Programa de inteligência artificial faz poesia – e lança preocupações

Há uma percepção entre alguns cientistas de que a tecnologia pode destruir a raça humana. Eles até construíram um relógio do Juízo Final, para mostrar o quanto estaríamos próximos disso.[Imagem: Kevin Warwick]

Medo da tecnologia

Um número cada vez maior de especialistas tem demonstrado preocupações com os perigos da inteligência artificial, mas será que esses programas realmente avançaram tanto assim?

Por exemplo, será que uma máquina, tipicamente incapaz de experimentar uma emoção, seria capaz de escrever uma poesia que mexa com a alma humana?

A pergunta procede porque, se uma máquina se tornar capaz de mexer com as emoções humanas – para que lado for ou com que intenção é uma questão que fica para os mais preocupados com o apocalipse científico – então elas estarão demonstrando um poder que pode justificar muitas dessas preocupações.

Poeta artificial

Jack Hopkins e Douwe Kiela, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, treinaram uma rede neural usando milhares de versos de poesia dos mais diversos autores e depois colocaram o programa para tentar escrever suas próprias rimas imitando determinadas métricas.

Os primeiros resultados foram entusiasmadores – ou preocupantes, dependendo do ponto de vista. Os versos compostos pelo programa conseguiram enganar vários voluntários, fazendo-os pensar que estavam lendo versos de um poeta humano, em vez da saída algorítmica de um programa de inteligência artificial sem coração.

O bot poeta é totalmente ajustável, afirmou Hopkins, detalhando que ele pode ser programado para escrever em um determinado ritmo ou sobre temas específicos.

Ele definiu o tema como “desolação”, por exemplo, e o angustiado programa de inteligência artificial veio com o seguinte trecho:

The frozen waters that are dead are now As águas congeladas que estão mortas estão agora
black as the rain to freeze a boundless sky, negras como a chuva que congela um céu sem limites,
and frozen ode of our terrors with e um tributo congelado de nossos terrores,
the grisly lady shall be free to cry com a sinistra dama devendo ser livre para chorar.

Programas emocionais

Poetas de carne, osso e emoções vivas, como Rishi Dastidar, torcem o nariz para a poesia robótica. Segundo ele, a poesia do programa de inteligência artificial está todo na superfície, sem nada subjacente. Além disso, diz ele, os poemas reais exploram ideias que podem não ser imediatamente evidentes no texto, enquanto um programa de computador não trata de ideias, apenas coloca uma palavra após a outra.

Além disso, defende Dastidar, como o poeta artificial é treinado apenas em poemas antigos e não tem necessidade de escrever qualquer coisa verdadeiramente nova, ele nunca poderá ser verdadeiramente criativo enquanto o seu modelo for apenas o que já foi escrito.

O poeta está certo, mas o público não tem o olho clínico para analisar os versos, e as palavras frias do programa, mesmo que sem alma e apenas derivadas do trabalho de poetas verdadeiros, podem suscitar emoções, como se viu nos experimentos com os voluntários.

O próprio Dastidar concorda que nem tudo é ruim nos versos da inteligência artificial, reforçando as preocupações de que os programas de computador podem estar se tornando capazes de fisgar as pessoas pelas suas emoções – quaisquer que sejam os objetivos de seus programadores.

Bibliografia:

Automatically Generating Rhythmic Verse with Neural Networks
Jack Hopkins, Douwe Kiela
Proceedings of the Association for Computational Linguistics (ACL 2017)

In:

Redação do Site Inovação Tecnológica

14/09/2017