O Lixo Nosso de Cada Dia

       Trabalhando na área ambiental há algum tempo, frequentemente, quando converso com as pessoas o assunto meio ambiente vem à tona de forma natural. Praticamente todos manifestam sua indignação com a devastação das florestas, preocupação com o aquecimento global e a consequente elevação do nível dos mares e tristeza pela extinção de espécies. Sentem-se incomodados com a poluição ou escassez das águas. Invariavelmente a maior parte das pessoas expressa revolta com catástrofes “fukushimianas”, “marianaianas” e para os mais antigos “chernobilianas”, bem como se mostra impressionada com a “insurreição” da Natureza frente a tantas agressões praticadas pelo homem… Muito tocante, só que não.

       Uma observação um pouco mais aprofundada das pessoas, quase sempre, acaba por sinalizar que, de uma forma geral, há muito discurso e pouco engajamento. Estou sendo exagerada? Vamos a alguns exemplos. Em nossos trajetos diários, encontramos toda sorte de lixo pelas ruas, avenidas, parques, praças e margens de rios de nossas cidades. Talvez algumas cidades em maior escala do que em outras, mas invariavelmente há sempre uma garrafa pet, um saco plástico, uma garrafa long neck, um resto de embalagem de isopor entre outros, em terrenos desocupados, junto às bocas-de- lobo ou ali mesmo no meio da rua.

      A pessoa que se diz preocupada com a derrubada da floresta amazônica é aquela capaz de não separar o lixo seco do orgânico em sua casa, porque o recolhimento só ocorre uma vez por semana. Aquele que demonstra desalento pela extinção de espécies, corta a árvore em seu quintal porque o pátio fica “sujo” com suas folhas, tornando-se necessário varrer diariamente. Quem manifesta preocupação com a emissão de gases de efeito estufa, não dispensa o uso do automóvel em pequenos deslocamentos. Ou seja, preservar o meio ambiente é necessário e urgente, todos concordam, mas na casa do outro, da porta de casa para fora, lá na Floresta Amazônica.

       De acordo com o site Avaaz.org, metade de todo plástico produzido no mundo é usado só uma vez e depois jogado fora e, se nada for feito, até 2050 haverá mais plástico do que peixes nos oceanos! Aliás, há um link abaixo pra quem quiser assinar uma petição a ser entregue à Organização das Nações Unidas para pressionar os países a banirem plásticos descartáveis.

       Como se não bastasse a degradação em nossas cidades, em nossos rios e oceanos, alcançamos um grau de sofisticação na escala da poluição, pois já existe uma camada de detritos orbitando a Terra. O lixo espacial é composto de diversas partes e dejetos de naves espaciais deixados para trás após seu lançamento, de satélites desativados, ferramentas e, surpreendentemente, de luvas, máquinas fotográficas e escova de dentes perdidos por astronautas! De acordo com um relatório, divulgado em 2008, pela agência espacial americana NASA, estimava-se que existissem na época cerca de 17 mil detritos espaciais com medida acima de 10 cm, 200 mil entre 1 e 10 cm e milhões de fragmentos com menos de 1 cm. Ao que tudo indica, nem mesmo as mentes brilhantes de cientistas, engenheiros e astronautas estão devidamente capacitadas a decidir o que fazer com o lixo.

       Desde sempre me intrigaram as razões que levam as pessoas a não se considerarem responsáveis pela destinação adequada do lixo que produzem. Inicialmente achei que se tratava de falta de informação (individual) e de falta de vontade política (administração pública). Ainda não tenho absoluta clareza, mas tenho algumas pistas. E com certeza, pelo menos nos grandes centros, não é por falta de informação ou vontade política. Para falar a verdade, acredito que se trata de uma crise de “adultice”, pois somos imaturos enquanto cidadãos e também enquanto sociedade quando se trata do cuidado com o meio ambiente. A despeito das campanhas públicas e do trabalho das ONG ambientalistas, empurra-se a responsabilidade unicamente para o Poder Público de recolher e destinar o lixo que os cidadãos espalham pelas ruas, descartam em terrenos baldios ou em margens de córregos e de rios sem o menor constrangimento.

Espero que possamos atingir a maturidade antes que não se consiga mais enxergar as estrelas. Jean Paul Sartre, já nos disse: O inferno são os outros. E quando se trata de meio ambiente, então…

Petição para banimento dos plásticos descartáveis:

https://secure.avaaz.org/campaign/po/end_plastic_pollution_loc/?pv=123

Algumas informações sobre detritos espaciais:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Detrito_espacial

 

 

 

 

Imagem acessada em: https://br.sputniknews.com/portuguese.ruvr.ru/2013_03_12/Detritos-espaciais-ameacam-satelites- orbitais/