O Dízimo na Cultura Ocidental, suas origens

 

O Dízimo medieval e o Dízimo Bíblico 

 

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O que é o dízimo medieval? Para saber, vamos voltar um pouco no tempo para entendermos, resumidamente, o que é o dízimo bíblico, e então aprenderemos depois o que é o dízimo medieval e qual destes dois está sendo praticado e ensinado hoje nas igrejas.

O dízimo bíblico.

O dízimo passou a ser lei para o povo de Deus (Israel) com a lei de Moisés, depois da saída dos hebreus do Egito (1446 a.C.).

A lei especificava que eram para ser dados dízimos das colheitas, frutos das árvores, animais do gado e do rebanho unicamente (Lev. 27:30-33).

Estes dízimos eram usados para serem comidos em festividades anuais (Deut. 14:22-26) e prover o alimento dos levitas e das pessoas mais pobres que viviam nos territórios de Israel (Num. 18:21-24; Deut. 14:28-29; 26:12).

No caso dos levitas, recebiam o dízimo destes alimentos para que se dedicassem ao culto Divino de seu tempo (Nee. 10:37-39).

Enquanto o Senhor Jesus exercia seu ministério terreno, o mesmo dizimo da lei ainda era praticado, por isso os fariseus davam dízimos de hortaliças, por exemplo (Mat. 23:23).

Este é, de fato, o dízimo bíblico, e embora ele não esteja em vigor para nós hoje, se há uma lição que podemos aprender com ele é que precisamos, com amor, suprir as necessidades uns dos outros, uma virtude natural da vida cristã. Precisamos suprir as necessidades de nossos irmãos carentes de recursos e dar suporte aos que são verdadeiramente obreiros de Deus, para que façam a obra de Deus, pregando o evangelho (At 20:34,35; Gal. 6:9-10; 1 Jo. 3:17; Mat. 10:40-42; 1 Cor. 9:7-11; Gl 6:6; 1 Tim. 5:17,18).

A seguir vamos começar a entender o que é o dízimo medieval.

O dízimo medieval.

Com a chegada da nova aliança feita por nosso Senhor Jesus Cristo e seu sacerdócio superior e eterno, e ainda com a destruição de Jerusalém e seu templo, a consequente diáspora judaica do ano 70 d.C., o ministério Levítico perdeu sua eficácia e funcionalidade, e com isso certas leis cerimoniais de Moisés, incluindo o dízimo, pois perdeu sua aplicação devido estes eventos (leia Deuteronômio 14:22-26, por exemplo, para se ter uma ideia; esse texto descreve a relação dos dízimos com o culto celebrado no templo de Jerusalém).

É o que também está explicado em Hebreus 7:1-16.

Porém, ainda antes disso, os próprios apóstolos do Senhor já não trabalhavam mais com a doutrina do dízimo bíblico, nem mesmo para suprir necessidades alimentícias de certos irmãos (Atos 6:1; 11:27-30; 1 Cor. 16:1,2). Antes, sempre trabalhavam através da consciência e do amor dos irmãos a medida que iam necessitando, colocando a si mesmos como exemplo (At 20:33-35; 2 Tess. 3:6-9; 2 Cor. 8:1-8).

A consciência, o amor e a caridade uns para com os outros são virtudes naturais da vida cristã, e vão crescendo até florescer na vida daqueles que nasceram de novo (veja Efésios 2:10).

Isso permaneceu assim até o início da idade média (pelo menos), quando o império romano, em meados do século 4, começou a instituir o cristianismo como religião oficial do império, e com isso formou uma “igreja oficial” do cristianismo, a Igreja Católica Romana.

Um tempo depois (conforme registrado no Documento 8 da CNBB da pastoral do dízimo, publicado em 1974), no ano 567, em um concílio Católico na cidade de Tours, região da França, o “dízimo” começou a ser imputado aos fiéis sob domínio do império romano e sua Igreja que era dominante no ocidente europeu (de onde veio muito do cristianismo que conhecemos inicialmente).

Embora já houvessem cristãos ajudando a obra de Deus com seus recursos, as invasões bárbaras no império romano e as calamidades públicas (o que naturalmente atingia o salário que agora o clero recebia do Império), os forçou a criar o que podemos chamar de verdadeiras deturpações doutrinárias e teológicas. O pretexto deles para se cobrar o dízimo era o seguinte:

A história do dízimo na igreja cristã até o século 5:

 

Embora a legislação sagrada dos judeus impusesse a Israel a prática do dízimo, entre os cristãos dos primeiros séculos prevalecia a consciência de que o Evangelho havia levado à consumação as obrigações rituais e disciplinares da Lei de Moisés, colocando o definitivo em lugar do provisório …

Os pastores da Igreja, portanto, não pensaram a princípio em impor aos cristãos o pagamento do dízimo.

O dízimo do século 6 até a revolução francesa (1789):

A praxe de contribuir para cobrir as necessidades da Igreja ia se difundindo no Ocidente. Havia, porém, exceções da parte dos contribuintes.

Em vista disto, os Concílios foram intervindo nesse setor. O Sínodo Regional de Tours (Gália) [região da atual França], em 567, promulgou, por exemplo, a seguinte determinação:

“Instantemente exortamos os fiéis a que, seguindo o exemplo de Abraão, não hesitem em dar a Deus a décima parte de tudo aquilo que possuam, a fim de que não venha a cair na miséria aquele que, por ganância, se recuse a dar pequenas oferendas… Por conseguinte, se alguém quer chegar ao seio de Abraão, não contradiga o exemplo do Patriarca, e ofereça a sua esmola, preparando-se para reinar com Cristo”.

Ficaria muito longo transcrever mais trechos do documento aqui; a Igreja Católica Romana, porém, declara nele, que ela mesma restaurou a “doutrina do dízimo” para com a cristandade, embora com certas adaptações espúrias ao que era o dízimo verdadeiramente bíblico, e dotado de deturpações teológicas, das quais, em não poucas igrejas, infelizmente, ainda hoje são ensinadas e apregoadas.

Portanto, este é o dízimo medieval, isto é, aquele criado na idade média onde qualquer coisa de valor era dada ao clero através de certa imposição com falaciosos argumentos teológicos.

Esta prática foi se difundindo pelas regiões dominadas pelo império romano, e alcançando todo o continente europeu, de onde vieram os colonizadores do Brasil e muitas denominações de igreja oriundas, direta ou indiretamente, da Reforma Ptotestante, e por isso herdeiras de certas doutrinas bíblicas que foram deturpadas pela Igreja Católica Romana medieval, das quais até hoje estamos nos libertando pouco a pouco.

Novamente na região da França, em 585, foi ratificado o dízimo medieval, quem não o desse seria excomungado da Igreja (como se fosse excluído do rol de membros).

No século 8, o imperador Carlos Magno difundiu ainda mais a prática nas regiões onde governava, determinando que quem não pagasse o dízimo ao clero seria multado.

Nos dois primeiros concílios de Latrão, no século 12, este dízimo medieval foi finalmente incorporado como uma doutrina oficial da Igreja, ganhando várias “regras”.

No início do século 16, como você deve saber, com a chegada da Reforma Protestante, muitas coisas mudaram e várias novas igrejas surgiram; muitas coisas da verdadeira doutrina cristã foram restauradas, mas a doutrina do dízimo continuou.

O dízimo que se ensina e se pratica hoje nas igrejas, portanto, não é o dízimo bíblico, mas o medieval, como pudemos constatar resumidamente nestes acontecimentos históricos; não obstante muitos líderes vivem a se convencer do contrário, talvez por falta de conhecimento e pesquisa, talvez por alguns estarem tirando proveito do dinheiro dos dízimos de alguma forma, outros por conveniência e tradição, ou ainda outros simplesmente por questões administrativas, por considerarem que sem o dinheiro sistemático proveniente do uso dessa doutrina a igreja cristã não poderia sobreviver, aqueles que não tem a intenção de impor com supremacia obrigações aos irmãos, embora caiam em contradição doutrinária e corram o risco de estar depositando sua confiança no dinheiro, e não unicamente no Deus vivo, pela fé (Mat. 6:24; Mar. 10:24).

Comprovamos isso ainda pelo fato de os apóstolos cristãos não trabalharem com essa doutrina do dízimo em dinheiro (e nem sequer com a doutrina do dízimo da Lei de Moisés eles trabalharam), pois o dízimo bíblico, isto é, da lei do SENHOR, nunca foi dinheiro, mas alimentos que eram para dar sobrevivência, como vimos mais acima, embora os cristãos que frequentam nossas igrejas hoje sejam induzidos a pensar que aquele é o dízimo bíblico, pois a maioria dos líderes lhes ensinam com textos isolados de seu contexto (ou, de modo apócrifo, adaptado para o nosso contexto), como é o caso do famoso Malaquias 3:10, criando assim uma doutrina completamente solapada.

Me perdoem os pastores que usam dessa atual pseudo doutrina do dízimo como sistema financeiro de seus templos e que são honestos quanto ao uso do dinheiro e bons administradores; eu tenho como missão ensinar a palavra de Deus com honestidade, integridade e verdade, a medida que eu mesmo vou aprendendo e conhecendo também (não que esse não seja o dever de todo servo de Deus), por isso eu não posso omitir ou manipular a verdade, o ensino ou os fatos, ou ceder a certas adaptações doutrinárias para defender preferências e interpretações subjetivas (solapadas) de textos bíblicos pregados fora de contexto, e por isso com incorreta aplicação, que acabam por causar dissensões entre os líderes, e certas confusões teológicas que refletem diretamente na qualidade de vida cristã de nossos irmãos.

Não importa qual seja a denominação da igreja, eu estarei sempre do lado da verdade!

Mas essa situação também não significa que não devemos mais usar de nossos recursos para investir na obra de Deus!

 

De que forma deveríamos dar o suporte necessário para o reino de Deus então? Com as contribuições voluntárias e espontâneas de todos nós, segundo a capacidade de cada um!

Para você ter uma noção do que eu estou falando, em um de seus sermões pregados em 18 de abril de 1880, Charles Spurgeon, um dos mais exímios pregadores modernos, diz:

Também é digno de nota que, com relação à liberalidade cristã, não existem regras estabelecidas na Palavra de Deus.

Lembro-me de ouvir alguém dizer: “eu gostaria de saber exatamente o que devo dar”.

Sim, querido amigo, sem dúvida você gostaria. Mas você não está sob um sistema semelhante àquele pelo qual os judeus eram obrigados a pagar o dízimo aos sacerdotes. Se houvesse essa regra estabelecida no evangelho, destruiria a beleza da doação espontânea e tiraria toda a flor do fruto da sua liberalidade!

Não há lei para me dizer o que devo dar a meu pai no aniversário dele. Não existe uma regra estabelecida em nenhum livro de direito para decidir que presente o marido deve dar à esposa, nem que tipo de afeto devemos dar a outros a quem amamos. Não! O presente deve ser gratuito ou perdeu toda a sua doçura.

Até no Israel dos tempos pré cristãos, quando o povo era movido a contribuir espontaneamente para a obra de Deus, os resultados eram mais do que se esperava (Êxodo 25:1-2; 36:2-7; 1 Cron. 29:1-9); portanto, o dízimo era taxa agrícola para prover o alimento dos levitas, viúvas órfãos e estrangeiros (pobres) na terra de Israel (Deut. 14:28,29; 26:12). Nem mesmo na terra de Israel ele é praticado hoje, devido a inexistência (e atual ineficácia) do sacerdócio Levítico e do templo de Jerusalém; nem tão pouco este dízimo bíblico é aplicável para a igreja cristã (exceto as virtudes que estão em sua essência, ex.: Caridade, culto a Deus etc.).

Em seu livro God’s plan for giving, John MacArthur ensina acerca do dízimo bíblico:

 

“… Eles estavam financiando as pessoas que administravam o governo, os Levitas; eles estavam suprindo as festas nacionais e assim por diante com o dízimo das festividades. E o terceiro dízimo era o programa de bem-estar para os pobres. Isto é o povo financiando a entidade nacional.

Todos estes 3 são taxas, e não ofertas voluntárias a Deus. Dízimo sempre foi taxa. De forma que os programas de governo pudessem acontecer. O programa sacerdotal, o programa religioso nacional e o programa de bem-estar.”

Concluindo, o que se vê do dízimo hoje em dia nada tem a ver com o dízimo que de fato é bíblico (basta ler na bíblia), porque hoje é praticado o dízimo medieval, e não o bíblico.

// Bíblia se Ensina

 

In:

https://telegra.ph/

setembro 25, 2020