Este Papel Eterno de Figurantes

 

Existe, como já falam muitos, um “novo normal”, fruto não da ação dos responsáveis pela dinâmica da sociedade, mas pela ausência de dados realmente concretos sobre o surgimento da Covid19. Se realmente formos viver num “novo normal”, precisamos saber que “normal” era o antigo, parece me óbvio demais.

Não existe o novo se não existir o velho. E qual era o “velho normal”?

É com esta simples curiosidade que começa a haver as grandes dúvidas que caracterizavam o cotidiano antes da Covid19, desemprego, falta de saúde, falta de segurança, roubalheira generalizada nas três esferas públicas enfim, a realidade das últimas décadas.

Nos últimos dez anos começou lentamente neste país o surgimento de uma massa de indivíduos que não conseguiam enxergar objetivamente melhoras nas opções de vida, de trabalho, de saúde, de segurança e concomitantemente com melhorias tecnológicas no acesso as redes sociais esta massa pode ser dirigida ou manipulada como querem alguns, com informações que não expressavam realidades algumas, mas traziam em si uma gama de possibilidades difusas de melhorias assim como opiniões que não podiam ser confirmadas, contudo serviam de alentos para esses indivíduos. Não esqueçamos jamais as manifestações iniciais de 2013, não seus desdobramentos, mas suas origens nos vinte centavos. Levou pouco tempo estas manifestações perderam seu encanto e foram substituídas pelas ideologias oficiais aceitas neste país. Se por um lado houve um gradual aumento nas abstenções nas eleições que se seguiram, surgiu também uma essência da alma brasileira, a potencial raiva generalizada contra o status quo, seja ele qual for. A política, a roubalheira, a economia que não ajuda, a mortalidade geral no país, a falta de opções generalizadas para o jovem que sai das escolas e ou das faculdades, a saúde entregue e envolta em falcatruas inimagináveis, este conjunto todo e que pode ser aumentado em muito ganhou corpo e porta vozes que nem sempre sabiam o que realmente falavam, mas o encanto de ser contra qualquer coisa oficial já era motivo bastante para ser seguido nas redes sociais.

É a mudança de paradigma que começou a solidificar-se na sociedade brasileira mais diretamente dependente das redes sociais, ou seja, uma parcela da população que por mais que não seja aceita pelas mídias tradicionais, estabelece novos personagens que tomam os microfones e falam o que todos sabem e conhecem, mas que não eram ditos.

Esta é a realidade que se aproxima no plano da farsa que acontece a cada dois anos, agora com um “velho novo normal”, uma doença que matou milhares, mais de cento e dezoito mil brasileiros.

As notícias falsas ou de difíceis comprovação, os comentários antigos de décadas de uso, saúde, educação, saneamento, trabalho serão as novidades neste “velho novo normal” que nos espera, e, por pior que seja, somos atores coadjuvantes sem ao menos saber do que se trata realmente este papel eterno de figurantes.

 

Recebido: 27-08-2020