Era Uma Vez Um Azulão…

A primeira vez que vi um azulão, ele estava numa gaiola trazida por meu pai. Lindo, bico grande e escuro, penas e pluminhas em dois ou três tons de azul, conforme a luz lhe tocasse o pequeno corpo. Meu pai foi logo me alertando sobre a preciosidade de seu canto, um pássaro raro de se avistar. O azulão ganhou logo um lugar de destaque entre os outros tantos passarinhos que viviam no nosso quintal em gaiolas e viveiros. Eu tinha então seis anos.

Lembro também de algumas idas com meu pai a matagais relativamente próximos à nossa casa para (vejam só!), montar uma arapuca, e com o auxílio de um bom cantador, tentar capturar algum desavisado ou esfomeado passarinho. E foi através dessas experiências com meu pai, que passei a conhecer várias espécies, aprendi sobre ninhos, ovinhos e filhotes. E também como cuidar de um passarinho doente ou alimentar um filhote caído de algum ninho de uma árvore alta. E gostei muito. 

Passados alguns anos, já adolescente, minha ligação com o meio ambiente, iniciada nos aprendizados e observações sobre pássaros com meu pai, se reconectou ao assistir os documentários de Jacques Yves Cousteau sobre suas viagens de pesquisa no navio Calypso. Meu entendimento de tudo o que significava meio ambiente se enriqueceu com suas histórias e mergulhos em oceanos repletos de vida e beleza.

Suas imagens marcaram profundamente minha memória e meu coração. Cousteau, na década de 1970, era um pioneiro, que viajava por todos os oceanos estudando sobre a vida marinha e seus tesouros, nos revelando também o quanto esse maravilhoso, porém complexo equilíbrio, já naqueles dias, encontrava-se sob grande ameaça.

Foi assistindo os documentários e pesquisas de Cousteau que ouvi pela primeira vez sobre o direito que as gerações futuras têm de receber de seus antecessores um meio ambiente sadio e equilibrado, e o quanto tudo isso tem a ver com as nossas escolhas e atitudes hoje, agora. Cousteau nos falava sobre o dever de preservar não apenas para os que aqui estão – humanos, fauna e flora, mas também para aqueles que virão em cinquenta, cem, mil anos. Abracei a causa!

Entretanto, como na vida não controlamos tudo o que nos acontece, não pude cursar oceanografia e fiz engenharia, mas nunca me afastei da vontade de me envolver com a área ambiental. Assim, profissionalmente encontrei meu espaço na interface entre engenharia e meio ambiente, trabalhando com licenciamento e fiscalização ambiental de obras civis – rodovias, parcelamento do solo, pequenas centrais hidrelétricas, na iniciativa privada e no setor público. Por fim, sempre que penso neste nosso planeta e no quanto a vida floresceu de forma tão extraordinária, tão diversificada, chego inevitavelmente à conclusão de que nós, sendo a espécie com maior capacidade de raciocínio e entendimento, deveríamos ser os guardiões de toda esta incrível coleção de formas de vida. Deveríamos ser os responsáveis pela preservação de cada formato de vida que nos é contemporânea, porque cada ser que na Terra nasce tem tanto direito à vida, ao ambiente, ao alimento e ao bem estar quanto nós. E por termos esta enorme e crescente capacidade de intervenção na Natureza, nossas responsabilidades e obrigações também são muito grandes e crescentes. A cada espécie extinta, perdemos um irmão, nos tornamos mais pobres, nos tornamos mais solitários em nosso planeta e, talvez, no Universo.

Yuri Gagarin, o primeiro astronauta a avistar a Terra a partir do espaço, nos disse: “A Terra é azul!”

É azul, como o passarinho que conheci aos seis anos e que me abriu os olhos, a mente e o coração para o cuidado que devemos dedicar ao nosso planeta Terra. 

extinção-passaro                                                                                         Azulão (Cyanoloxiabrissonii)

                                                                                            *imagem retirada da internet sem autoria identificada 

                                                                                           (http://petfriends.com.br/azulao-gosta- de-agradar- a-amada/)

Käthe Sofia Schmidt é engenheira civil, especialista em engenharia de recursos hídricos e saneamento ambiental.kasofia.revista@gmail.com