As Polacas: a prostituição judaica no final do século XIX.

A expansão urbana a partir de 1850 movimentou o porto do Rio de Janeiro, centro das atividades de importação e exportação, e incrementou a imigração para a cidade. Entravam marinheiros em trânsito, imigrantes estrangeiros ou migrantes de outras regiões do país em busca de melhores condições de vida, abrindo com isso mercado ao baixo meretrício. Por outro lado, a fixação, na cidade, da nova aristocracia do café abriu espaço para o desenvolvimento da prostituição de luxo, vinculado á expansão dos lazeres noturnos. Meretrizes estrangeiras, de diferentes categorias e preços, disputam de maneira acirrada o espaço na cidade que se expandia em ritmo acelerado.

O cenário na Europa era de fome, pobreza e antissemitismo no final do século XIX. Muitas das moças de famílias judias ansiavam por maridos e melhores condições de vida e as Américas surgiam como forma de construir uma nova vida longe da discriminação e da miséria. Jovens judias, analfabetas, muitas ainda virgens, recebiam propostas de casamento e promessas de uma vida melhor. Já no porto de Marselha, no sul da França, o sonho caiu por terra e antes mesmo de embarcar para o Novo Mundo, elas eram obrigadas por seus próprios maridos a se prostituírem. A “Zwi Migdal” era uma organização criminosa constituída por pessoas ligadas à comunidade judaica do Leste Europeu, e que operou ao longo de meados do Século XIX até a eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939).

As “Polacas” foram vítimas de tráfico humano, eram moças pobres, vindas de uma comunidade na qual não se podia negligenciar o peso do dote no ato do casamento, o que excluía qualquer mulher desprovida de dote da possibilidade de ascensão econômica pela via do matrimônio. A importância das núpcias entre os membros da religião judaica criou a figura do agenciador de casamentos. Podiam ser homens ou mulheres, que faziam contato com os rapazes judeus solteiros nas Américas, mandando-lhes fotos das pretendentes e fechando o “negócio”, ou seja, acertando o casamento. Muitas vezes, o “tráfico de escravas brancas” aparece associado a esta corretagem. A pobreza das famílias impedia que a sina de seus membros fosse acompanhada de perto, e por isso não havia controle sobre os agenciamentos. Algumas vezes, ao chegarem a seus destinos, as jovens enfrentavam a dura realidade de terem sido enganadas. A partir daí, a falta de instrução e o despreparo para o mundo fabril as obrigavam a participar do mundo de trabalho possível. As “polacas” ficaram famosas na mitologia urbana carioca do começo do século XX, e sua presença foi marcante na Era Vargas.

A história, que acaba de ser contada é estudada há anos pela historiadora Beatriz Kushnir, diretora do Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro e autora de Baile de Máscaras.

REFERÊNCIAS:

KUSHNIR, Beatriz. 1996. Baile de Máscaras. Rio de Janeiro: Imago.

WOLFF, Egon & Frida Wolff. 1975. Os Judeus no Brasil Imperial. São Paulo: Centro de Estudos Judaicos/USP.

© C.Wittel.

In:

Fotografias da História, facebook

2 de dezembro·