.

Os três pararam a descida e caminharam para um trecho da encosta onde estas camadas estavam mais nítidas.

A encosta mostrou para os três diversas camadas que eram irregulares, e uma destas camadas despertou nos três uma curiosidade. Ela tinha a altura das pernas deles e era formada por pequenas pedras escuras.

As pedras tinham tamanhos irregulares, algumas, na verdade a grande maioria, obedeciam a certa orientação, como que tivessem sido depositadas ali ou abandonadas ali por uma força muito grande. Ruliri tentou puxar uma pedra que parecia estar colada a outra, fez muita força e conseguiu, finalmente com a ajuda dos outros dois, arrancar a pedra. Era uma pedra que se fosse colocada em cima de qualquer um dos três, ocuparia o tórax completamente.

Os três olharam aquela pedra e ficaram surpresos, ela era escura somente num lado, o restante dela era da cor do chão do Rio Ti. E dentro dela havia uma figura que lembrava algum animal pelo formato, mas seria um animal que eles nunca tinham visto. A impressão era que aquela pedra fora numa época talvez bem antiga um animal. Os três ficaram olhando para a pedra como se nela havia um animal dormindo. A pedra passou nas mãos dos três que não sabiam o aquilo representava, mas aquela figura deveria ter representado algo, o que eles não sabiam.

Ruliti recebeu de volta a pedra e olhando para Guviu e Tavitu colocou-a no chão e saiu de perto.

Tavitu olhou para o alto como que pedindo algo que nem ele sabia o quê, apenas conseguiu dizer: “Tunitu disse que nos iríamos encontrar coisas que ninguém sabia ou mesmo tinha visto. E acho que aquela pedra é uma destas coisas que ninguém viu”.

Guviu falou: “vamos continuar olhando mais para frente.”

E como seduzidos pelas camadas da encosta os três foram andando e olhando a encosta. Havia trechos na encosta que estavam tampados pela terra que havia caído durante a criação da fenda e eles passavam rapidamente por estes locais. Eles queriam ver mais estes trechos que mostravam cores diferentes.

Guviu num determinado momento falou: “vamos descer até o final e de lá a gente pode ter uma visão maior da encosta”.

 

 

 

 

 

 

 

 

Os dois outros concordaram e começaram a descer a encosta. Conforme desciam aumentavam os obstáculos. Haviam inúmeras árvores caídas, uma por cima da outra. Pedras que antes não existiam agora estavam à mostra, algumas em cima das outras, outras espalhadas como que mostrando uma área espacial própria. Algumas aves estavam caídas mortas, talvez estivessem nas árvores quando aconteceu a ruptura do chão, ou então, ninguém poderia explicar o que elas representavam.

Lá longe havia uma fumaça clara que brotava do chão, mas ainda estava longe. Conforme os três desciam a temperatura mudava, se no inicio da descida o ar era agradável, agora, havia uma brisa mais fresca, não havia barulho algum, o silencio, como sempre fora assim, acompanhava os três. Se eles não tivessem ali seria o mesmo, o silencio era a única presença marcante, era marca registrada de toda a Terra, por onde se passava, Ele estava presente.

Num determinado ponto, já no chão se assim poderíamos dizer, os três conseguiram ver uma pequena elevação, com algumas pedras servindo de obstáculo. Guviu falou: “se este trecho todo estava dentro da terra e agora nos estamos andando, como pode ter aquele morro?”. Ruliti olhou um pouco assustado para Guviu e olhou também para Tavitu como que pedindo uma opinião.

Tavitu ia começar a falar quando lá do alto ouviu-se um estrondo enorme e os três automaticamente levantaram a cabeça e viram nuvens escuras sendo cortadas por raios. Lá embaixo, no vale, o eco se espalhava com uma intensidade nunca escutada pelos três.

Se por medo ou por instinto próprio os três começaram a correr em direção ao morro que estava na frente deles. Os três sabiam que correr acarretaria dores lombares. Mesmo que fosse um sacrifício enorme para cada um apressar os passos, o barulho dos trovoes era algo apavorante para eles. Mesmo acostumados à chuva, fosse ela forte ou fraca, o barulho agora era muito forte, parecia que os trovoes estavam quase que em cima de suas cabeças. E nestas ocasiões, independente de qualquer coisa, o medo incorpora nas pessoas, mesmo que seja por breves segundos e produz efeitos descontrolados.

Conforme foram correndo para aquele morro começou a cair uma chuva muito forte, uma chuva que doía de qualquer maneira no corpo, conseguir ver o que tinha na frente tornava-se difícil. Se alguém estivesse olhando aquela cena não conseguiria entender o porquê da corrida dos três, não havia lugar nenhum para se abrigar, corriam, ainda que de uma maneira desconfortante, por que um dos três começará, apenas isso. Mas não, eles começaram a correr por que Tavitu viu quando ia começar a falar que aquele trecho que encobria a encosta estava  começando a cair. Mesmo que a distancia fosse relativamente segura, alguma coisa despertou dentro dele e associado ao estrondo, correr foi uma coisa natural.

O chão já começava a empoçar, era um espetáculo olhar os três correrem um tanto agachados, jogando a água por tudo que era canto nestes trechos que a água tampava o irregular chão. Em outros pontos pequena correnteza era formada por uma água barrenta, mas eram poucos estes pontos. Mas de qualquer forma a chuva forte enchia os espaços todos, o ar mesmo carregado apresentava um odor que nenhum dos três conhecia.

Conseguiram chegar até as pedras e num destes caprichos que ninguém encontra explicação, havia um espaço onde a chuva batia, mas foi possível ver que as pedras ofereciam um pequeno abrigo e para lá foram.

 

 

 

O espaço era reduzido, mas dava para abrigar os três. O chão estava úmido, a chuva não penetrava naquele abrigo e o mais importante, ele estava pouca coisa acima do nível do solo. Ruliti foi o primeiro a entrar naquele pequeno abrigo, seu primeiro ato foi passar as mãos na vista e assim esfregou os olhos teve a impressão que havia alguma coisa observando-o na sua frente. Na altura dos seus olhos começaram a correr pequenos pontos escuros, corriam por todos mos espaços que seus olhos observavam, e não sabendo o que aconteceu caiu pesadamente no chão. Ficou tudo escuro, apenas uma silhueta difusa parecendo um igual, mas muito maior que ele próprio foi o que ficou registrado na sua retina. Tavitu tentou segurar Ruliti na queda, mas não conseguiu, Guviu chegou apressadamente e se agachou. Ruliti estava imóvel, parecia que dormia. Guviu olhou para Tavitu e perguntou: “O que houve?” Tavitu respondeu que só viu Ruliti começar cair e tentou apará-lo, mas não conseguiu.

Guviu devolveu a cabeça de Ruliti no chão e foi olhar o restante do pequeno abrigo. As duas pedras apoiavam nelas mesmas, parecia que tinham roladas juntas e num destino que ninguém ousaria tentar decifrar, acabaram apoiadas nelas mesmas. Guviu andou um pouco e viu que no final daquele abrigo ficava o inicio do morro.

O morro era um pouco mais alto do que visto de longe, descia água da chuva, mas não em direção donde ela estava. A chuva ainda era forte, lá em cima os trovões continuavam a dominar a sonoridade do lugar. Guviu voltou para onde estava Ruliti e Tavitu, mas somente Ruliti continuava no chão, Tavitu não estava mais lá. Guviu chegou até a entrada do abrigo para ver se Tavitu estava por perto, mas não viu, pois havia uma parede de água que impedia a visão. E Guviu voltou para ficar próxima de Ruliti, sentou e ficou olhando a água da chuva cair. Talvez tenha ficado olhando a entrada na expectativa de ver novamente Tavitu entrar.

E a chuva não diminuiu, pois não era possível enxergar mais além, em muitos pontos do abrigo a água começava a empossar e nos cantos da entrada já havia pequenos trechos onde a água rolava para fora. Guviu teve a sensação que escutara um grito. Levantou e caminhou em direção a entrada do abrigo e teve a sensação de ter visto dois vultos enormes correndo. Suas cores mesmo com a chuva eram diferentes da sua, parecia ser uma cor mais clara, igual da cor da madeira que queimou. Lembrava a cor da cinza da fogueira. Não chegou a ter medo, pois novamente escutou um grito, só que desta vez o som lhe era familiar, era voz de Tavitu. Correu para fora na direção do grito e conseguiu ver, mesmo que embaçada pela chuva, Tavitu cercado por dois vultos maiores.

Os dois vultos não faziam nada apenas estavam parados olhando para Tavitu.

Muitas vezes o ato de descansar ou mesmo abandonar o dia não representa somente o ato em si, representa também a fragilidade diante dos acontecimentos e Kuru estava assim, vivera experiências que não tinha a menor idéia do que aquilo representava, não tinha como saber a própria veracidade de tudo que passará, lembrava esparsamente de algumas situações que ainda possuía na sua memória, mas mesmo assim, o descanso que estabelecera para si não era uma necessidade, era a descoberta que sua memória, e ele não tinha certeza disto, largara para fora de si mesmo muitas coisas que faziam parte da sua existência.

Não tinha certeza, apenas sentia que aumentara ou talvez diminuira o tamanho de um vazio na sua memória, tentou pensar o que estava    acontecendo com   ele próprio, mas  o  vazio

 

 

 

parecia ser muito grande, ou então precisava andar mentalmente era um caminho longo, ficou pensando e o que vinha na sua mente era apenas cenas breves e rápidas de suas ultimas aventuras. A Aldeia era uma imagem que não era completa, via apenas vultos, nada mais que isso e mesmo que tentasse firmar o pensamento nestes vultos não conseguia, não havia mais quem lhe fosse familiar e muito menos conhecido. Era tudo muito, muito estranho. Levantou e procurou encontrar um ponto, um referencial que lhe fosse conhecido, mas nada. Parecia que estava em algum lugar perdido. Olhou ao seu redor e a paisagem era diferente, mesmo a árvore em que estava apoiado algumas horas descansando não lhe era familiar. Havia nela algumas frutas que nunca que nunca virá na sua vida, mas mesmo assim era o que lhe definia como ainda vivo.

E com este pensamento na cabeça escutou barulhos diferentes que lhe fez ficar em alerta. Olhou novamente em redor e viu que a paisagem mesmo estranha, diferente possuía o que lhe fora comum até agora, arvores, trechos com capim e trechos de terra, ora vermelha ora da mesma cor da beira do Rio Ti. Kuru descobriu agora que sua audição esta muito ampliada e olhando para sua esquerda, em frente, surgia o barulho e num movimento que lhe surpreendeu, subiu rapidamente na árvore.

Não demorou muito para ver que o barulho eram três animais enormes que vinham andando no chão. Andando seria uma maneira muito simples de ver, eles estavam se arrastando e cheirando tudo que estava no chão como que procurassem algo ou alguém.

Kuru num movimento de defesa subiu um pouco mais na árvore e ficou olhando aqueles três animais. Eram da cor da terra, possuíam algumas patas, quatro com certeza, que serviam apenas para desviar da rota previamente estabelecida por eles. Seus comprimentos eram variado, cada um deles era de tamanho diferente, a diferença era pequena. Eles pararam a uma distancia segura para Kuru. O maior deles virou de barriga para cima e ficou se encolhendo rapidamente. Os outros dois ficaram um de cada lado olhando o que estava acontecendo.

Não demorou muito e então aconteceu o que Kuru nunca vira na sua vida, a barriga daquele que estava se encolhendo começou a abrir no sentido longitudinal de seu corpo. Conforme a barriga ia se abrindo começou a ouvir gritos ou talvez barulhos estranhos. Mas uma certeza Kuru passou a ter o som não era de dor, era um som controlado, poderia dizer até que era um som repetitivo. Conforme ia passando o Tempo, um deles que era o menor dos três começou a ficar como que de costa para a cena e ficou imóvel parado olhando para longe.

De repente se fez um silencio e o animal que estava deitado levantou-se e da sua barriga caiu alguma coisa. Kuru pensou que era o nascimento de um filho, mas não, o que Ele viu naquela queda iria mudar sua vida para sempre. Aquilo que caiu, ganhou forma muito rapidamente, não aprecia em nada com aqueles três que estavam ai. Se os três se arrastavam, “o recém nascido” não ficara sentado pouco tempo e já estava em pé. Em pé, numa altura quase que do tamanho de Kuru, gritou. Seu grito não tinha o som de algo novo, pelo contrário, o som que saia era um som muito grave, abafado, parecia o som de algo pesado. Assim que o som se espalhou pelo espaço apareceram algumas aves que fizeram um circulo em redor dos quatros animais que Kuru nunca vira.

 

 

 

 

 

 

 

 

O número das aves era muitas vezes maior aos quatro animais e num acontecimento que ficou marcado para Kuru, as aves pegaram primeiro “o recém chegado” que agora possuía um aspecto completamente diferente e começaram a colocá-lo por cima da maior ave, como se fossem velhos conhecidos. Os outros três animais também foram acomodados nas aves. Não havia, pelo mínimo foi essa a impressão que Kuru teve, menor esforço das aves com o peso daqueles animais.

Se foi descuido ou qualquer outra coisa não foi possível destacar, mas o galho onde Kuru estava caiu e na queda Ele gritou de susto. Seu grito cortara o silencio daquela cena que estava vendo. Sua queda foi aparada pelos galhos abaixo da árvore, mas fora suficiente para chamar a atenção de todos que estavam próximos.

Quando Kuru chegou ao chão algumas aves já estavam próximas. Não houve tempo para nada, apenas o encontro do inesperado.

E como todo encontro do inesperado qualquer movimento, qualquer pensamento ou mesmo olhar ganham significados múltiplos. Kuru agora podia ver melhor as aves. Se lá da arvore elas pareciam terem cor cinza, agora, próximas até de mais, a cor era azul. Não havia como saber se elas tinham bocas ou bicos. A parte superior do seu corpo era muito parecida com uma fruta que o Grupo usava para alguns rituais que Ele não lembrava direito. Havia um olho, apenas um olho muito grande no centro da parte superior. Ele ficou em pé, sem mexer as mãos e ficou olhando com os olhos bem abertos para aquelas aves.

Neste curto espaço de tempo a ave que carregava “o recém nascido’, chegou próximo de Kuru e começou a falar alguma coisa que Ele não entendeu. O som daquela voz parecia o vento forte no meio das árvores. Era um som agradável, mas não havia como entender nada.

Kuru apenas movimentava a cabeça para os lados como que tentasse também responder aquele som da ave com “o recém chegado”. Não havia menor movimento de compreensão entre aqueles que estavam naquele quadro. Como que mostrando importância ‘o recém chegado’ saltou da ave e foi em direção de Kuru.

Seu corpo estava em pé, possuía apenas duas patas que estavam bem juntas, e pareciam que não tinham muito aberturas para correrem. Sua constituição era semelhante a um animal que “os mais antigos” chamavam de Tankutivan. Era um pouco menor que Kuru, porem mais largo, possuía dois olhos, de cor preta como à noite, não tinha nada dentro deles apenas a cor preta. Não possuía braços ou não foi possível ver se os tinha.

Kuru pensou em ir à sua direção, mas algo em sua mente negou tal movimentação. “O recém-chegado” foi andando em direção a Kuru olhando fixamente nos seus olhos. Neste caminho Ele começou a entender o que estava acontecendo.

“O recém-chegado” contou que Ele era o resultado de um acordo que fora feito a muito tempo atrás entre o seu povo e as aves azuis. Este acordo fora feito numa Reunião que existiu num Lago, mas não fora comprido porque a reunião durou pouco tempo, nem todos que nela participaram puderam falar. Kuru respondeu também olhando fixamente nos olhos do “recém-chegado” que “os mais velhos idosos” do seu grupo falavam sempre desta reunião que fora a muito tempo atrás.

 

 

 

 

 

 

 

“O recém-chegado” falou que o seu destino era morar muito longe dali com as aves azuis e que seus familiares iriam junto, pois eles eram os últimos do seu povo. Seu povo morava em grutas a muito tempo, mas não conseguiram sobreviver as lutas contra os animais que possuíam dentes muito grandes nas bocas. Eles eram muito fracos e eram também presas fáceis para esses animais. Então, teve um antigo deles que falou deste trato com as aves azuis, que nunca época antiga, eles cuidaram da varias aves azuis logo após a Reunião no Lago. As aves azuis eram perseguidas em pleno vôo por algumas aves cinzentas e pelas amarelas que possuíam bocas grandes com muito dentes. O motivo desta perseguição foi o fato que alguém espalhou entre os animais que estas aves grandes com bocas grandes com muitos dentes fora o resultado de um namoro entre elas e os Kumbaretueta, que eram os crocodilos que Kuru ouvira “os mais antigos” falarem que “os mais idosos” contavam. Mas Kuru nunca vira nenhum Kumbaretueta, nem sabia se existiam ainda.

O povo do “recém-chegado” era parecido com os Kumbaretueta, só que não era agressivo e por causa disto tiveram que fugir e se esconder nas grutas.

E nesta fuga eles encontraram várias aves azuis que também estavam fugindo. Passado muito tempo as aves azuis foram para longe, mas firmaram um pacto de ajuda com o “povo do recém-chegado” que num futuro que ninguém sabia quando era, eles iriam levar “o recém-chegado” e sua família para bem longe. E o sinal era aquela imensa bola de fogo que iria destruir o local onde elas moravam.

Kuru olhando para “o recém-chegado” perguntou o que estava acontecendo, pois ele não conseguia mais se lembrar de nada. “O recém-chegado” falou, olhando nos olhos de Kuru, que haveria alguma coisa no ar que iria aos poucos mudando toadas as formas de vida que existia e que logo todos não mais iriam falar nada, pois se esqueceriam de tudo e de todos. Desta forma Kuru já estava começando se esquecer de tudo e de todos, mas que isto iria durar algum tempo.

“O recém-chegado” falou também que seria melhor para Ele ficar duas luas onde estava. Que ali era menos perigoso, e que o Tempo iria ficar muito diferente. Haveria um tempo escuro por causa daquela bola de fogo no céu e que nesta época curta ninguém estaria salvo. “ O recém-chegado” olhou para Kuru e desejou sorte e se Ele precisasse dele era só pensar nele e riscar no chão um círculo com uma pedra que brilhasse à noite.

Eles foram embora e Kuru ficou novamente sozinho.

Descobrir o que se passou na Aldeia já não era mais possível, a fumaça escura além de matar todos os seres vivos que encontrava pelo caminho, parecia agora ter vida própria, ocupara o espaço da Aldeia já por muito tempo, talvez dois ou três dias, Vurutu em cima da árvore apenas conseguia compreender que lá longe, muito longe havia claridade, mas era muito longe e não pensou sair da árvore. Como a temperatura era fresca lá em cima a água não lhe fez falta nestes três primeiros dias. Procurou ficar a maior parte do tempo imóvel, para isso cortou alguns cipós e se enrolou neles para não cair. Amarrou fortemente um cipó no tronco e deixou uma parte folgada no seu corpo. Caso dormisse e caísse, o cipó iria segurar sua queda.

Vurutu tentou lembrar o que estava acontecendo nos últimos dias e por mais que tentasse lembrar o que aparecia em sua mente era flash sem referencias entre si. Lembrou vagamente do Rio Ti, a Aldeia que possivelmente era agora nada mais que cinzas e lembrou sim de Turue, mas não teve bom pressentimento.

 

 

 

 

 

Aturu ficou quieto tentando melhorar sua audição, o barulho que escutará estava mais adiante, não era um barulho forte, mas era sim um barulho quase que constante. Além deste barulho quase que constante a maior preocupação era com a escuridão. Rutumi chegou perto de Aturu e perguntou: “e agora?”

O Grupo todo estava formado bem próximo. Aturu perguntou se alguém trouxera alguma lenha para fazer fogo e iluminar o corredor. Fez-se um silencio, mas Tiguravi disse: bem mais atrás eu vi uns pedaços de tronco de árvores no chão, mas será demorado ir até lá e será que é necessário iluminar este caminho?

Enquanto eles falavam o barulho parou e eles pararam também de falar. O silencio durou pouco tempo foi quebrado pelo deslocamento do ar, que talvez por ser um espaço fechado, canalizou o ar. Por um gesto puramente de sobrevivência todos se jogaram no chão e sentiram no ar o deslocamento de um numero impossível de ver de pequenas aves que passavam por onde eles estavam. Com pouco barulho, apenas a sensação de movimento das asas, as aves passaram. Se durou muito tempo não se sabe, mas pouco depois elas estavam voltando e com um alarido que assustou a todos os humanos.

O pânico, o medo, a escuridão tudo isso contribuiu para que os gritos dos humanos misturassem com o alarido das aves que sem sombra de duvida estavam voltando. O por quê que estavam voltando eles não sabiam, apenas sabiam que algo esta acontecendo. Avule gritou: “vamos seguir em frente, vamos ver se conseguimos sair em algum outro ponto”

Em certos momentos da vida certas decisões são tomadas sob o efeito do momento vivenciado e se alguém pensou realmente em algo para contrapor a idéia de Avule não teve coragem, afinal, os gritos, a escuridão e as aves, se é que aquilo que estava passando por cima eram aves realmente, com seus alaridos estabeleceram apenas a sensação de fugir dali. E não podendo saber qual era a frente todos começaram a andar no meio daquela escuridão completa. Talvez o pavor que era carregado por cada um dos indivíduos daquele Grupo levou a seguir o alarido das aves que pareciam que estavam fugindo de algo.

Nesta fuga às escuras ninguém falou ou não tiveram coragem para falar, apenas começaram a andar mais rápido. E andando Rutumi pisou em algo no chão que lhe pareceu familiar e gritou: “aqui tem lenha”.

Alguns pararam, nem todos. Rutumi se jogou no chão, sobre uma pedra e ficou tateando até achar um pedaço de um galho seco, esta foi a sua primeira impressão. Pegou o pequeno galho seco e começou a riscar no chão com o machadinho que trazia junto.

Naquela época, talvez fossem assim também mais tarde, isto é, mais recentemente no processo evolutivo da humanidade, o fogo era feito com um pequeno pedaço de pedra vermelha que raspada com força numa superfície qualquer ficava quente rapidamente. Esta superfície poderia ser outra pedra qualquer ou mesmo numa casca de árvore. O que era necessário era que a superfície fosse dura, o chão não servia. Talvez isso explicasse porque todos os humanos conhecidos fixavam moradias, mesmo que fosse por pouco tempo, em lugares que existiam blocos de pedras ou árvores. Este era um requisito básico para as aldeias ou moradias, e em segundo lugar, nesta época, era a água.

 

 

 

 

 

Nesta região que o Rio Ti cortava era assim, mas em outras regiões talvez não fosse assim e desta forma era provável que o fogo ficasse acesso sempre. A pedra vermelha era encontrada na Região do Rio Ti era fácil de ser obtida, geralmente ficava rente ao chão. Próximo do leito do rio havia uma grande extensão junto do barranco e os recém-nascidos na época mais fria eram levados para lá pelas avós para não ficarem com frio. O chão nesta época era um pouco mais quente. Quem descobriu que essa pedra servia para fazer o fogo tinha sido alguém que o seu nome não podia ser mencionado, pois segundo alguns dos “mais antigos” somente na época de uma festa ou ritual que demorava muitas luas para ser realizado era possível falar.

Contavam “os mais antigos” que neste ritual que era presenciado somente por crianças, tanto pelas meninas como pelos meninos, aparecia da fogueira principal quem fizera o fogo pela primeira vez. Este ritual era basicamente simples. Na época em que era realizado acontecia algumas coisas que indicava que era a época de realizar o Ritual do Fogo. Uma lua antes surgia no Rio Ti sempre de manha vários peixes boiando queimados. Eram os peixes chamados Nuvuturatin, que significava os peixes pequenos do Fogo. Estes peixes não eram encontrados sempre, pareciam que eles não faziam parte do Rio Ti, ninguém encontrava esse peixe, aprecia que Ele não existia, aparecia na época certa.

Se aparecesse seis ou três ou mais peixes significava que esse seria o numero de fogueiras que deveria ser feita. Além destas fogueiras era feita como que no centro do local onde ficava estas fogueiras uma maior e era nela que quem conseguiu capturar o Fogo aparecia.

Quando havia muitas crianças na noite anterior elas sabiam em que fogueiras ficariam.

A noite que antecedia o Ritual do Fogo era data mais crucial deste ritual. Ninguém sabia por que, mas as crianças acordavam e saiam da cabana onde dormiam com seus pais e ficavam geralmente reunidas em três ou quatro num ponto qualquer do local onde seria realizado ritual.

Neste local era onde seria feita as fogueiras. Somente após a escolha dos pontos das fogueiras, é que, no momento que o sol estava no alto, era escolhido o local da fogueira maior. Ninguém sabia como ou ninguém quis pensar a respeito, mas no momento em que o sol estava a pino saia do chão uma fumaça, este era o local onde deveria ser feita a fogueira maior.

Este Ritual do Fogo significava muito para aquele Grupo. Um dos muitos significados era que nunca chovera naquele período de uma lua quando era preparado o ritual. Havia entre um ritual e o próximo um espaço muito grande de tempo, as crianças que participavam deste não poderiam ter seus nomes começados com as letras do nome dos peixes queimados e ninguém possuía estas letras. Havia uma preocupação entre as futuras meãs de não ganharem seus filhos nesta época do Ritual do Fogo. “Os mais antigos” diziam que “os mais idosos” contavam que quem nascesse nesta época era como o fogo difícil de ser controlados, não obedecia ninguém. E sempre, nunca houvera uma exceção, largavam tudo e todos. Eram quem deixavam a Aldeia e sumiam. Ninguém sabia mais deles. Era tanto homens e ou mulheres.

Esta saída ou abandono da Aldeia ninguém conseguia explicar. Ninguém “dos mais antigos” falava ou tocava no assunto, era um dos poucos temas que era Tabu. Existia um silencio neste assunto.

 

 

 

 

Quando era realizado este Ritual os adultos saiam da Aldeia, iam para o outro lado do Rio Ti e lá passavam a noite. Somente “a mulher mais velha” participava no Ritual do Fogo com as crianças.

No dia do Ritual do Fogo as fogueiras eram preparadas até antes do meio dia. Independente do numero delas, eram prontas antes do meio-dia. Quem participava da montagem destas fogueiras não participava do preparo da fogueira maior. A fogueira maior era preparada somente por mulheres que procuravam às arvores para a construção.

O que às vezes acontecia também era o fato de algumas crianças ajudavam na montagem desta fogueira maior. Isto “os mais antigos” diziam que representava que o Fogo sempre seria um aliado destas crianças.

Quando o Ritual do Fogo começava as crianças ficavam de frente e de costas para a fogueira, segurando uma pedra, um machadinho ou uma vara que representaria uma lança. Cada criança escolhia o queria segurar. Quando acabavam as fogueiras menores elas pegavam as crianças e passavam no corpo inteiro e ficavam juntas ao redor da fogueira maior que era acessa pela “mulher mais idosa”. E repetiam os mesmos atos que fizeram nas fogueiras individuais. Quando o fogo da fogueira maior atingia uma intensidade maior, geralmente devido as folhas secas, elas jogavam o que traziam nas mãos, as pedras, os machadinhos ou a vara que representava uma lança.

Era neste momento que surgia o Homem que capturou o Fogo e falava coisas que poucos conseguiam ouvir. Quem ouvia dizia que não podia falar o que escutara, mas todas as crianças diziam que ficavam arrepiadas, seus pelos ficavam em pé e viam um vulto enorme sobre a fogueira falando, gesticulando e o principal, levando todas as coisas que as crianças jogaram na fogueira. Estes objetos ficavam colados no seu corpo, esta era a certeza que existia “o Homem que capturou o Fogo”. O que as crianças jogavam na fogueira ficava sobre o fogo e formava o vulto do Homem.

Este era o momento que as crianças sem saberem de nada passavam a descobrir pela experiência própria que o Fogo alguém conseguiu capturar e dominar e que assim teriam que continuar. O Fogo era para o Grupo a consciência que Ele poderia vencer qualquer coisa e as crianças passavam a partir de agora carregar sempre a pedra vermelha junto por experiência própria, não lhe fora ensinado, elas, pelo contrário, aprenderam pela experiência própria e isso no decurso da vida de cada uma ganhava importância fundamental.

A criança só poderia participar uma vez deste Ritual e sua importância junto à Aldeia era destacável, mas isso não implicava que as outras crianças que não participassem fossem menos importantes. Todas eram. Apenas havia essa possibilidade única e nos últimos tempos inúmeras crianças não participaram deste ritual, pois não apareceram mais Nuvuturatin.

Rutumi não demorou deixar o machado vermelho em brasa e colocou junto ao galho seco e logo com o seu sopro e o vento que corria pelo corredor as labaredas apareceram. Passado alguns instantes o fogo ganhou corpo e lentamente o local foi sendo iluminado. Vários outros galhos foram encontrados e acessos.

Junto a Rutumi estavam Vuturu e Arumi, os outros provavelmente deveriam estar mais adiante. Com aqueles galhos acessos a iluminação foi mostrando o corredor que era relativamente algo, mas era comprido. Sua altura naquele ponto era equivalente a três seres humano em pé. O chão era formado por blocos de pedras, possivelmente caídos. Mas não eram pedras escuras, pelo contrario, eram relativamente claras, eram também cortantes e alguns pedaços pequenos tinham o formato de pontas.

 

 

Possivelmente se alguém esbarrasse neles iria se machucar. Mesmo com essa iluminação precária era melhor que nenhuma, eles avançaram devagar, pois o vento conforme iam avançando parecia que aumentava.

 

 

 

Andaram e conforme avançavam o corredor ia se abrindo, neste percurso encontraram o restante do Grupo que estava parado numa reentrância do corredor quando viram uma luz que vinha por atrás.

Agora como se este encontro fosse uma segurança maior o grupo seguiu em frente. As aves não estavam próximas, pois o alarido delas havia sumido, mas conforme o grupo avançava o encontro parecia inevitável. Bem mais na frente o Grupo encontraria estas aves.

O Grupo avançava lentamente, mas ia em frente, o chão de alguma forma ajudava, não havia mais irregulares, não havia mais pedaços de blocos caídos, o chão era ligeiramente inclinado para o lado esquerdo, nada que impedisse alguém andar. O que se passava na cabeça de cada um era impossível de se saber, no meio do percurso andado foram encontrados mais galhos secos que foram recolhidos.

Tivelu estava na frente quando a poucos passos viu alguma coisa se mexendo no chão. Todos pararam e foram se aproximando lentamente, Rutumi acendeu mais um galho e ficou mais de lado, andando rente à parede. Caso houvesse necessidade Ele avançaria para aquilo que se mexia no chão com o galho em fogo.

Conforme iam se aproximando daquilo que se batia no chão, foram descobrindo que era um animal, uma ave pelas asas. Vuturu e Arumi com as tochas chegaram mais perto e viram uma ave com a metade do tamanho deles se rolando no chão. Suas asas eram do tamanho do braço de uma criança, não aprecia haver nenhum machucado visível naquela ave. Era bem maior do imaginavam. Sua cabeça era relativamente grande, comprida, seus olhos eram de tamanho proporcional ao tamanho da cabeça, sobre os olhos havia uma saliência que os protegia Sua boca poderia ser considerada grande, mas não correspondia ao comprimento da cabeça. Possuía duas pequenas patas, mas com garras que pareciam mais duas armas do que patas. Seu corpo era de uma cor cinza, quase escura, mas no dorso de seu corpo havia uma cor diferente, parecia vermelha, mas não era um vermelho como o sangue, parecia um vermelho misturado com a água da chuva na terra, lembrava a cor da lama. Era, enfim, uma cor incomum.

A ave assim que viu aqueles indivíduos se aproximando tentou ficar em posição de vôo, mas suas pequenas patas não conseguiam e seu corpo, como se tornasse misteriosamente pesado, caiu para frente e tombou de lado. A ave ficou imóvel. Mas os humanos ficaram numa distancia segura. Ninguém nunca vira aquele tipo de ave e num primeiro momento o medo tentou se personificar. Tuvelu foi o que mais se aproximou da ave caída, Avule ficou próximo e logo atrás estava o restante do Grupo e Ritumi ainda próximo à parede.

A ave tentou mais uma vez ficar em pé e novamente caiu imóvel. Passado algum tempo Aturu pegou um galho mais comprido e tentou balançar a ave, esta como se estivesse assistindo tudo abriu a boca e agarrou com uma força descomunal aquele galho e quebrou-o com seus dentes. Rutumi avançou direto na cabeça da ave e desferiu um violento golpe com a tocha na cabeça da ave. Foi suficiente para acabar com aquela situação.

 

 

A ave não emitiu nenhum grito, pois sua boca ainda estava fechada com um pedaço de galho.

Aturu saiu de perto com o restante do galho na sua mão e foi em direção à parede e bateu com força na pedra, o galho não resistiu e ficou pendurado na sua mão. Ele voltou andando rapidamente e disse: “nunca vi essa ave, mas a sua força é muito grande, ela quebrou com os dentes o galho e eu testei na pedra com toda a minha força e o galho só rachou”.

Todos olharam para Aturu e olharam para a ave imóvel no chão. Rutumi se ajoelhou próximo à ave e com o que sobrou da tocha mexeu várias vezes no seu corpo. A ave não deu sinal de vida, então Ele começou a puxar, ou melhor, tentar puxar o toco que estava na boca da ave. Depois de muito esforço conseguiram abri a boca da ave, Vuturu ajudou Rutumi. O que chamou a atenção de todos foram os dentes da ave, eram muito brancos. Eram vinte dentes, os que estavam no inicio da boca, mais internos eram pequenos, conforme iam saindo para fora ficavam maiores, mas não eram pontiagudos.

Aturu falou: Temos que ir em frente, algo assustou estas aves, pois elas voltaram. Não sabemos o que é, mas temos que seguir na mesma direção. Ninguém nunca viu estas aves, elas não avançaram em nós no inicio quando passaram por nós e quando voltaram nem pensaram em nós. Vamos andar mais um pouco e ver onde iremos parar. Agora, se lá na frente elas nos atacarem vamos tentar nos defender. Parece que são muitas. Se acharmos mais galhos vamos levar, talvez o fogo assustem estas aves, não sei.

E o Grupo seguiu em frente e encontraram várias aves no caminho mortas, mas não perderam mais tempo e foram em frente.

Tuguravi começou a correr para dentro do corredor como nunca tinha corrido antes, não sabia bem o que acontecia com ele, apenas corria. Talvez fosse medo, mas com certeza não era. Havia uma sensação muito diferente dentro de si, não conseguia compreender e nem tinha tempo para tentar. Mesmo a dor que existia nestes humanos quando corriam muito tempo, agora não era somatizada. Apenas seguia ou quem sabe obedecia esta sensação da necessidade de correr.

O chão era liso, ainda era possível ver mesmo com a claridade que ia diminuindo consideravelmente. Tiguravi parou, ou melhor, diminuiu a corrida, sentia uma dor muito forte nas costas, parecia que os músculos estavam querendo saltar fora.

Suas pernas, sem sombra de duvidas, pequenas e não preparadas para estes rompantes que a sensação impunha, começaram a tremer sem para e Tiguravi ficou sentado junto a alguns tocos de arvores que estavam no canto do corredor.

Em quanto descansava ficou olhando onde estava. Aquele trecho do corredor não era estreito, pelo contrário, era largo. Mas logo ali na frente havia uma parte que seguia reto e outro menor que seguia outra direção.

Não havia barulho algum. Tiguravi ficou olhando para os tocos de arvores no chão. Pelo pouco que conhecia de árvores não conseguia lembrar se conhecia aquelas e estranhou quem poderia ter trazido elas para o interior deste corredor. Não havia muita lógica nesta observação e como não existiam possibilidades de melhores averiguações achou melhor se concentrar em algumas medidas de defesa. Não tinha nada além dos galhos secos da árvore que não conhecia e do seu machado. Ou seja, não tinha ninguém por perto e estava completamente sozinho se caso aparecesse algum perigo; bom, perigo sempre existe e o melhor é não pensar sobre, afinal ele e o Grupo estavam vivendo uma nova época, os fatos estavam ai para comprovar.

 

 

 

 

 

Tiguravi teve a nítida impressão que escutou passos, como ainda havia um pouco de claridade ficou em alerta. Não demorou muito para escutar passos em corrida. Mesmo estando longe, talvez a própria configuração do corredor estimulasse a audição e não levou tempo para ter certeza desses passos. A escuridão era absoluta, e os passos já estavam bem nítidos.

Não restava nada mais a fazer senão perguntar quem estava chegando. Não era ninguém estranho, pois Ele sabia que não havia ninguém diferente. Quem estava chegando só podia ser da Aldeia. Escutou antes de falar um pequeno grito que aprecia ser de uma criança. “Quem vem ai” perguntou com a voz um pouco alta

“Quem está ai” veio como resposta.

“Sou Tiguravi …, começou a responder.

“Sou Otu e estou com Aituro”, à voz falou

“Estou aqui na frente, venha devagar, pois estamos na escuridão completa”.

Otu e Aituro chegaram e se tocaram no escuro.

Tiguravi falou: “tem alguns galhos secos aqui, vamos fazer fogo e vamos seguir em frente”

“É melhor a gente descansar um pouco, estou cansada e Aituro também”.

“Conte como esta a Aldeia, eu vi todos apavorados lá na entrada e quando entrei na Gruta vi este corredor, entrei e comecei a correr como nunca corri na minha vida”, explicou Tiguravi.

“Olha, eu acho que quem ficou lá morreu. A nuvem escura é prejudicial para nós, vi muitos caírem e não levantaram mais. Vi gente tossindo e também fiquei com medo e como vi você entrando neste corredor, vim atrás. Mas antes peguei o Aituro junto e viemos também correndo. Acho que ninguém sobreviveu La na Aldeia e na Gruta também. A nuvem invadiu a gruta, é provável que vá chegar aqui também”, falou Otu.

“Descanse, eu vou fazer fogo e vou mais adiante um pouco, ali na frente tem dois caminhos, eu vou entrar no menor e ver onde ele vai chegar. Ai eu volto e depois a gente pensa como vamos fazer”

“Ta bom” respondeu Otu que se jogou no chão ao lado de Aituro que aprecia que já estava dormindo.

Tiguravi escolheu alguns tocos e fez fogo, olhou para Otu e Aituro e saiu.

Andou em frente, não tinha mais preocupação, apenas andou. Logo conseguiu ver os dois caminhos e entrou no menor. Não conseguiu andar muito, o cheiro era forte. Conforme foi andando no corredor menor o vento apareceu e a sua chama apagou, ficando apenas umas brasas no toco. Tiguravi levantou o toco e o fogo apareceu novamente. Mas desta vez a chama iluminou e Ele conseguiu ver que a escuridão era maior. Deveria ser a nuvem escura que entrara junto com o vento. Mesmo se sentindo tonto voltou rapidamente para encontrar Otu e Aituro. Não precisou voltar muito, os dois já estavam também na procura dele.

“Acho que a nuvem preta já está aqui, o que vamos fazer” perguntou assustada Otu

“Vamos para aquele outro corredor ver se há como escapar” respondeu Tiguravi.

E assim foram, entraram no corredor maior e seguiram em frente.

Aituro falou: “vamos seguir em frente, daqui a pouco vamos encontrar água e lá vamos ficar até esta nuvem escura ir embora”

 

 

 

Otu olhou para Tiguravi e não falou nada.

Andaram correndo, parecia que a nuvem escura ainda não entrara naquele corredor, mas deveria ser questão de tempo. A tocha na mão de Tuguravi apenas balançava, mais na frente ela caiu e na queda se apagou quando bateu no chão.

Otu falou rapidamente: “vamos andar no escuro”.

E assim, talvez com medo, mas ninguém falando nada, foram em frente. Andaram mais, não tinham nem como saber se estavam andando num caminho reto ou não. Estavam se apoiando na parede. Era uma caminhada diferente, nunca tinham feito isto antes. Apenas a parede servia de destino e ela era ora fria ora morna. Não tinham como saber como era aquela guia estática. Mas era o que existia. O silencio era completo.

Andaram devagar, pois Aituro não podia andar muito rápido. Parecia estranho, como deveria ser andar num caminho que não conheciam e mesmo andar com uma tocha de fogo rente a uma parede que se apresentava ora morna ora fria. Mas existem ocasiões que determinadas realidades devem ser colocadas de lado, pois não é possível conhecê-las como deveria ser. Ainda mais fugindo de algo desconhecido e sem referencia alguma como era aquela nuvem escura.

Mesmo que a iluminação fosse pouca, havia uma visibilidade de alguns passos à frente, era bem melhor que a escuridão. Num determinado ponto da caminhada a sensação que passou a existir era um vento maior que vinha pelas costas dos três. Tiguravi falou: “no outro corredor o vento veio pela frente, agora não. Se este vento é o mesmo daquele outro, já deveria termos sentido um cheiro forte e o vento seria mais escuro ainda, mas de qualquer forma a nuvem escura ainda não está aqui.

Se a iluminação era fraca a visão mesmo que em condições adversas cria mecanismos que estimula a concentração naquilo que vem pela frente e foi talvez estes estímulos que fizeram os três perceberem que o caminho do corredor começou a descer e desceu muito rapidamente, como se fosse a ausência do chão, como se estivessem caindo. Parecia engraçado, mas os três começaram a correr sem querer, o declive era propicio a esta descida rápida. Otu olhou para Aituro e viu que em sua face estava estampado algo diferente, era como se aquilo tudo fosse brincadeira. Otu achou muito estranho, mas não teve tempo de pensar muito, o barulho de água correndo logo na sua frente foi mais forte.

Tiguravi já estava acendendo outra tocha quando parou e disse: “há água na frente, vamos devagar para sabermos o que é isso”

Caminharam mais um pouco e viram uma área relativamente grande cheia de água e algumas árvores pequenas espalhadas nela. Eram árvores diferentes, não tinham muita altura, mas possuíam troncos pequenos e os galhos eram enormes e apontavam para o alto. Não tinham como saber que mistério era este, mas algo se cristalizou na mente dos três humanos, aquilo ali na frente não era seguro, havia algo ali que não estava correto, estava estranho.

Aituro correu em direção á água, se abaixou para beber quando colocou as duas mãos na água falou: “ela está morna”

Tiguravi também correu em direção à água, mas num relance seus olhos perceberam um movimento do outro lado. Era algo que se movimentava em direção a eles e nem teve tempo de pensar, apenas puxou Aituro para trás e gritou: “vamos voltar, vamos voltar”

Otu, que pegou a tocha no chão também viu um movimento na água e que agora aumentava de volume e aumentava também a velocidade do deslocamento, gritou talvez paraq colocar o susto para fora, não soube o que fazer por um tempo muito reduzido,

 

mas quando sentiu as pernas de Aituro bater nas suas a realidade voltara estar presente e isto significava muitas coisas, mas a mais palpável era o imenso movimento da água.

Sem saber como se virou e começou a correr. Correram os três uma distancia qualquer e pararam. Olharam para trás mesmo sabendo que não poderiam ver nada pela falta de iluminação. É provável que o medo e o susto estivessem estampados naqueles três rostos peludos, mas pior que isso era a sensação de alguma coisa estava para acontecer.

Otu falou num tom baixo como se estivesse registrando para seus dois companheiros a gravidade do momento: “vamos fazer mais duas tochas de fogo, aquela que ficou lá não serve mais”

Aituro se abaixou e pegou dois tocos e tateando entregou para Tiguravi que rapidamente começou a esfregar sua pedra no chão. O vento que minutos antes existia agora desaparecera, não havia nada além da respiração ofegante dos três. Talvez fosse ainda o impacto do desconhecido, mas Tiguravi não conseguia acender o fogo.

Otu assustada falou: vem vindo alguma coisa, da para escutar.

Aituro procurou mais tocos. Eles estavam já na subida do caminho quando o barulho de alguma coisa estava mais próximo e conseguiram ver o que era quando a tocha ficou acessa.

O que viram foi acompanhado por três gritos de tonalidades diferentes e de duração também diferente. Estavam ali na sua frente dois compridos animais, que num primeiro momento relembraria uma cobra, mas não era uma cobra. Eles tinham uma cabeça que não ficava no chão e possuíam também duas patas.

Suas cabeças eram maiores que a largura do corpo de qualquer humano, seus olhos eram grandes, em cima deles havia uma protuberância que protegia os olhos e possuía uma cor diferente do restante do corpo e parecia num primeiro momento unir a parte de cima daquela cabeça com a parte que estava os olhos.

Mesmo que a iluminação fosse pouca, aquelas características ficaram plasmadas na retina dos três.

Não havia nada para fazer ou quem sabe nada para pensar, aquela cena muda pelo espanto, muda pela pouca iluminação era o registro do que acontecia nesta época de imensas áreas desconhecidas, imensas áreas desabitadas, imensas áreas que somente viviam apenas um ou duas espécies. Talvez aquelas duas imensas figuras estivessem olhando aqueles três pequenos animais, muito pequenos em relação a seus tamanhos, também assustados, a final também nunca viram aquilo que estavam nas suas frentes com alguma coisa que irritavam seus olhos.

Os três não perceberam, talvez nem tivessem tempo para compreender, mas as duas tochas com sua iluminação irritavam os olhos daqueles compridos animais e Aituro apenas jogou no chão uma tocha e gritou: “vamos”.

Tiguravi também jogou a tocha no chão e gritou: “vamos”.

Os três começaram a correr.

Este ato aconteceu no momento que os dois animais se olharam, aquela fração de segundo que para uns é uma eternidade e para outros é muito, muito rápido e assim aconteceu.

O caminho que antes era favorável para a descida, agora era o contrario, ele servia para aumentar o esforço e mesmo assim os três com o pavor como mestre guia tentavam aumentar a corrida. Ninguém queria olhar para trás mesmo que a vontade fosse essa, era um imperativo olhar para frente, sempre olhar para frente, mesmo sabendo que não havia possibilidade de ver nada, apenas a escuridão.

 

 

 

E a escuridão era a mesma, desde o momento que largaram as duas tochas no chão até agora. Correram, havia uma vaga lembrança com Otu que chegaria o momento que o chão tinha declive provocado talvez pela falta de um encaixe dos blocos que compunham o piso. Não havia como saber quando seria este momento, mas ele deveria chegar e pensando neste desnível, Ela falou: “vai ter um desnível a qualquer momento, temos que ficar atento, senão poderemos cair. Temos que ter atenção, mesmo sabendo que não há como saber quando será”.

Tiguravi falou: “aconteça o que acontecer, não podemos parar. Acho melhor diminuir um pouco para podermos escutar se aqueles dois animais estão vindo atrás de nós. Pode ser que eles nem mais estejam vindo”

Otu respondeu: “não, vamos correr ainda, quando acabar a subida há possibilidade de nos separarmos para ver se eles estão atrás, agora, não dá. O espaço aqui é pequeno, lá, não. O espaço é maior. Tiguravi concordou, lá quando acabava a subida havia um espaço amplo e cada um poderia ficar separado com uma distancia segura entre si, coisa que agora, na subida, era impossível.

Aituro que até agora não tinha dito nada falou: “acho que a claridade das tochas que chamou a atenção deles, não sei se eles iam nos atacar, mas lá em cima vamos fazer varias tochas e ver o que acontece…

Não deu para continuar a conversa, os três descobriram que falar correndo aumentava o desconforto e o silencio foi a melhor coisa que descobriram nesta corrida na subida.

Se a corrida deles era rápida ou não era impossível saber, só o fato de correr no escuro já era a prova que o medo quando é senhor da situação muitas coisas acontecem e correr numa escuridão absoluta sem ter certeza do que vem pela frente era o sinal evidente que algo que existe nestes três humanos estava comandando esta fuga. Não havia por parte deles a menor certeza do que vinha pela frente, apenas a escuridão e a certeza de continuar a corrida para cima e nesta corrida finalmente veio o instante do desnível, Tiguravi que talvez estivesse na frente, sentiu por um breve instante a falta do chão para o seu pé esquerdo. Não era o chão que sumira, apenas estava mais baixo, mas esta diferença entre o ritmo da pisada fez com que Ele se desequilibrasse e num gesto automático tentou se recompor, mas não tinha como. A escuridão era completa e com medo de perder o ritmo da sua velocidade Tiguravi tentou permanecer em pé, esquecendo ou talvez nem mesmo soubesse que era impossível pela própria velocidade, mudou bruscamente de direção e com o corpo bateu em cheio na parede. Sua cabeça sentiu o golpe e ficou tonto e caiu. O barulho de sua cabeça e seu corpo junto a parede assustou Otu e a Aituro que pararam, mesmo não vendo nada.

“Você está onde Tiguravi”, perguntou Otu

“Estou bem” respondeu, ainda que tonto Tiguravi, “continuem a subida, logo eu me encontro com vocês”.

Aituro sentiu que a frase final de Tiguravi não era a realidade, mas como era apenas uma criança, achou melhor não falar nada. Otu também teve a mesma impressão, mas talvez para não piorar ainda mais a situação, apenas falou: “não demore, vamos nos encontrar na lá frente”.

Nesta parada que foi pequena, Tiguravi mesmo tonto e com uma forte dor na perna, talvez fosse no pé, teve a impressão de ter escutado um barulho diferente não muito perto. Mas apenas falou: “vão, daqui a pouco eu também estarei lá”.

 

 

 

 

 

Otu e Aituro responderam: “estamos indo, não demore”

Apenas as vozes faladas em tom baixo era o que foi possível escutar, e talvez a escuridão absoluta não mostrasse para nenhum dos dois o medo e a dor que estavam estampadas no rosto de Tiguravi. Mas Ele também não poderia enxergar o pavor estampado nos rostos de Otu e no de Aituro.

Os passos dos dois logo se perderam e Tiguravi tentou depois de algum tempo ficar em pé, mas não conseguiu. Sua perna esquerda não tinha mais firmeza e talvez Ele nem mais a sentia. Apenas um frio acentuado era o que existia nela, não entendeu nada por que sua perna estava fria. Tateou a perna e não sentia mais nada, sabia que ela estava lá, mas não encontrava ou não sabia o que estava acontecendo, foi descendo até o pé. Quando chegou ao tornozelo sentiu uma dor fantástica, teve vontade de gritar, mas não conseguia.

Talvez concentrado na sua busca Tiguravi não se deu conta que um dos animais estava junto ao seu lado e quando sentiu um cheiro diferente, forte junto do seu rosto apenas conseguiu ficar imóvel. Sua força, sua vontade e mesmo o desejo de tentar pegar o machado sumiram, pela primeira vez na vida descobriu que estava entregue, estava abandonado não apenas pelos companheiros, mas o que era muito pior, abandonado por si próprio.

Aquilo que caracteriza um ser humano era agora apenas uma lembrança distante na mente de Tiguravi, entregue a uma escuridão completa e sob o domínio de um animal desconhecido e um animal que não chegou ver direito. Tentou apenas não imaginar nada quando sentiu aquele rosto morno deslizar pelo seu corpo. Não há como explicar a ausência de desejos naquele exato momento e Tiguravi apenas sentiu uma dor na sua barriga, parecia algo duro que lhe era enfiado, que penetrava seu corpo, não sentiu a dor propriamente, sentiu numa fração de segundo antes um medo de saber que sua barriga estava sendo invadida por algo que não sabia, apenas isso. Quando veio a dor não conseguiu ficar mudo, gritou como nunca gritara talvez o grito até assustasse quem lhe invadira, pois não sentiu mais a dor e talvez pela descoberta pegou o machado que era diferente de todos os outros da Aldeia, e desferiu um violento golpe naquilo que imaginou estar na altura da sua barriga e sentiu que seu machado batera em algo muito duro. Mas também sentiu que sua cabeça fora pressionada violentamente para baixo. Não conseguia entender o que acontecia e tudo isto foi muito rápido, apenas ficou com a nítida sensação que sua mão direita tremia, era o único movimento que sentia e cada vez mais este movimento era mais devagar e quando descobriu ou talvez percebesse não tinha mais contato com seu corpo. Tudo fugia tudo não fazia mais sentido, tudo era irreal, teve a impressão que seu pescoço fora mordido e não mais doía.

Tiguravi descobriu que tudo acabara numa escuridão e nem sabia por quem.

Otu sentiu uma dor muito forte no pescoço, Aituro falou: “que dor no meu pescoço”

“O meu também está doendo e muito” falou Otu.

Tentaram correr, mas o ar estava pesado demais, não era apenas o cansaço, era algo diferente que impedia os movimentos, foram se arrastando até encontrarem galhos no chão, Otu pegou um e tentou fazer uma tocha, mas seu corpo não mais respondia. O corpo estava paralisado, olhou para Aituro que caíra mais adiante.

 

 

 

 

 

 

E foi se arrastando até lá, num movimento que não entendeu, segurou Aituro junto de si e sentiu que suas forças haviam fugido dela e não sentiu mais nada, apenas deixara as forças de seu corpo fugir, sentiu Aituro imóvel. E a escuridão agora mais pesada também estava dentro de sua memória.

Otu e Aituro ficaram lá imóveis para sempre.

Vuturu acordou assustado com o barulho que cortava o céu. Eram muitos raios que corriam o céu que ainda estava claro o suficiente para estabelecer um espetáculo. Olhando para aquele espetáculo Ele quase se esqueceu de olhar para baixo e viu ou teve a impressão de que a nuvem escura diminuiu e muito.

Lá em baixo o que sobrara da Aldeia era apenas e tão somente o resto de alguma coisa que existia algum tempo atrás. Não havia mais nada, até mesmo os corpos que deveriam existir eram difícil de serem vistos lá de cima da árvore. Vuturu ficou olhando para lá em baixo onde passara a sua vida e não sentia mais nada, apenas achou estranho tudo aquilo. Não sabia mais nada, como poderia em tão pouco tempo mudar, lá embaixo, como se agora pudesse ser alguém de fora, não existia mais nada, tudo era estranho.

Vuturu não achava estranho o fato de existir nada na Aldeia, o que achava completamente estranho era o fato em si da Aldeia não representar mais nada, era muito estranho esta sensação de abandono que estava possuído.

Enquanto estes pensamentos percorriam a cabeça de Vuturu os raios chocavam se violentamente e não demorou a chuva muito forte acontecer.

Junto da chuva veio o vento muito forte que balançou muito a arvore e Vuturu sentiu que aquela arvore era perigosa, poderia cair e num gesto seguro soltou o cipó que estava amarrado e começou a descer rapidamente. Quando colocou os dois pés no chão sentiu uma alegria de poder estar andando e os fortes pingos da chuva fizeram com que Ele saísse correndo pela Aldeia e corria para todos os lados.

Encontrou alguns esqueletos de seus companheiros, mas não se perturbou, apenas queria correr, voltar para o solo daquele lugar que viu sua vida passar e mostrar toda a alegria que estava estampada na sua mente. Não tinha mais controle, apenas sentia uma vontade, uma necessidade de ficar correndo, gritando o que nem sabia o que gritava, era esta a realidade de Vuturu. Estava tão absorto que nem sabia mais o que fazia e nem por que fazia, apenas fazia e se sentia como que agora sim estava vivo, mesmo que em um lugar marcado pela tragédia. Correu em direção ao Rio Ti para ver o que acontecera lá.

Quando a cena ficou registrada na mente de Guviu um forte clarão aconteceu no céu.

A forte chuva ficou mais clara como que estivesse iluminando a cena, uma cena que marcaria para sempre a historia da humanidade que existia naquela época, que hoje não passam de tênues ou vagas lembranças nem sempre compreendidas por quem consegue resgatá-las.

A chuva batia nos corpos daqueles três vultos estáticos e voltava para o espaço vazio que circundava os vultos. Aquele encontro agora visto por Guviu era o momento que modificava para sempre a história do Grupo.

Tavitu quando viu os dois vultos a sua frente teve como reação apenas a vontade de limpar os olhos que ficavam mais fechados que abertos devido à força da chuva no seu rosto, e tentar compreender o que estava na frente. Talvez fosse a incredulidade da visão, a surpresa do encontro inesperado, talvez fosse muito mais do que isso, mas não houve reação por parte deles.

 

 

 

Guviu não resistiu e deixou sua voz expressar o que não conseguia compreender. Se seu grito ultrapassou o barulho da chuva não se pode afirmar com certeza, mas foi o suficiente para romper o silencio daqueles três vultos parados.

E os três olharam como se tivessem combinados ao mesmo tempo em direção do grito.

Conforme gritou Guviu num gesto indefinido correu em direção a Tavitu e os dois outros vultos continuavam estáticos.

Uma diferença no tamanho de Tavitu e Guviu e a dos dois vultos eram a primeira evidencia fragrante. Se Tavitu e Guviu possuíam um aspecto físico semelhantes, aqueles dois vultos não. Mesmo que maiores havia uma diferença evidente entre eles, um era forte, como que seu corpo estivesse acostumado a um esforço muito repetitivo. Seus braços eram músculos, o outro, não. Possuía uma constituição mais delicada, menos encorpada, mas estas duas características distintas não eliminavam a diferença de estatura entre os personagens que recebiam a chuva em seus corpos.

Assim que Guviu chegou junto a Tavitu sentiu-se como que paralisada, não pelo medo, mas pela descoberta. Uma descoberta que Tunitu já tinha falado, novos humanos. Mas quem eram estes dois vultos que estavam parados, estáticos e com expressões estampadas nas suas faces que não pareciam em nada com as que Guviu e Tavitu conheciam.

Suas cabeças eram maiores, seus braços mais compridos e …

Como que num movimento único os dois vultos levantaram os braços e apontaram para o lado esquerdo deles mostrando árvores caídas numa distancia razoável e começaram andar para lá. Tavitu e Guviu seguiram automaticamente os dois vultos.

Andaram debaixo da chuva que aprecia que engrossava a cada movimento, o chão estava em vários trechos muito mole, parecia que era lama pura, os pés batiam neste chão e separavam como se fosse brincadeira de criança a água empossada. Aquele chão com a terra encharcada possuía um encanto diferente aos pés de Tavitu e dos de Guviu. Os dois vultos andavam na frente, era um pouco difícil acompanhar o ritmo deles. Os dois vultos subiram numa arvore que estava tombada e pularam, Guviu e Tavitu fizeram um esforço para ultrapassar aquela árvore, quando pularam descobriram que caiam no meio de outros semelhantes aos dois vultos.

Não foi espanto, muito menos medo, foi apenas o inesperado que marcou esta queda. Guviu caiu em cima de um vulto que estava deitado e ambos gritaram. O grito do vulto deitado assustou Guviu. Era um grito forte, rouco e foi possível observar os dentes deste vulto. Eram maiores dos que o Grupo dela possuía. Havia dois dentes inferiores pontiagudos que marcou de maneira acentuada a imaginação de Guviu. Como que fosse um raio o vulto agarrou o corpo de Guviu e avançou perigosamente em direção ao seu pescoço. Guviu não teve nem para gritar.

Tavitu quando pulou caiu no chão de cara numa poça de água. A água com o impacto de sua cabeça subiu e espalhou. Tudo aconteceu como que se fosse um pensamento único, Ele sentiu-se pressionado no chão por mãos pesadas, tentou levantar a cabeça, mas a força que empurrava era maior, apenas abriu os olhos para ver a água marrom entrar pelo seu nariz e pela boca. Num gesto automático fechou os olhos e sentiu uma pancada muito forte na sua cabeça.

 

 

 

 

 

 

Quando lá chegou Vurutu observou que o Rio Ti tinha uma camada escura cobrindo seu leito, a água parecia imóvel, a camada escura parecia com o seu próprio corpo. Em alguns pontos da água saia uma fumaça escura como se fossem pontos onde ardia alguma coisa. As árvores, na sua grande maioria, estavam carbonizadas. A terra, bem a terra parecia que fora queimada por um fogo muito maior que Ele podia imaginar, ainda havia uma camada de alguma coisa que lembrava a cinza das fogueiras. O que chamou a sua atenção era que o ar não estava mais pesado, havia certa leveza solta no espaço vazio que cobria aquela área. Não sobrou nenhuma arvore intacta, parecia que um largo corredor pegara fogo, era tudo muito estranho para ser compreendido, mas mesmo assim Vurutu tentava lembrar-se de algumas coisas que não mais conseguia, e, isto sim, era muito pior do que o quadro que se estendia para seus olhos observarem.

Sabia, talvez ainda que fosse num plano simbólico, que suas lembranças agora não poderiam ser perdidas, mas, mesmo assim não compreendia porque acontecia isto. Afinal o que poderia estar acontecendo com Ele ou mesmo com o seu Grupo que agora poderia nem mais existir. Seria possível que fosse o ultimo dele ou quem sabe aqueles que saíram da Aldeia tiveram sorte melhor. E mesmo que isso tenha acontecido, eles voltariam se encontrar. Não Vuturu tinha se não a certeza plena a confiança que algo mudara não só com ele, nele propriamente dito, mas também em tudo que lhe cercava.

A vida mudara e ele não poderia saber em que direção esta mudança aconteceria ou estava acontecendo. Enfim, agora estava sozinho ou temporariamente só e de qualquer forma esta solidão seria interrompida a qualquer momento. Se era certeza ou desejo Ele não mais poderia distinguir. Como seria bom escutar alguém.

Andou, foi até a beira do Rio Ti, viu alguns corpos caídos juntos à beira da água. Alguns já não estavam mais completos, pareciam que o fogo levara a pele, os músculos de alguns. Mesmo que o cheiro não fosse tão forte, percebeu que não poderia reconhecer aqueles corpos ou mesmo alguns esqueletos ainda com pedaços do antigo corpo.

Em cima da árvore não teve tempo de imaginar como foi o desenrolar da tragédia na Aldeia, mas agora vendo o que sobrou teve uma idéia suposta do sacrifício, mas mesmo assim não conseguia mais ter os mesmos sentimentos, as mesmas reações ou mesmo os comportamentos esperados.

Parecia que tudo aquilo lhe era normal, fazia plano de algo ainda não bem assimilado ou compreendido, mas não lhe perturbava tanto. Sentia-se um estranho numa terra conhecida e isso Vurutu não conseguia entender. Se estava tudo e todos mudando, deveria pensar em apenas lembrar em não esquecer o que apreendera na sua curta existência.

Dalote, Ivituri e Vituluau viram Ruliri, Tavitu e Guviu descerem na fenda e apenas ficaram olhando os três desaparecerem da visão.

Ivituri sempre achou que os últimos acontecimentos foram demasiadamente muitos rápidos e assim sua compreensão não poderia ser da mesma maneira. No seu entendimento não tinha como aceitar que outros tipos de animais pudessem conhecer os Destinos Deles se eles próprios não conseguiam entender absolutamente nada dos outros animais. Conseguiam pegar peixes para sobreviverem, comiam frutas, raízes e não foram poucas as vezes que comeram as cascas de algumas árvores que mudavam o comportamento de quem comia.

 

 

 

Não tinha certeza, não tinha certeza de muitas coisas antes destes últimos acontecimentos e agora então muito menos, mas olhando a Aldeia compreendeu que eles não estavam adaptados, não faziam parte de tudo aquilo que os cercavam. Não sabia explicar e muito menos aceitar toda aquela vida repetitiva, sentia-se muito igual às arvores que estavam presas no chão e não podiam sair do lugar, mas Tunitu disse que Elas viviam no subsolo, era como elas, só que viviam numa área de deslocamento muito maior, mas sempre voltavam para o mesmo lugar. Qual era a diferença deles e das arvores? Nenhuma.

Ivituri sabia que tudo estava mudando. Mudando para onde e por que estaria mudando, enfim, não sabia nada e mesmo que vivesse toda essa mudança, não sabia nem para si e muito menos para os outros, o que tudo isso representava. Mas devia continuar não para re encontrar todos, mas apenas para poder viver tudo aquilo que lhe cercava e que mostrava de maneira contundente que Ele e o seu Grupo não faziam parte de toda esta trama ambiental.

Acontecesse o que acontecesse eles eram quem tinham que se adaptar. O que eles fizessem não teria a menor significação para a região onde viviam. Este era um ensinamento que Ivituri não discutia com ninguém.

Mas mesmo assim o que adiantava presenciar o que estava acontecendo se talvez não pudesse mais compreender o que significava tudo isto. Saber que não representavam nada ou mesmo que nunca representaram alguma coisa já não fazia importância, afinal se eles não tinham como interferir em nada, não conseguiam nem mesmo se comunicar com algumas espécies de animais, o que eles estavam fazendo ali? Quando iniciou todo esse processo que agora resultava na divisão do Grupo e mesmo da Aldeia. Será que “os mais antigos” estavam realmente certos em repetir quase sempre as mesmas histórias ou será que “os mais idosos” ainda tinham importâncias?  Era bem possível que “os mais idosos” mesmo sendo poucos sabiam que não havia como fugir da triste sina que era viver e esperar um dia talvez à tarde para tudo se acabar.

Ivituri andava na beira da fenda e viu lá longe os três, Guviu, Tavitu e Ruliti correrem em direção a parte mais baixa da fenda. Ficou acompanhando mesmo que conforme os três desciam a imagem deles diminuía. Finalmente não via mais ninguém apenas sabia que estavam lá.

Continuou a andar como se estivesse sem rumo quando escutou alguém gritar, bem na sua frente, mesmo sendo longe. Olhou para onde tivera a sensação de escutar o grito e viu Dalote e Vituluau correndo também na direção do grito. Começou a correr em direção aos dois e depois de uma corrida rápida para sua condição, parou e viu bem de perto de seus amigos um animal enorme, com dentes enormes na boca. Sua cor era clara, mas parecia que estava suja. Era uma cor que lembrava muito vagamente à areia que existia em alguns trechos do Rio Ti.

O animal estava em cima de uma árvore caída, seu tamanho era colossal, ninguém tinha visto nada como ele e os três pararam. Dolote e Vituluau estavam na frente a pouca distancia. Ivituri compreendeu que mesmo que eles não podendo mudar os grandes cursos da vida, um curso ele deveria mudar, a própria vida. O animal que estava na árvore caída olhou na direção deles e emitiu um grito que demorou uma eternidade, mas não se mexeu, ficou lá em cima daquela árvore e começou a correr em direção contraria.

 

 

 

 

 

Ivituri falou: “algo aconteceu para ele fugir, é melhor esperarmos um pouco para vermos o que acontece”

Dalote completou: “acho melhor nós nos protegermos, vamos subir naquelas arvores ali que ainda estão em pé”.

Vituluau apontou para a direção em que o animal estava e gritou: “olhem”

Os dois olharam e viram um animal se arrastando, era comprido, mas se arrastava lentamente em direção à fenda.

E não sabendo por que aquele animal olhou em direção a eles, abriu a boca mostrando dentes, muitos dentes. Os três instintivamente se jogaram no chão.

Foi apenas um gesto que foi interrompido pelo começo de trovoadas, relâmpagos e uma chuva muito forte.

“Vamos lá para as árvores” falou Dalote.

E os três rumaram para as árvores, afinal parecia que a chuva e os raios seriam assustadores.

Se eles correram para as árvores não foram para se proteger da chuva e muito menos para fugir daquele animal enorme que se arrastava para dentro da fenda, foi apenas um gesto sem pensar. Chegando junto as árvores descobriram que não havia como se esconder daquela água forte que caia do céu. Os primeiros pingos eram enormes, mas, agora, mesmo com o corpo ainda quente da corrida a chuva era gelada.

 

 

Vuturu ficou olhando o Rio Ti, sabia que a direção da água havia mudado, agora corria para o outro lado. O que poderia significar isso tudo não tinha a menor idéia. Sabia, ou pensava que sabia que a Vida do seu Grupo agora não mais seria igual, pois se existisse ainda o Grupo, estaria espalhado em direções variadas e possivelmente não mais se encontrariam. O que Vuturu viu quando olhou da beira do rio para a Aldeia significou que ali estava à cena que foi, ou quem sabe é a sua existência, apenas um traço naquela paisagem agora mudada dramaticamente. Se antes havia gritos, vozes, agora, não. O silencio que corria naquela paisagem, corpos ali, acolá, representavam a vida em comum. O mais estranho era que não havia nada que representasse algo na sua imaginação. Apenas eram aqueles corpos ali já bastante danificados, muitos sem suas partes, outros carbonizados, quem fizeram a vida dele, mas, agora eram apenas corpos abandonados, inúteis, sem vida. Vuturu ficou pensando, olhando aquela cena que ninguém presenciou. O que fazer ficar ou sair sem destino? Ir à procura dos outros que saíram antes, ou ficar esperando. O que deveria fazer?

Sem saber por que, correu em direção ao rio e mesmo com aquela camada escura resolveu se jogar na água.

Para sua surpresa a água estava morna, a água possuía um paladar muito diferente, não sabia se era bom ou não, apenas era diferente. Não sabendo por que resolveu mergulhar e abrir ou tentar abrir os olhos dentro da água.

Quando sentiu que seu corpo estava já coberto pela água abriu os olhos e viu, por incrível que pudesse ser, água mais clara e muitos peixes parados, como se estivessem dormindo. Tomado por um medo descontrolado tentou subir à superfície, mas a distancia era muito grande. Não conseguia entender como poderia estar acontecendo isto, apenas acontecia e isto fazia que o medo assumisse proporções maiores. Tentava subir, mas seus movimentos não representavam mais nada, apenas gestos sem lógica alguma.

 

 

 

Esta certeza de sua ineficácia mudava sua atitude de um medo descontrolado para um pavor que nunca tivera e nem mesmo sabia que possuía. Sua respiração, ou melhor, o ar com que entrara no interior do Rio Ti parecia que não era mais o suficiente e talvez fosse isto que se tornara sua maior preocupação. Num ato de desespero soltou o que lhe doía em seu interior e misteriosamente conseguiu mover se para cima. Quando conseguiu sair da água, viu que o Rio Ti estava quieto e o que mais lhe chamou sua atenção era que água estava parada, quieta como se ele não estivesse nela. Mesmo sabendo que seus pés estavam ou deveriam estar no fundo do rio, tentou andar em direção a margem, mas não existia mais margem. Preocupado Vuturu olhou em redor e não viu mais nada, estava isolado no meio da água. E o Rio Ti não era mais um rio, era um mundo.

Estava num lugar diferente, não havia mais nada em seu redor, apenas água, água e mais água.

O que acontecia em quanto olhava em seu redor não conseguia entender, entendia sim que entrara no Rio Ti, mas agora não estava mais nele, estava num outro lugar que não sabia onde era. Não sabia como estava naquele lugar.

Vuturu tentou apoiar os pés no chão e conseguiu. Esta certeza pelo mínimo diminuiu sua preocupação. Mas como poderia estar num lugar como esse?  Olhou para o céu para saber quanto tempo tinha de claridade e descobriu que não existia o céu. Aquilo que “os mais antigos” diziam que eram os corpos em pedaços de Aviran, Atriran e Ecuran que iluminavam o céu à noite estavam lá em cima. Ficou extático olhando para cima para poder ter certeza que estava olhando para o alto e viu, mesmo não sabendo entender como, todos os pontos distantes, parados com a claridade do dia. Não sabendo como, passou rapidamente na sua mente os peixes parados no fundo do Rio Ti.

Num ato mecânico ou simplesmente sem perceber começou a andar naquele mundo de água, e percebeu que conforme andava ia aparecendo na sua frente à Aldeia. Não mais conseguia entender o que acontecia, apenas parecia tudo voltar ao normal. Mas algo estava diferente. A Aldeia não estava mais como estava há algum tempo atrás quando entrara no Rio Ti. O Rio Ti, se aquele era realmente o Rio Ti, não tinha mais certeza, parecia que tinha alguma coisa diferente nele. Vuturu reconheceu-o pelas pedras, mas a área que correspondia à Aldeia tinha mudado, havia inúmeras árvores enormes, a maioria não conhecia, ou melhor, nunca tinha visto na sua vida. Andou em direção aquilo que sabia que foi o seu lar, mas tudo estava diferente. Não havia mais gramas, apenas inúmeros cipós, folhas caídas. As árvores eram enormes, mesmo que fossem num numero maior as que existiam na época da Aldeia, pareciam que não possuíam frutos. Apenas galhos compridos, com espinhos. Muitas árvores possuíam folhas vermelhas e algumas com folhas marrons, coisas que nunca tinha visto. Mas mesmo assim Vuturu continuou andando na área que era a Aldeia. Olhando para frente se lembrou da árvore que subira para se esconder e procurou por um tempo, mas não encontrou mais. Como sabia antes de entrar no Rio Ti a Aldeia vivia períodos de inúmeras mudanças, fatos novos estavam acontecendo todos os dias, lembrou vagamente que muitas coisas já não lembrava mais, mas, agora, ali, aquele chão, onde passara sua vida, estava mudado.

 

 

 

 

 

 

 

E ele tinha se não a certeza plena, a confiança que aquela era sua terra e estava muito diferente. Não mais sabia o que acontecia e novamente procurou a árvore, andou por pontos onde julgava ter existido pedras que pudessem confirmar aquela certeza, mas as pedras ainda estavam lá, mas não serviam mais de referencias, pois a área da Aldeia era ocupada por árvores diferentes. Prestando mais atenção descobriu que as árvores não eram mais as árvores do “Seu Tempo”, estava tudo mudado.

Sem entender o porquê olhou para seu corpo e viu que não possuía mais os pelos todos, muitos tinham caídos, mas o mais importante era que a cor mudara. Seus pelos eram parecidos com a cor da madeira queimada, era de cor cinza. Sua barriga já não possuía pelos, suas pernas possuíam em alguns pontos ainda os pelos pretos, mas a maioria do seu corpo era agora de cor diferente.

Não sabia o que acontecia, entendia que mudara, nunca tinha visto alguém com aquela cor, nem “os mais antigos” ficavam assim e também percebeu que não adiantava pensar sobre isto. Mudara, a Aldeia não mais existia. Pensou em fim naquilo que poderia ainda servir como veracidade para a sua existência, seja lá qual fosse a existência, em gritar. Afinal, pensou: ‘devo ainda saber falar’ e para ter certeza, gritou

Seu grito ficou apenas na certeza própria que estava gritando, mas sua voz não existia mais, não escutava nem sua própria voz.

Vuturu ficou gritando, ou imaginando que estava gritando, pois num gesto de desespero e curiosidade enquanto gritava colocou a mão na boca para ter certeza que estava com ela aberta, mas descobriu não sabe como que sua boca estava diferente. Não era avançada para fora, estava mais curta, algo também mudara em seu rosto.

Num ato de curiosidade levou a mão para a cabeça e percebeu que sua fronte não era como estava acostumado. Algo tinha mudado, seus olhos estavam numa posição diferente, parecia que tinham entrado mais para o interior de sua cabeça. Não sabendo como, começou a correr em direção ao Rio Ti e descobriu que a dor que tinha ao correr diminuíra, podia correr, quase em pé e isto também era estranho.

Correu para o Rio Ti, lembrou que muitas vezes conseguira se ver na água, não era sempre, mas houve uma época que nem “os mais antigos” sabiam explicar que as águas do Rio Ti ficavam claras e num período da manhã era possível se ver. Vuturu lembrou sem saber como a primeira vez que se viu no Rio Ti, estava com seu pai.

“Os mais antigos” diziam que na Reunião no Lago Etchuru os humanos que foram convidados tinham vistos alguns outros humanos diferentes. Não conseguiram falar entre si porque a noticia mais importante foi a da Grande Jornada que todos tinham que fazer e como houve um alvoroço geral ninguém mais se entendeu. Vuturu lembrou também que Eles, “os mais antigos” contavam que a Grande Cobra Amarela Anati orientou muitos humanos na Grande Jornada. Alguns outros foram para lugares que ninguém mais sabia ou mesmo conheciam. Um “dos mais antigos” cujo nome era motivo de discussões, pois alguns dos “mais antigos” chamavam de Turubeta e outros afirmavam que o verdadeiro nome era Turutabetu, dizia que “os outros humanos” foram para longe, em direção contraria a escolhida pela Grande Cobra Amarela Anati. O que sempre acontecia quando este tema era comentado nas reuniões era a discussão que ocorria, pois alguém sempre colocava em duvida as veracidades dos “mais antigos”.

 

 

 

 

 

 

 

 

Era sempre dito que não havia como esquecer o nome de alguém importante assim. E isto sempre acontecia. Houve uma época que não era tão antiga assim que “os mais antigos” só citavam o nome de Turubeta. E assim aconteceu, porem numa noite muito clara, Vuruteru, que escolheu sair da Aldeia, acordou gritando o nome de Turutabetu. Todos escutaram os gritos de Vurateru e os homens e as mulheres que acordaram assustados, correram para a cabana da onde viam os gritos. E lá encontraram Vurateru olhando para onde ficava o campo limpo que cercava a Aldeia e ele mostrou uma árvore, a mais afastada da Aldeia, que balançava como se estivesse alguém pulando nos galhos. Todos que foram na cabana disseram depois do ocorrido que ficaram com uma sensação muito fria enquanto olharam para a árvore.

Ninguém sabia o que fazer, mas algo tinha que ser feito e para espanto de todos, a noite durou muito mais tempo do que era comum acontecer. Vurateru reuniu as pessoas e falou depois de muito tempo passado que Turutabetu estava na árvore dizendo que existiam outros humanos, diferentes deles. E disse também que Ele seria a pessoa que sabia o que acontecera na Grande Reunião, e não acreditava que a Aldeia não soubesse o real acontecido. Vurateru disse que iria seguir Turutabetu para saber o que acontecera.

Chegando à beira do Rio Vuturu percebeu que as águas ainda estavam escuras, não tinha como saber como estava seu rosto. Ficou apoiado numa pequena pedra pensando em tudo que acontecera, não conseguia entender, pensar ainda era possível, mas o que adianta pensar se o seu corpo mudara, a sua voz não escutava e seus olhos deveriam estar diferentes. Enquanto seus pensamentos fluíam começou novamente a andar em direção ao atual bosque, antiga área da Aldeia.

Achava tudo estranho, mas avançou mais adiante pelo bosque e descobriu algumas marcas em raras arvores, pareciam como que tivessem sido feitas por unhas de uma mão grande. E elas indicavam o alto do tronco. Chegou perto de uma das árvores e percebeu que seu tronco era coberto por um liquido muito ralo, de cor escura. O liquido não tinha cheiro e como qualquer pessoa levou a mão em direção ao liquido quando sentiu alguma coisa cair no seu braço. Com uma rapidez assustadora deu um pulo para trás e olhou para cima e teve tempo para ver três  aves que nunca vira olhando para baixo. O choque da visão perturbou a todos, sem conseguir ocultar deu um grito e para seu espanto as três aves saíram voando fazendo um alarido muito forte. Se Vuturu pensou que elas estavam se afastando se enganou. Em pleno vôo as aves puderam mostrar seus verdadeiros tamanhos, eram todas do mesmo tamanho dele, todas eram de tonalidade verde, porém as cabeças eram da cor do céu limpo, um azul muito estranho. Nunca vira aquelas aves, mas conseguiu ver num lance puramente de instinto que elas mergulhavam na sua direção, numa velocidade muito grande. Vuturu descobriu que não tinha nada para se defender, era um alvo fácil e num ato sem consciência correu para a arvore e ficou encostado no tronco. As aves não tiveram tempo de mudar suas direções e desceram rente ao chão e agora Vuturu conseguiu ver os corpos delas, eram maiores que o seu corpo. Apesar de ser fina, a sensação de ver seus corpos novamente subirem para um possível novo ataque deu coragem para sair correndo e entrar na área onde havia mais árvores, pelo mínimo aquela área era mais complicado o vôo daquelas aves. Correu, pulou cipós e não percebeu mais as aves.

 

 

 

 

 

 

Parou novamente junto ao tronco de uma árvore, mais uma arvore diferente e ficou olhando para todos os lados e para cima e não viu nada das aves com as cabeças de cor azul. Porém, mais na frente teve a sensação de ter visto uma fumaça que subia de trás das árvores. Não teve duvida, foi em direção daquela fumaça.

Se a fumaça era longe no instante que a enxergou não considerou, mas andou bem mais do que imaginara, subiu uma pequena colina que na época da Aldeia tinha certeza não existir e chegando ao ponto que pensou ser o mais alto, viu lá embaixo o ponto que saia a fumaça.

Era um buraco no chão que de longe parecia ser pequeno, porém conforme descia a colina percebeu que era grande. Vuturu estranhou aquele buraco e estranhou mais ainda que conforme chegava mais próximo daquela fumaça o chão ficava mais quente. Chegando ao ponto de não poder mais agüentar o calor. Era muito quente aquele chão e conforme ia andando em direção aquele buraco começou a perceber que a vegetação começava a arder. Bem próximo ao buraco, viu que algumas árvores pequenas começavam a queimar, outras caiam.

Vuturu parou, olhou para trás e viu que onde se encontrava era cercado por pequenas colinas. Rapidamente lembrou que aquele lugar não poderia estar perto ou ser a antiga Aldeia. Lembrou também que na Aldeia existia uma área limpa que a rodeava, e desta maneira “os mais antigos” afirmavam que estariam em segurança, pois tinha a visão completa da área. E agora não, estava numa depressão pequena era verdade, mas nunca existiram aquelas colinas próximas à Aldeia. De qualquer maneira, resolveu sair daquele lugar e subiu rapidamente a colina mais próxima. Quando chegou na parte mais alta viu uma imensa floresta e no seu lado esquerdo, estava lá o Rio Ti. Nesta visão de re-encontrar vamos assim considerar o Rio Ti, Vuturu se deu conta que talvez não fosse mais ele próprio o Vuturu, mas sim aquilo que “os mais antigos” chamavam de Tuvatilu, ou seja, um espírito que abandonou o corpo e viajou para fora do seu corpo e não mais conseguiu encontrar seu corpo novamente. Tuvalitu era quem podia ver o que ninguém conseguia, mas não conseguia ver duas coisas, o que já aconteceu e nem ver seu corpo novamente. Um Tuvalitu só conseguia ver o que iria acontecer. Vuturu ficou preocupado, nçao sabia mais quem era. Tentou lembrar o que acontecera, mas não conseguia. Lembrou vagamente que “as mulheres mais antigas” sabiam como fazer para trazer um Tuvalitu regressar para o antigo corpo, mas não havia mais “as mulheres mais antigas”.

Se tudo isto era verdade Vurutu teria que procurar os humanos, os seja, as pessoas da sua Aldeia e se apresentar, ou melhor, reencontrá-los e ver o que aconteceria. Mas mesmo com esses pensamentos em sua cabeça, relembrou que ali em cima da colina não estava seguro, não sabia bem o porquê desta sensação, mas algo lhe dizia que era hora de sair dali o quanto antes. E olhando aquela mata que se estendia até onde seus olhos conseguiam enxergar, resolveu seguir em frente, não na direção do Rio Ti, mas para o outro lado e assim começou a descer a pequena colina.

Andou rapidamente sem saber o motivo, mesmo que não corresse seu andar era mais rápido do que uma caminhada normal. Nesta caminhada lembrou que não tinha sede e muito menos fome, mas não deu muita importância, afinal tivera experiências tão sem lógicas que a fome, a sede e mesmo o cansaço agora seriam motivos de alegria, mas nem isso era possível.

 

 

 

 

 

Afinal, se tivesse estas necessidades básicas para qualquer humano saberia que ainda era um, mas nada disto acontecia. De qualquer forma era bom continuar andando, o sol ainda estava no alto. Se andou muito não sabia dizer, dentro da mata não havia cipó ou mesmo pedras, o chão era mais limpo do que o chão onde era a Aldeia. Sentia um ligeiro calor no chão, mas acreditou ser dos próprios pés. Conforme andava Vurutu começou a sentir que o chão parecia tremer ligeiramente e isto fez com que aumentasse sua caminhada. Parecia que as árvores também perceberam as mesmas inquietações dele, algumas começaram a balançar seus galhos e não demorou muito para que Ele sentisse um tremor maior no chão. Parecia que corria alguma coisa por dentro do chão. No inicio era algo mais no fundo do solo, mas agora a sensação era que não era mais no fundo, parecia que algo estava subindo e a terra ficou muito mais quente. Sentiu novamente mais tremores, eram de durações menores, mas eram muito mais próximos. Vurutu sabia que sua única tarefa era sair, ou se afastar destes tremores, mesmo mudando, ainda que aleatoriamente de direção, todo o interior do chão era igual. Parou um pouco para poder se situar, como se fosse possível isto dentro da mata e descobriu que na sua frente existiam alguns pequenos blocos de pedras e teve a impressão que alguns deles estavam balançando. Descobriu que a mata era mais fechada agora, continuou a andar quando escutou um barulho muito forte, tentou parar a caminhada para escutar melhor aquele barulho seguido, quando um estrondo muito forte aconteceu. Era lá trás o barulho e num gesto instintivo olhou para lá. Mesmo com as árvores sua visão, sentiu uma onda de calor varrer o local onde estava e viu também uma nuvem de fumaça cinza aparecer do chão. Mesmo com as arvores tampando a visão sua intuição dizia que era do chão que saia a fumaça.

No meio da fumaça Vurutu via também muito fogo e o chão tremeu novamente. Desta vez escutou que algumas árvores sem saber o porquê caiam e o chão se abriu. O calor era insuportável, Ele começou a correr sem parar, o chão ficou quente, as árvores balançavam como que querendo fugir dali, mas era impossível, mais uma vez escutou um estrondo muito forte e percebeu que desta vez caiam na mata algumas coisas de tamanhos irregulares em fogo. Parecia que alguém estava jogando aquilo na mata. Um pouco mais a frente viu que a área das arvores terminava e seguiu em frente sem saber o porquê fazia isto.

Quando chegou no limite da mata Vurutu percebeu que os estrondos no chão haviam parados, mas resolveu não parar. Sabia sem entender que devia seguir em frente. Não queria parar, o medo era grande, mas como não estava cansado só restava correr para frente, não estava mais preocupado em saber o porquê dos acontecimentos, apenas seguia sua vontade de não parar.

Ao mesmo tempo em que Guviu viu um vulto grande pegar seu corpo e avançar com os dentes em direção ao seu pescoço, viu também Tavitu levar uma pancada na cabeça e ficar imóvel na poça da água, porem escutou um grito tão agudo, tão alto e sentiu que estava caindo, o vulto que segurava seu corpo largara com uma rapidez fantástica. Seu corpo caiu em cima de uma pequena pedra, mas num gesto rápido levantou e mesmo sentindo dor nas costas correu em direção a Tavitu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mesmo sendo a distância pequena Guviu viu como que fosse um raio cortando a noite o vulto mais magro correr em direção ao outro vulto que batera na cabeça de Tavitu. Se realmente conseguiu ver o que imaginara ter visto Guviu não saberia responder, mas pensara ter visto a mão do vulto mais magro cheia de sangue, mesmo com a forte chuva que ainda projetava fortes pingos de água nos seus olhos, a visão do sangue nas mãos deste vulto ficou na sua memória, entretanto para seu espanto Tavitu levantou rapidamente e olhou para o vulto mais magro e com a cabeça fez um movimento que Gaviu não entendeu.

A cena foi rápida, assim como rápido todos os outros vultos apareceram e cercaram Tavitu e o vulto mais magro. Guviu não tinha condições de saber se aquilo tudo era um gesto de ataque ou apenas uma curiosidade do momento, o encontro de humanos diferentes.

O vulto mais magro fez um gesto com as mãos e todos os outros pararam e se afastaram um pouco. Somente ficou próximo do vulto mais magro o mesmo que Guviu encontrou olhando para Tavitu.

Tavitu se aproximou de Guviu e olhou para todos os vultos, um de cada vez e percebeu que eles tinham as mesmas características deles, mas eram diferentes. Seu pensamento foi cortado pela voz do mais magro que falou numa linguagem que não foi possível compreender. Guviu também escutou aquela voz, não soube compreender.

A chuva não dava trégua, continuava a cair, parecia que era cada vez mais forte. O chão já não absorvia toda aquela chuva. O vulto mais magro levantou as duas mãos e olhou para Guviu e Tavitu e depois lentamente para cada um do seu grupo e foi para a direção de alguns blocos de pedra que estavam mais na frente. Os dois seguiram este vulto mais magro que parecia ser o líder.

Enquanto caminhavam, Guviu pode perceber com mais detalhes este possivelmente era o líder do grupo. Era maior que ela e mesmo do Tavitu, seus braços e suas pernas eram mais fortes do que as pernas e os braços do pessoal da Aldeia. Uma coisa porem marco esta breve descrição dos detalhes que Ela estava fazendo, o pescoço era muito mais largo e curto, era um pescoço muito diferente para os seus padrões. A cabeça também era diferente, porem não teve tempo para continuar, os blocos de pedras já estavam na sua frente.

O líder do grupo entrou por um pequeno corredor entre dois imensos blocos de pedras e todos seguiram em frente. Logo ali em frente Tavitu virou sua cabeça em direção a Guviu que também sentiu o cheiro de lenha queimando, logo estariam junto ao fogo.

O espaço não era muito grande, mas o suficiente para abrigar várias pessoas e num primeiro instante parecia que não chovia ali dentro. Havia duas grandes fogueiras na parte central da gruta e duas outras pequenas fogueiras num canto próximo às paredes. Alguns vultos estavam deitados, algumas crianças, talvez pelo tamanho, estavam deitadas junto às fogueiras pequenas. Tanto para Guviu como para Tavitu aquela visão era impressionante, apreciam que estavam num outro mundo, todos ali eram diferentes. Quem aprecia ser o líder foi até onde estavam dois outros e num gesto que eles não conheciam, se abaixou colocando sua cabeça junto aos pés de cada um e depois, ainda deitado, falou numa língua estranha.

 

 

 

Se o que ele falou foi importante os dois não sabiam, mas os dois vultos levantaram rapidamente e foram em direção a Guviu e Tavitu. Eles em pé tornaram-se figuras ameaçadoras, não possuíam machados, mas, sim duas imensas clavas penduradas nas cinturas. Eram de cores diferentes, uma era vermelha, talvez fosse a luz da fogueira que causasse esta impressão, mas a outra era branca, lisa. Tinha quase o tamanho de Guviu. Tavitu olhou rapidamente para Guviu e ficou olhando os dois vultos se aproximarem. O que aprecia ser mais forte parou numa distancia próxima e olhou cuidadosamente para os dois e falou algumas coisas com o restante dos seus.

Todos se aproximaram, apenas as crianças ficaram deitadas junto às fogueiras, talvez, realmente estivessem dormindo. Guviu tentou entender o que estava sendo dito, mas não conseguiu entender. Tavitu deu um passo à frente e pegou com uma das mãos o seu machado e colocou em direção ao vulto que falava.

O silencio durou apenas o suficiente para o contato do machado com a mão do vulto. Foi à primeira vez, ainda que com uma claridade insuficiente, que Guviu e Tavitu conseguiram mirar para os rostos daqueles humanos com certeza, mas diferentes. O vulto segurou o machado de Tavitu, olhou com atenção e tirou sua clava e entregou para Tavitu. Quando este segurou com as duas mãos a pesada clava, começou a falar. Sua voz no inicio lhe parecia estranha, mas continuou a falar e olhando para Guviu entregou a clava e ela quando segurou também começou a falar uma língua estranha, mas que parecia que aquele grupo entendia.

Enquanto Tavitu falava Gaviu olhou rapidamente a Gruta e viu pelos cantos alguns pedaços de ossos espalhados juntos as duas fogueiras maiores e correndo rapidamente os olhos não conseguiu ver ou talvez distinguir algumas mulheres e seu olhar foi interrompido quando Tavitu entregou-lhe a clave. Ela segurou firmemente e olhando para todos começou a falar:

“Não sei que são vocês, nós moramos num lugar não muito distante daqui, próximo de um Rio. Estamos divididos por que recebemos um aviso que temos que ir para a Próxima Reunião, mas antes disto acontecer, vários acontecimentos diferentes ocorreram. Vimos a Grande Cobra Amarela perder para Tunitu e ela falou que iríamos encontrar pessoas diferentes de nós, mas parecidos. E nós deixamos um outro do nosso Grupo numa pequena gruta quando começou a chover. Tavitu foi quem encontrou vocês, quem são vocês” perguntou Guviu.

O vulto que recebeu o machado de Tavitu deu um pequeno passo para trás, olhou para seu grupo e segurando o machado do lado direito do seu corpo falou e Tavitu e Guviu conseguiram entender.

“Nós ouvimos falar dessa “Próxima Reunião” e por isso estamos indo para esse encontro, vivemos longe daqui. Vivemos junto das montanhas, onde há muita caça. Vocês são pequenos em relação a nós. Talvez sejam aquilo que Buvuraturatu falou, vocês são os filhos de Itirui que pensávamos não existir mais. Há uma diferença de Tempo entre vocês e nós. Buvuraturatu é conhecido por vocês como Atriran, mas nós somos todos parecidos, mas somos diferentes, por isso que não aconteceu nada com vocês quando meus filhos viram vocês. Nós somos de um Tempo diferente do de vocês, nós não temos mais como sermos iguais a vocês, o nosso Tempo é diferente do de vocês e nós sabemos que existem outros como nós, só que eles são também diferente de vocês e de nós. E neste Encontro nós sabemos que iremos encontrar pessoas diferentes, mas nós precisamos ir além deste “Encontro”, precisamos ir até um lugar que é banhado por uma água que está sempre em movimento e a água tem um gosto diferente, mas nela existe uns animais que são amiores que esta Gruta, é nesse lugar que precisamos estar e lá viver para sempre. Mas quem sabia ir até lá não vive mais e nós só vamos “neste encontro” porque vamos encontrar quem sabe deste lugar e sabe a direção”. O meu nome é Vilaeá.

 

 

 

Guviu e Tavitu estão contentes porque entendiam o que estavam ouvindo, mas não entendiam o que este Grupo falava e de suas diferenças, assim como a diferença do Tempo entre eles.

Vilaeá percebeu que os dois não entenderam muitas coisas que falou e olhando para seu grupo falou: “Caitavaé, leve eles para descansarem um pouco, depois vamos continuar as conversas”.

Caitavaé saiu do meio do grupo e mostrou um canto para Gaviu e Tavitu descansarem. Caitavaé era quem eles pensavam ser o líder do grupo. Eles foram para o local indicado e deitaram para descansar, afinal estavam cansados.

Ruliri acordou um pouco tonto, com uma sensação diferente em sua cabeça, parecia que acontecera algo nela. Olhou o local onde estava. A chuva ainda continuava, mas bem mais fraca. Onde estivera deitado ainda estava seco, mas aquele espaço estava molhado. Parecia que a noite estava chegando, ali fora onde a água ainda corria no chão a visibilidade diminuía. Porem quando Ruliri saiu e olhou para o céu teve a nítida impressão que não estava anoitecendo, mas sim amanhecendo, pois percebeu algumas aves diferentes levantando vôo e isso não acontecia quando anoitecia. Em quanto andava sentia que seu corpo tinha mudado, não sabia o que, mas algo acontecera com ele.

Dalote, Ivituri e Vituluau acordaram um tanto assustados, ouviram barulhos pertos e com sonoridades que não estavam acostumados. Os três ficaram em pé rapidamente e olharam para todos os lados e não viram nada. As árvores estavam quietas, uma brisa soprava em direção favorável a eles, se houvesse alguma coisa ou algo na frente deles o cheiro denunciaria. Dalote olhou novamente sem eu redor e pareceu observar alguns vultos correndo atrás das árvores, fez um breve barulho e seus dois companheiros também ficaram olhando para a direção que ela apontara. Não demorou muito para os três perceberem que aqueles vultos eram em numero maior, não sabiam o que fazer e muito menos quem eram. Como talvez fosse um reflexo normal os três subiram na árvore que parecia ser a maior e tentaram chegar ao topo dela. Subiram rapidamente e lá embaixo o chão mostrava-se grande, havia ainda uma área cheia de árvores e depois não havia mais nada, apenas um chão de cor escura e bem longe havia alguma coisa que brilhava, Vituluau disse em voz baixa: “deve ser o Rio Ti lá longe”.

Esta frase causou uma alegria para seus dois companheiros. “O chão está escuro por causa da chuva” falou Dalote.

Subiram mais um pouco e ficaram parados lá em cima, cada um pensando em coisas diferentes.

Mesmo sendo alta a árvore, ela teria que acabar e os três viram no topo algumas coisas vermelhas que poderiam ser frutos. Mas não havia como chegar lá em cima. Ivituri olhando para os galhos da árvore viu alguma coisa comprida estirada num galho. Não sabia o que era, mas seu instinto lhe dizia que era um animal. Como Vituluau era o mais próximo e apontou a direção e Ele também viu.

Era um animal comprido, com o corpo arredondado que aprecia estar dormindo. Dalote percebeu que seus dois companheiros estavam olhando para a mesma direção e quando olhou também o animal abriu seus olhos e percebeu os três vultos olhando para si. Rapidamente ficou em alerta.

 

 

 

O animal mudou de posição rapidamente, agora tinha aquelas três figuras de frente e os três pareciam estar mais preocupados em observar do que qualquer outra coisa.

Dalote falou para seus dois companheiros: “o que vamos fazer?”

“Vamos esperar, não temos o que fazer, se aquilo vier na nossa direção não sei o que fazer, como vamos nos defender apoiados nestes galhos, não temos como agir e não dá nem para nos separar” falou Ivituri.

E ficaram os três olhando aquele animal.

Por mais que a situação fosse dramática os três perceberam que não teriam segurança alguma pendurados nos galhos daquela imensa árvore. E tendo aquele estranho animal sob a visão os três começaram a descer, inicialmente lentamente, mas logo a descida foi rápida.

O animal percebeu que os três começaram a se afastar, voltou para si mesmo e num movimento espetacular se atirou no vazio. Em pleno vôo ou em plena queda os três conseguiram ver o tamanho do animal, lembrava muito Tunitu, porem mais fino, o ser rosto era muito mais assustador, as fileiras de dentes amarelados deixaram Dalote, Ivituri e Vituluau assustados.

Em pleno vôo não foi possível perceber como realmente era o corpo do animal, mas quando ele se agarrou num galho maior da árvore os três perceberam que o animal possuía na sua aprte inferior duas garras que se firmaram no tronco e neste encontro algumas lascas do tronco caíram devido a força do impacto. Dalote parou a descida, afinal aquele animal estava agora numa posição inferior na árvore, porém sua posição favorecia a possibilidade de ataque. Os três humanos perceberam que a descida deles seria extremamente complicada, pois estavam como alvos de um animal que não conheciam e o pior, não tinham como fugir.

Quando o animal firmou suas duas garras anteriores no galho da árvore seu movimento de impacto foi surpreendente, parecia que o impacto da queda não lhe causou nenhum mal, pelo contrário, mostrou para aqueles três humanos que sua agilidade era mais fenomenal que o próprio ato em si.  Vituluau em quanto via aquele salto percebeu também que a distancia do chão era menor, mas mesmo assim poderia causar um mal maior, porém com aquele animal esperando os três descerem sem qualquer segurança implícita.

Não pensou duas vezes e pulou em direção ao chão, o ato em si causou surpresa para seus dois companheiros, assim como para o estranho animal. Não sabendo bem o que lhe passou na cabeça Ivituri quando viu seu companheiro pular, também pulou, só que em direção ao estranho animal que estava olhando o pulo do primeiro humano. Mesmo não sabendo como agir ou mesmo o que fizera, Ivituri em pleno vôo pegou seu machado e conforme a distancia do animal diminuíra, gritou com toda a força que aquele ato desesperado provocara. Não foi um grito de heroísmo e muito menos de pavor, foi um grito apenas para exteriorizar o ato em sí. O animal quando escutou o grito levantou seu rosto para cima sem qualquer noção de direção. Foi um ato mecânico, um ato de instinto, porém até encontrar o autor do grito, seu rosto levou o impacto da queda de Ivituri e a parte mediana de seu corpo foi atingida pelo machado do humano. O impacto da queda do humano no seu rosto e o duro golpe no meio do seu corpo fez com que o animal caísse embolado com o humano.

 

 

 

 

 

 

Na queda dois tipos de gritos se fizeram presentes. Um, o grito da exteriorização do pulo o outro o grito do desconhecido. Dalote quando viu Vituluau se jogar árvore abaixo e logo em seguida Ivituri pular em direção ao animal começou a descer os galhos rapidamente e conforme viu que a distancia diminuíra, pulou em direção onde Ivituri e o animal caíram.

Dalote pensou que cairia em pé para socorrer seu companheiro, se enganou. Caiu de barriga no chão, chegando inclusive subir um pouco e cair novamente, não conseguiu se mexer, seu corpo estava todo dolorido. Porém conseguiu ver que Ivituri caíra em cima do animal e na queda rolou para o lado se afastando um pouco do animal. Este quando bateu no chão emitiu um outro grito, possivelmente de dor e ficou quieto por instantes, o suficiente para aquele que causara sua queda sair rolando. Talvez o momento vivido por ambos fizesse a dor ou qualquer outro cuidado necessário serem esquecido, o calor da ação não permitia perceberem qualquer estrago nos seus corpos. O estranho animal, provavelmente ainda sob o impacto do inesperado, apenas se encolheu e deu um salto pequeno para fora do campo de ação dos humanos e perante o espanto de Ivituri começou andar em pé, meio cambaleante e conforme se afastou do local da queda tentou acelerar a fuga, mas parecia que a queda fora violenta para seu corpo, caiu no chão, possivelmente com dores.

Vituluau que fora o primeiro a cair já estava em pé com um pedaço de galho nas mãos e começou a correr em direção ao animal, porém Ivituri gritou para não ir. Vituluau virou rapidamente e correu em direção a Dalote que gemia baixo. Quando lá chegou encontrou-a com as mãos no rosto, mais precisamente na boca, onde escorria um pouco de sangue. Ivituri também foi andando em direção a Dalote, porem sentia muita dor junto ao pescoço e chegando junto aos seus dois companheiros caiu novamente, apenas sentiu seu corpo ficar imóvel.

O animal que já se afastava, mesmo com o corpo doendo, tentou se virar para os três humanos, mas não conseguiu. Andando, ou melhor, se arrastando naquele chão limpo, tentou se apoiar numa pedra, mas não conseguia, não sentia mais a metade do seu corpo, conseguia ainda perceber que suas patas se movimentavam, porém seus estímulos em andar já não eram mais obedecidos, havia, por assim dizer, um espaço incomunicável entre seu corpo, sua cabeça ainda funcionava e sua parte extrema, porém sua parte intermediaria estava quieta. O animal escutou alguns sons que talvez os três humanos não escutassem, pois deveriam estar com suas dores, contudo os sons chegaram mais rápidos aos seus ouvidos e como que num jogo do destino viu três animais menores que seu tamanho, entretanto sabia que eles estavam com fome. Seus barulhos indicavam isto.

Dalote viu a queda de Ivituri, assim como viu num segundo plano três vultos rumando para o animal desconhecido e mesmo com o corpo dolorido tentou levantar-se e olhou para Vituluau e disse: “olhe lá”.

Vituluau viu os três animais que nunca vira se separando indo em direção ao animal estranho que já parecia ter percebido a situação. O animal ficou protegido pela pedra que era pouca coisa maior que os outros três animais. A sensação de inutilidade era fragrante para os três humanos, não havia possibilidade do animal estranho escapar.

 

 

 

 

 

 

 

Pela distancia da cena não havia possibilidades de ter certeza das características dos três animais, possivelmente a altura deles era até os joelhos de Vituluau. Não era possível interferir na ação. A cena foi rápida, os três avançaram ao mesmo tempo no animal estranho que estava como que apoiado na pedra. Porém nem sempre o numero maior de indivíduos significa menor numero de riscos. Como que fossem treinados, cada um dos três animais partiu velozmente e3m direção aquele que estava apoiado na pedra, cada um atacou uma parte do animal estranho. Este esperou o ataque como alguém espera o inesperado, quando a distancia era a mínima, talvez fosse possível sentir o hálito quente dos três atacantes, o animal estranho deu um salto e num passe de surpresa cravou seus dentes no pescoço de sua primeira vitima e as patas pontiagudas cortaram o corpo do segundo atacante. O terceiro atacante que talvez por opção estivesse fora das duas extremidades perigosas da possível vitima, mesmo que impressionado pelos gritos de seus dois companheiros grudou com seus dentes o corpo do estranho animal. Seus movimentos foram rápidos e certeiros, conseguiu rasgar o corpo de sua vitima e sentiu também o seu sangue, porém não poderia pensar que estava salvo, o animal estranho quando sentiu seu corpo ser dilacerado pelo terceiro atacante largou a cabeça de sua vitima e num movimento não tão rápido tentou atacar seu terceiro atacante. Talvez sua vontade fosse se defender, o que nesta situação era o mínimo esperado, porém suas condições não eram as melhores, mas mesmo assim sentiu seus dentes cravarem em alguma região do seu atacante, e sentiu também que seu corpo estava flutuando no espaço, só teve como instinto tentar olhar para seu atacante, mas sua visão ficara parada, tudo esta imóvel, tudo estava branco demais e num ultimo esforço apertou ainda mais seus dentes naquele corpo que terminava com o seu.

O terceiro atacante quando sentiu o gosto de sangue em sua boca num gesto talvez até natural tentou levantar um pouco mais aquela parte do corpo de sua vitima que estava na sua boca e sentiu que seu esforço dera certo, porém quem ataca raramente no calor da ação pensa na defesa e provavelmente por não considerar este detalhe capital, Ele, o terceiro atacante, não teve tempo de gritar quando sentiu inúmeros dentes entrarem na parte traseira de seu corpo, num gesto mecânico, ou até de instinto, de defesa se contorceu, tentou fugir daquela dor insuportável, chegou largar num primeiro instante aquilo que seria o seu banquete, e mesmo largando e tentando fugir daqueles dentes, sentiu uma pressão maior, sentiu uma dor indiscutível, sua parte traseira ardia de dor e de repente tudo aquilo acabou. Seu movimento de recuo, sua ação de se posicionar de frente para aquilo que lhe rompera sua parte final do corpo, mostrou seus dois companheiros imóveis no chão, todos sagravam muito. Seu companheiro mais antigo estava com o corpo rasgado e seu novo companheiro mostrava a cabeça furada, mordida, onde era o espaço do olho esquerdo não havia nada, apenas um rasgo que impressionava. Nesta movimentação também viu uma parte da possível vitima caída perto do seu companheiro mais antigo e logo mais na frente, numa distancia mínima, o restante do corpo de sua vitima.

Durante todo esse movimento o terceiro atacante teve a impressão que algum vulto vinha correndo em sua direção, tentou firmar a cabeça que ainda estava tentando se posicionar para o corpo da vitima quando sentiu uma pancada muito forte em seu pescoço. O impacto fez  com que seu corpo tremesse e num gesto de reflexo tentou ver o que acontecia e este ato de levantar a cabeça mesmo custando dores estranhas na sua coordenação para tentar esboçar alguma defesa ou algo parecido teve seu custo.

 

 

 

 

Sentiu uma nova pancada, agora em cheio na sua boca, alguns dentes caíram, assim como mordera sua própria língua. Não teve tempo de nada, apenas sentiu um ar diferente entrar pela narina e por mais complexa que fosse sua situação o movimento do impacto fez ver como se aquilo fosse sua necessidade de compreensão da sua realidade, uma parte de sua para traseira na boca de sua vitima.

Tudo acontecera de forma tão rápida, tão sem controle que agora sim, vendo uma parte de seu corpo separada do restante e ainda assim grudada na boca da sua vitima, percebera que não estava em melhores condições que seus dois companheiros quietos no chão. Caiu no chão finalmente e soube na sua compreensão que não poderia sair para caçar, tudo acabara.

Vituluau quando viu os três atacarem o estranho animal não conseguiu se segurar, pegou seu machado e correu para aquela cena que era inesperada. Enquanto corria para o ataque ou para participar também, não tinha nada definido em sua imaginação, apenas vivia o instinto, porem quando viu o estranho animal se defender, atacando dois dos três atacantes e numa fração de segundo lembrou-se que a pouco tempo atrás estavam todos dependurados nos galhos da árvore, sentiu, ainda que não soubesse explicar, uma vontade de ajudar a vitima. E ficou um pouco hesitante quando viu que dois dos três atacantes num passe de mágica já eram vitimas. Vituluau percebeu que ali na sua frente estavam animais poderosos que se encontrassem seu povo não haveria como vence-los e num gesto de revolta ou qualquer outra coisa, viu uma cabeça balançar em sua frente e não teve duvida, era a própria sobrevivência que estava em jogo, diminuiu a velocidade para acertar o golpe e quando sentiu que o movimento da cabeça do terceiro atacante esta voltando se desferiu o primeiro golpe, não acertou como queria, mas conseguiu ver que o animal estremecera todo, e como as vezes as coisas acontecessem melhor que o desejado, o terceiro atacante fez um gesto de levantar a cabeça, era o suficiente, não poderia errar e não errou.

Datote que vira também todo o ataque veio correndo ajudar, mas não foi preciso. Parou do lado de Vituluau e disse: “vamos ver como esta Ivituri, ele caiu em cheio”.

E os dois voltaram para ver como estava o companheiro.

Ivituri estava se mexendo como se estivesse tentando tirar uma imensa pedra de cima, seu olhar não era normal, parecia que um brilho diferente tinha tomado conta. Conseguiu ver seus dois companheiros chegarem. Quando eles chegaram apenas disse: “estou um pouco tonto, quero descansar” e deitou meio sem controle de seus movimentos e apagou. Datote olhou para Vituluau e disse: “vamos descansar um pouco também”.

 

continua….