Para escolhermos  ser apenas mais um

 

O atual momento não chega ser assustador no sentido amplo da palavra, apenas serve de referência para poder situarmos no nosso cotidiano enquanto modo de Vida. Esta alienação imposta através de centenas de opiniões, a maioria de pessoas desconhecidas ao nosso círculo mais próximo, mostra enfaticamente que não possuímos conhecimentos básicos para viver. Ou seja, a dinâmica diária, rápida, sem consciência própria, repetitiva evidencia aquilo que já foi apontado á décadas somos alguém na multidão apenas; aquilo que nas estatísticas apontam, apenas um número.

Esta situação cotidiana nas últimas duas semanas mostra que não dependemos de nada enquanto ideologia política, sócio cultural, econômica, apenas do bom senso se enfatizarmos a Vida como referência fundamental.

Contudo, essa necessidade de sobreviver traz implicitamente valores sociais de todas as grandezas, o que estabelece, ainda que num plano inconsciente, obrigações que não eram consideradas antes do atual momento, a carga emocional muito de elevada, o cuidado com os nossos mais próximos.

É essa realidade mais assustadora do que o próprio momento atual, estamos preparados para atendermos os nossos mais próximos. Estamos preparados para abandonar nossos desejos, nossas necessidades que já se tornaram hábitos para poder olharmos os nossos mais próximos?

É desta realidade que estamos escrevendo.

Em que momento da nossa vida, seja ela como um número na multidão, como alguém importante na comunidade perdemos a importância de sermos mais fraternos realmente e não como um referencial repetitivo.

Em que momento perdemos aquilo que é usado somente em épocas de comoção social, a humanidade de nossos gestos.

Saber quando deixamos de ser uma pessoa para ser mais um em qualquer comunidade virtual ou em qualquer ajuntamento político ideológico, iniciaremos realmente a voltar a viver e não ser o que somos hoje, indivíduos com medo de sair à rua.

Que possamos reencontrar este momento fundamental e descobrir que ainda há muito tempo para recuperarmos nossa dignidade de ser humano e não apenas um número nas centenas de armadilhas expostas para escolhermos  ser apenas mais um.

 

Recebido:

04 de abril de 2020